Messori: tento demonstrar que o cristão não é um idiota

O escritor católico mais traduzido do mundo apresenta suas confissões

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Por Nicolás de Cárdenas

ROMA, quinta-feira, 12 de novembro de 2009 (ZENIT.org).- Em seu último livro publicado na Espanha, o apologista da razão Vittorio Messori é o caçador caçado. Aquele que entrevistara os últimos dois papas, é agora interrogado pelo vaticanista Andrea Tornielli, no volume intitulado “Por que creio” (LibrosLibres).

Messori (Sassuolo, 1941) jornalista e escritor italiano, é considerado o escritor de temas católicos mais traduzido do mundo. Suas obras mais influentes foram “Ipotesi su Gesù” (1977) e “Rapporto sulla Fede” (1987 – entrevista com o cardeal Joseph Ratzinger). 

Foi o primeiro jornalista a publicar um livro-entrevista com João Paulo II, “Varcare le soglie della speranza” (1994).

–No início do livro, percebe-se o senhor muito reticente a abrir sua alma. Foi tão difícil como parece enfrentar a sistematização de sua vivência de conversão?

–Vittorio Messori: Esperei muitos anos antes de responder. Primeiro porque escrevi 23 livros, todos de investigação religiosa, mas sempre tinha rejeitado contar minha conversão. Meus leitoras sabem que em minha vida há um antes e um depois. Sabem que não nasci católico “papista” ortodoxo, e têm muita curiosidade de saber como aconteceu. Por quê? Que sucedeu em sua vida? Como de anticlerical passou a ser um católico rigoroso no pensamento, não tanto na vida. Porque eu não me apresento como um beato. Sou como todos, um pecador que faz muitas coisas incoerentes. 

Tenho sido muito zeloso em minha vida íntima, não tinha me animado a contá-la. Mas, com efeito, a conversão é um mistério e é muito difícil contar um mistério. Meu trabalho está nas palavras, sou jornalista e escritor, trabalho com elas. Mas me era muito difícil encontrar as necessárias para contar este mistério.

Finalmente me decidi a responder não apenas ao pedido dos leitores, mas ao deste jornalista, este colega, Andrea Tornielli, que para mim é o melhor vaticanista italiano, além de um grande jornalista e escritor. Agora então me decidi pela primeira vez contar por que minha vida é dividida em duas, ao passar da não-crença à fé.

–Pode-se abarcar a experiência mística de uma pessoa em letra impressa? É possível verbalizar toda mudança intelectual e moral que experimenta alguém que se converte?

–Vittorio Messori: Este é um dos motivos pelos quais sempre tinha dito que não. O mistério é difícil de contar. Não sou um místico, nem um visionário. Sempre fui uma pessoa muito pragmática, muito concreta, muito racional. Mas, não sei por que, houve um período em minha vida, de alguns meses de verão, onde encontrei uma nova dimensão na qual a verdade, que eu não pensava que existisse em maiúsculas, se me fez evidente. Está no Evangelho.

Eu era um bom estudante e me preparava para ser não apenas jornalista, mas também professor universitário. Tinha lido muitos livros, mas esse pequeno livro, o Evangelho, não. Não suspeitava que nele estivesse a Verdade.

Continuei usando a razão como antes, mas aberto ao mistério. Meus professores me ensinaram a usar a razão pura, mas descobri que usando-a, ao final da razão sempre se chega ao mistério. Em todos os meus livros, trilho a razão. Não trabalhei a pregação, a espiritualidade, a homilia. Tento ajudar o leitor a raciocinar sobre a fé e, ao final, apostar na veracidade da fé.

–Ainda que sua conversão pareça ligada também a um “fato extraordinário”, o senhor não alega isso como um argumento, mas busca razões objetivas e fundamentos históricos objetivos para a credibilidade da Igreja. Que opina da apologética baseada não tanto na racionalidade da fé como nas experiências e vivências individuais?

--Vittorio Messori: Não há contradição entre as duas. A verdade da fé compreende-se raciocinando e vivendo. Faz 40 anos minha ‘ruptura’ e neste tempo raciocinei e estudei muito, mas sobretudo vivi e encontrei que o fruto de minha racionalização encontrava sentido na vida completa. O Evangelho conta que os discípulos perguntaram a Jesus quem ele era. Ele não lhes dá sermões, não lhes oferece racionalizações, dizia-lhes: ‘vem e me segue’. Vem comigo, vive comigo e verá que sou o Messias. O cristianismo não é uma filosofia, nem uma ideologia. É um encontro de duas pessoas. 

–No livro há certo pesar pelo abandono de seus antigos professores, os que lhe introduziram no caminho do agnosticismo. Sentiu-se traído por quem defendia a razão como a única base possível, quando essa própria racionalidade é o eixo de sua chegada à fé?

