Medjugorje e o milagre das conversões

Rino Cammilleri: "Não vi milagres nem maravilhas, nem uma experiência espiritual particular. Mas vi infinitas conversões"

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Antonio Gaspari

ROMA, sábado, 13 de outubro de 2012 (ZENIT.org) - Tudo em Medjugorje é excepcional: a duração do fenômeno das aparições, as muitas curas, o interesse da mídia. E, mais do que qualquer outra coisa, o eco despertado no mundo, que, num espaço de trinta anos, transformou a pequena aldeia desconhecida da ex-Iugoslávia na meta de um milhão de peregrinos por ano.

Mas o que empurra os fiéis a visitar um lugar tão remoto? O que os faz vencer a dura subida da colina Podbrdo ou da colina ainda mais difícil do Krizevac, às vezes de pés descalços? E o que resta neles depois dessa jornada espiritual?

Para responder a estas perguntas, o escritor Rino Cammilleri publicou o livro Medjugorje - O caminho do coração, em que descreve o que viu em duas peregrinações àquele vilarejo da Bósnia, a primeira em 1990, depois de uma crise existencial, e a segunda em 2011, já repleto de uma dolorosa maturidade conquistada ao longo do tempo.

Duas viagens separadas por vinte anos, durante os quais o clima político mudou com a queda do muro de Berlim, com a desintegração da Iugoslávia e com o fim da Guerra Fria. Mudou também a vila, que cresceu e agora se concentra em torno da recepção dos peregrinos. Mudaram os videntes das aparições, que hoje são adultos e vivem uma vida quase "normal". O que não mudou é a intensidade da experiência religiosa.

Zenit entrevistou Rino Cammilleri.

ZENIT: O que você acha do fenômeno Medjugorije?

Rino Cammilleri: Como leitor assíduo do Evangelho, eu tento ser realista e prático. Por isso, eu aplico aquela máxima do "vem e vê". Fui duas vezes a Medjugorje, num intervalo de vinte anos. Eu vi crescer e se desenvolver um fenômeno que hoje é planetário e apliquei o critério de interpretação do Evangelho: pelos frutos se conhece a árvore. Em Medjugorje nós temos pessoas que rezam, que reencontraram o caminho cristão, que se confessam. E é muita gente. Se isto não é bom fruto...

ZENIT: Houve realmente as aparições?

Rino Cammilleri: Eu não posso afirmar, nem é um julgamento que me caiba. Eu, de extraordinário, não vi nada. Nem sequer senti especiais "frissons" emocionais. Eu não fui como jornalista, nem como simples curioso, mas como peregrino, assim como todos os outros. Eu também tinha os meus pedidos de graças, como todos, e não as obtive, como suponho que muitos outros também não. Mas eu olhei em volta e aquilo que eu vi foi suficiente para mim. Se não aconteceram as aparições, então o mistério é maior ainda.

ZENIT: O que você acha dos videntes?

Rino Cammilleri: Eu conheço pessoalmente apenas uma, a Marija. A Viska eu vi de perto, os outros só viram na TV ou em fotos. A primeira parece ser uma pessoa totalmente normal, em todos os sentidos, e isto é um argumento em seu favor. A outra me impressionou por causa da alegria que ela exala por todos os poros: uma pessoa tão alegre assim eu nunca vi. De resto, eu só sei o que li sobre eles, eu sei que os seis foram analisados ​​de todas as formas pela ciência moderna e foram considerados sadios de mente e de personalidade. Por outro lado, todos aqueles que os encontram falam da disponibilidade e da serenidade deles. Considerando que já faz mais de trinta anos que, por usar esta expressão, eles vivem em tempo integral como “os videntes de Medjugorje”, eu fico impressionado com a falta de afetação deles, com o comportamento natural, com o fato, que seria muito humano, de que eles não exigem privacidade nem que os outros os deixem em paz.

ZENIT:Como é possível que as aparições se repitam há tanto tempo? De acordo com alguns especialistas, as aparições de Maria na história tiveram um tempo limitado...

Rino Cammilleri: No meu livro, eu analiso todos os aspectos que a crítica aborda, incluindo este. Até porque o livro conta a história de uma viagem minha que é também mental e histórica: depois de trinta anos estudando a história do cristianismo, eu não escondi as dúvidas que me vinham à mente sobre Medjugorje; e lidei com elas justamente comparando-as com outras aparições marianas, com as "profecias", com os "segredos"... Sobre isto, em particular, eu devo dizer que não há precedentes. Por exemplo, para a vidente francesa Estelle Faguette, no século XIX, a Virgem Maria apareceu durante mais de cinquenta anos, todos os dias, até a sua morte. Mas julgar o sobrenatural só com base no precedente pode ​​ser enganador...

ZENIT: De qualquer forma, não há dúvidas de que as conversões em Medjugorjie continuam acontecendo de forma permanente. Muita gente se confessa, até os céticos, e rezam, se confiam a Maria. Sobre as milhares de graças que surgem naquele lugar, parece que não existe nenhuma dúvida. Eu conheço pelo menos três pessoas ateias e hostis à Igreja Católica que foram para Medjugorije e agora são sacerdotes. O que você acha disto?

Rino Cammilleri: É justamente o motivo que me levou a me interessar. De acordo com os videntes, Nossa Senhora em Medjugorje chama à conversão e é isso o que está acontecendo lá em abundância. Livros (inclusive os meus, que são quase quarenta), conferências, planos pastorais, homilias, o pátio dos gentios, aulas com os não crentes e diálogos diversos parecem que não movem um milímetro uma pessoa descrente. Pode-se dizer que nem mesmo um concílio inteiro os move, uma vez que, no cinquentenário do Vaticano II, o papa foi forçado a convocar um Ano da Fé, porque é ela quem parece estar em queda livre no terceiro milênio cristão. Seminários vazios, as vocações caindo, contestações dos poucos que ficam, teimosos, contra as evidências, em acreditar que a solução esteja nas "reformas". Enfim, como você disse, é só ir a Medjugorje e, veja só: até um ateu empedernido se torna padre.

(Trad.ZENIT)