Mídia católica, «ponte» entre Igreja e sociedade

Entrevista com Dominique Quinio, diretora do diário «La Croix»

| 836 visitas

PARIS, sexta-feira, 27 de julho de 2007 (ZENIT.org).- Os meios de comunicação católicos têm a vocação de estender pontes entre a Igreja e a sociedade, constata a diretora do diário católico francês «La Croix», a Sra. Dominique Quinio.



«La Croix», diário fundado em 1880 pelos religiosos assuncionistas, vende diariamente mais de cem mil exemplares.

«Nós devemos permitir à sociedade entender melhor e compreender melhor o que se realiza em uma instituição como a Igreja Católica... E inversamente, é-nos necessário permitir às pessoas que se situam dentro da Igreja compreender melhor este mundo no qual vivem», afirma Quinio nesta entrevista concedida à Zenit.

--Como «La Croix» mudou sua maneira de fazer jornalismo católico?

--D. Quinio: É o ambiente em torno de «La Croix» que mudou, o mundo, a própria Igreja, as relações entre a Igreja e a sociedade. Passou-se de um período de confrontação política muito viva, quando foi criado «La Croix», a uma sociedade de laicidade assumida, na qual surgem interrogantes nas relações entre a sociedade e as religiões. «La Croix» continua sendo «La Croix». Ainda que já não carregue o crucifixo no alto da primeira página, seu título é explícito e sua razão de ser continua sendo a mesma: ser um diário de informação de identidade católica. Sua missão se expressa em um contexto que mudou, com profissionais que são diferentes, com maneiras de comunicação que evoluíram. Os leitores não esperam dos jornais o mesmo que esperavam há mais de 120 anos.

--Qual é atualmente sua especificidade no tratamento dos acontecimentos do mundo?

--D. Quinio: Nosso «pão e cada dia» é a atualidade, a informação, mas, como você sabe, esta informação é cada vez mais abundante. Portanto, como todos os jornais, efetuamos uma escolha, uma seleção. Nossa especificidade se manifesta, por uma parte, na escolha das matérias que se tratam (ou as que se eliminam) e nos modos de tratar estas matérias.

Com relação à seleção das notícias, digamos que privilegiamos todos os acontecimentos nos quais se julga a sorte do homem. Acontecimentos internacionais, sociais ou societários, fatos diversos que põem em jogo as pessoas que vivem no mundo de hoje. Portanto, dedicamos uma atenção especial às questões internacionais, aos países mais pobres; às questões relacionadas, na França, à exclusão, às desigualdades sociais, mas também aos temas de família, educação, à evolução das ciências e da medicina, ao referente às fronteiras da vida humana, e isso pode pôr em perigo a dignidade das pessoas.

E depois, claro, damos muita importância à dimensão espiritual das pessoas e dos acontecimentos. Trata-se de dar uma chave de compreensão do que passa na atualidade, do que anima as pessoas e do que explica os acontecimentos.

Com relação a nossos modos de tratamento, há algo que gostamos, ainda que não esteja especialmente ligado à nossa identidade, é a pedagogia: ajudar as pessoas a compreender o que acontece. E fazê-lo tentando ver o que é positivo nos acontecimentos do mundo, não dar uma visão catastrófica do mundo que nos rodeia; e recordar que há pessoas que «atuam». Esta é uma dimensão que os leitores nos reconhecem. Isso não quer dizer pintar a realidade de cor-de-rosa nem negar as dificuldades ou os dramas, mas dizer que «se pode atuar, é possível mudar as coisas».

É cultivar a virtude da esperança. Outro elemento importante é respeitar as pessoas das quais se fala e a quem se fala. Ser conscientes da responsabilidade que nos incumbe, quando se publica um artigo em um jornal.

--Como coordenam esta aliança entre informação e opinião?

--D. Quinio: Somos um diário de informação e de convicção. Nossa hierarquia de temas já diz algo de nossa convicção. Em nosso jornal, há uma separação verdadeiramente clara entre a informação e os comentários. Há tomadas de posição que são os editoriais e os comentários, e a informação que se procura dar com a maior precisão e honestidade possível. Não digo que o consigamos sempre. Mas tentamos.

--O número de franceses que se declaram católicos passou de 71%, em 1981, a 59% este ano. Fala-se de crise do catolicismo na França. Como vive esta fraqueza do catolicismo um meio como «La Croix»?