–Vittorio Messori: Para mim, a fé foi uma surpresa. Não a buscava, estava bem. Não tinha nenhuma preocupação religiosa. Bastava-me a cultura laicista e racionalista de meus professores. Não desejava ser católico. A fé não me resultou dos problemas da vida. Na verdade, a complicou. Porque eu vinha de uma família não-crente. Estudei em uma escola laica, laicista. Preparei-me para ser jornalista, sempre tive uma grande vocação. Mas jornalista de assuntos políticos, sociais e econômicos. Em meu último ano de universidade, tinha a vida programada e tive de mudar por completo o programa. Aos meus pais pareceu que tinha enlouquecido, e meus professores se mostravam atribulados e decepcionados. Pensavam que se tratava de uma depressão nervosa. Como um discípulo de nosso laicismo pode se fazer católico! Foi muito difícil.

Hoje estou muito contente e feliz de ter problemas, mas efetivamente foi uma grande ruptura. Em todo caso, tive a felicidade de trabalhar para grandes jornais como La Stampa e Il Corriere de la Sera. Mas sempre falando de assuntos religiosos, que é o contrário do que eu pensava no início. 

–Vamos a uma questão atual. Como avalia que o Tribunal de Direitos Humanos de Estrasburgo acabe de sentenciar que as escolas italianas devem eliminar os crucifixos das paredes de suas salas porque sua presença pode perturbar as crianças que não são cristãs?

–Vittorio Messori: A concordata entre o Estado Italiano e a Igreja diz que nas escolas e tribunais deve estar presente a cruz e está em perfeita sintonia com a Constituição italiana. A decisão me entristece, mas não escandaliza.

Entristece-me porque estes funcionários [os juízes] não se inteiraram de nada, porque a cruz há muito tempo é mais que um símbolo religioso, é um símbolo humano, da injustiça, do sofrimento e da esperança. A posição laicista sobre o crucifixo é absurda, porque a negação das raízes cristãs da Europa não é um pecado contra a religião, mas contra a história. Sem São Bento ou os papas da Idade Média não existiria a Europa. É um pecado contra a história.

Não me escandaliza porque acredito que a cristandade de massas está terminada. Jesus diz que seus discípulos serão sempre um pequeno grupo. Não sou um nostálgico da cristandade de massas, da Espanha da Inquisição, de que 90% das pessoas vão à missa no domingo. Acredito que, como diz Bento XVI, nós, cristãos, devemos descobrir nossa própria vocação.

Muitas de suas repostas concluem fazendo uma defesa do "et-et" (isto e aquilo), frente ao "aut-aut" (ou isto ou aquilo), como característica essencial do catolicismo: é a ideia de que “tudo cabe” na Igreja, como explicação de sua insondável riqueza. Mas onde está o limite entre o que cabe dentro da Igreja em alguma interpretação, e o que não cabe por ser contrário a ela?

–Vittorio Messori: O princípio fundamental do catolicismo, para dizer em latim, é o "et-et", frente ao princípio da heresia "aut-aut". Pensemos no protestantismo, que é um “aut-aut”: ou a Bíblia ou a Tradição; ou Jesus Cristo ou a Virgem e os santos; ou a graça ou o livre arbítrio; ou Cristo ou o Papa. A heresia do protestantismo elege ou isto ou aquilo. Enquanto que o lema dos católicos é “quero tudo”: o Papa e a Bíblia; Jesus e a Mãe; a graça divina e a liberdade do homem; o Evangelho e a Igreja.

Agora, creio que o católico deve descobrir esta síntese de acolher tudo o que é bom. Isso é muito importante porque hoje há muito catolicismo abonado de “aut-aut”. O título de meu próximo livro será “Queremos tudo”.

–O senhor é um defensor da racionalidade da fé, da existência de motivos sólidos e quase científicos para a credibilidade da Igreja, e ao mesmo tempo um defensor dos milagres, um propagandista das aparições da Virgem... Como explica isso a um ateu?

–Vittorio Messori: Não existe contradição entre a fé e a razão. Não há uma batalha. A fé é o ponto de chegada da razão usada até o final. Estou muito grato pelo que me ensinaram meus professores universitários, ainda que logo me renegaram. Eu não os reneguei, porque me habituaram a usar a razão. Ser crente não significa renunciar a razão, mas usá-la ao máximo. 

A estes professores, a quem estimo, lamento terem convertido a razão em uma ideologia, o racionalismo, onde não há nada mais além da razão. Hão de compreender que há coisas além da razão que não estão contra ela. 

Escrevi muito sobre as aparições de Lourdes e agora estou terminando outro livro sobre o assunto. Mas não é um livro de explicações sobrenaturais, mas indago sobre o plano histórico as aparições. Ao final, devo-me render ante o fato de que a história investigada a fundo me leva ao mistério.

A metade de meus leitores na Itália é crente, e a outra metade não. A maioria destes últimos não está de acordo com minhas conclusões, mas seguem com satisfação o raciocínio. O que tento demonstrar é que o cristão não é um idiota, não é alguém que renuncia a usar a razão. O cristão é quem está usando a razão, rompe os muros do racionalismo para chegar a uma realidade certa que é maior que nossa própria razão.