Mensagem do CELAM diante da crise atual

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BOGOTÁ, terça-feira, 17 de fevereiro de 2009 (ZENIT.org).- Publicamos a mensagem que a presidência do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) emitiu após a reunião realizada em Bogotá nos dias 5 e 6 de fevereiro. O texto oficial em português foi remetido ontem a Zenit.

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1. A Presidência do CELAM (Conselho Episcopal Latino Americano), reunida em Bogotá nos dias 05 e 06 de fevereiro, com os Bispos Diretores dos Departamentos e Centros, no espírito da Missão Continental, manifesta sua preocupação e sua  solidariedade diante da grave crise atual.  Ao mesmo tempo, chama a atenção sobre a responsabilidade que todos nós temos: governantes, políticos, empresários, trabalhadores, associações civis e comunidades religiosas dos diversos credos, de promover a humanização das estruturas políticas, econômicas e de desenvolvimento, para que estejam a serviço do bem comum, da primazia do trabalho sobre o capital e da produção sobre as finanças. Queremos percorrer juntos este caminho de ameaças e de oportunidades, apostando  nos valores da democracia, da participação e do diálogo. 

2. “Ninguém coloca um remendo de pano novo em roupa velha, porque o remendo repuxa a roupa e o rasgão fica ainda maior..” (Mt 9, 16), palavras do Evangelho que  Bento XVI recordou  em sua bênção de Ano Novo. A referência faz clara alusão às medidas que temos de tomar diante da  atual crise econômica global. Para o Pontífice, esta crise põe a prova o futuro  da globalização.   Na realidade, a crise atual não é o resultado de dificuldades financeiras imediatas, mas é uma  consequência do estado da saúde ecológica do planeta, sobretudo, da crise cultural e moral que vivemos, cujos sintomas são evidentes há tempo em todo o mundo. (cf. Bento XVI, Homilia de 1º. de janeiro de 2009).

3. À luz do apelo do Papa, esta situação alarmante nos interpela duplamente: de um lado, nos compromete a expressar nossa solidariedade em ações e obras concretas, que facilitem a busca de soluções para os  problemas do desemprego; da fome; da migração forçada; a deterioração da saúde e da perda de qualidade de vida dos pobres que, como sempre, são as vítimas mais afetadas das crises;  por outro lado, nos estimula a empenhar  os melhores esforços das universidades e dos institutos católicos, de  investigadores e agentes de pastoral social, para  contribuir na formação de um novo modelo de desenvolvimento para a América Latina e o Caribe e de um sistema econômico mundial mais bem regulamentado, que elimine a pobreza e promova a justiça e a solidariedade em nosso  Continente, tristemente o mais desigual do  planeta.

4. Os Bispos da América Latina  e do Caribe, reunidos em Aparecida, advertiram que a “globalização comporta o risco do fortalecimento dos grandes monopólios e de converter o lucro em valor supremo” (cf. Documento de Aparecida, n. 60). Daí, a urgente necessidade de que a globalização deva reger-se pela ética, colocando tudo a  serviço da pessoa humana, criada à imagem e   semelhança de Deus. (Ibid.). A atual crise financeira tem manifestado a ambição excessiva do lucro acima da valorização do trabalho e do emprego, transformando-o em um fim em si mesmo. 

5. Essa inversão de valores corrompe as relações humanas substituindo-as pelas transações financeiras, que deveriam estar a serviço da produção e da satisfação das necessidades humanas. Ficou evidente que a globalização, tal  como está configurada, atualmente, não tem sido capaz de interpretar e  reagir em  função de valores objetivos, que se encontram  para além do mercado e que constituem o que há de mais importante na vida humana: a verdade, a justiça, o amor e muito, especialmente, a dignidade e os direitos de todos, inclusive, daqueles que vivem à margem do próprio mercado (cf. DA, n. 61). A economia internacional tem concentrado o poder e a riqueza nas mãos de poucos, excluindo os desfavorecidos e aumentando a desigualdade (cf. DA, n. 62). 

6. Isso nos leva a considerar seriamente a necessidade de estabelecer as bases para uma nova ordem internacional, fundada em novas regras de jogo, que também tenham em conta os valores do Evangelho e os ensinamentos sociais da Igreja, a fim de promover uma globalização marcada pela solidariedade e pela racionalidade, que faça deste  Continente, não só o Continente da esperança, mas também o Continente  do amor. (cf. DA, n. 64). Para alcançar esse propósito, torna-se indispensável a presença e a colaboração de todos os homens e de todas as mulheres de boa vontade, sem discriminação religiosa, cultural, política e ideológica. 

7. Diante do desejo de construir a paz, uma vida mais digna e plena para todos e de abrir caminhos de esperança para os pobres e excluídos, queremos concluir, fazendo nossas as perguntas de Bento XVI: “Como não pensar em tantas pessoas e famílias afetadas pelas dificuldades e as incertezas que a atual crise financeira e econômica tem provocado em escala mundial?  Como não recordar a crise alimentar e o aquecimento climático, que tornam ainda mais difícil o acesso à alimentação e à água para os habitantes das regiões mais pobres do planeta?” (Discurso aos Membros do Corpo Diplomático, 8 de janeiro de 2009). 

Esses questionamentos fazem ressoar hoje, com mais veemência, a dramática pergunta de Deus a Caim que nos afeta a todos,  nos interpela  e não nos pode deixar indiferentes: “onde está teu irmão” (Gen. 4, 9). 

Bogotá, 7 de fevereiro de 2009

+ Raymundo Damasceno Assis

Arcebispo de Aparecida, Brasil

Presidente do CELAM

+ Baltazar Enrique Porras Cardozo

Arcebispo de Mérida, Venezuela

Primeiro Vice-presidente do CELAM

+ Andrés Stanovnik, OFM.Cap.

Arcebispo de Corrientes, Argentina

Segundo Vice-presidente do CELAM

+ Víctor Sánchez Espinosa

Arcebispo eleito de Puebla-México

Secretário-geral do CELAM

+ Emilio Aranguren Echeverría

Bispo de Holguín, Cuba

Presidente do Comitê Econômico do CELAM