--D. Quinio: Efetivamente, nós nos situamos em um duplo «mercado» em crise: crise de católicos praticantes, que são o viveiro de nossos leitores, e crises da imprensa diária que, hoje, na França, não está em grande forma. Agora, percebemos que neste duplo contexto, «La Croix» progride em sua difusão. Isso prova que, mais que nunca, nosso diário, como os outros jornais de identidade forte, tem um lugar e algo original a dizer, um sentido para dar, em meio a uma oferta massiva e indiferenciada de informações, sobretudo na internet. Toda informação que se identifica claramente e que não está mascarada constitui uma garantia para os leitores interessados, independentemente de suas convicções, Pessoalmente, não sou tão pessimista.

--Isso tem conseqüências na maneira de tratar os temas?

--D. Quinio: Sem dúvida. Por exemplo, estou persuadida de que não se trata hoje um assunto de informação religiosa institucional como se tratava, por exemplo, há trinta anos, quando todo o meio cultural fazia que as pessoas estivessem formadas, conhecessem o sentido das palavras, etc. Hoje, os leitores, inclusive os que podem estar muito convencidos, praticantes, não têm as bases de conhecimento que os mais antigos de nossos assinantes puderam ter. Devemos trabalhar especialmente a pedagogia, a formação.

Em uma sociedade como a nossa, caracterizada por uma espécie de «prêt-à-penser», penso que há, mais que nunca, espaço para vozes bem claras e afirmadas. Desde sempre, a preocupação de «La Croix» foi estabelecer um diálogo, lançar pontes entre Igreja e sociedade. Um diálogo, uma ponte, de dupla direção: devemos permitir à sociedade entender melhor e compreender melhor o que se realiza em uma instituição como a Igreja Católica e procurar fazer viver os valores ou a palavra do Evangelho. É inversamente, é necessário permitir às pessoas que estão dentro da Igreja compreender melhor o mundo no qual vivem e que podem eventualmente atemorizá-las, ou parecer-lhes demasiado distante com relação às suas próprias convicções e valores.

Quanto mais parecem afastar-se os universos uns dos outros, são mais necessárias as pontes. E eu acho que nós, os meios católicos, somos pontes.

--Frente a uma secularização cada vez mais generalizada, o Papa Bento XVI animou recentemente a mídia católica a uma contribuição decisiva. Como acolhe este chamado?

--D. Quinio: Temos a pretensão de procurar responder a este pedido e de ter respondido antes que nos tenham pedido. Mas do nosso jeito, que é um jeito jornalístico. Somos jornalistas, somos um meio de comunicação, não uma faculdade de teologia, nem pastores. Nós desempenhamos um papel de mediadores e de pontes, do qual falei antes. Contribuir com esta missão é fazer que se reconheça a qualidade de um meio cristão no mundo mediático de hoje, fazer que seja uma referência profissional, fazer que seja regularmente citado nas revistas de imprensa, levar à primeira página temas originais, profundos, que têm sentido e que são importantes para a Igreja, trazer à luz valores evangélicos e as testemunhas que os vivem.

--Que lugar tem o diário «La Croix» entre os demais meios católicos no ambiente da comunicação atual?

--D. Quinio: Nosso jornal é considerado por sua vez como profissional e comprometido. Em uma sociedade que tem tendência a desqualificar quem reivindica uma convicção religiosa, «La Croix» é levado a sério. A França tem a oportunidade de dispor de um leque de revistas e meios católicos de grande qualidade. Isso é algo conhecido, acho. Eu o vejo nos jovens jornalistas em busca de emprego. Eles se sentem atraídos sobretudo por esses jornais, independentemente de sua própria convicção, porque sentem que neles se faz jornalismo como o que eles sonham fazer.

--Qual é, neste contexto, o maior desafio da imprensa católica?

--D. Quinio: Pode ser o de convencer os leitores potenciais de que é importante compreender bem o mundo no qual se vive, que não é preciso esconder-se debaixo da cama, por uma espécie de inquietude ante esta sociedade que é complicada e pode parecer hostil ou indiferente demais, ou violenta demais. É a tarefa confiada aos cristãos: viver neste mundo, amá-lo e fazer o possível para que mude. Agora, isso não se pode fazer se não o compreendemos, se não o deciframos e se não nos comprometemos com ele. Se não nos informamos sobre ele.

--A comunicação entre a Igreja e a mídia deveria melhorar?

--D. Quinio: Talvez são os níveis de comunicação os que têm que mudar. Antes, quando o Papa se expressava, publicava uma encíclica ou um texto importante, havia uma espécie de repartição de tarefas: todo um corpo de sacerdotes, de bispos fazia a mediação e acompanhava o ensinamento com uma linguagem pastoral. Hoje, os textos oficiais partem diretamente para o público. Todas estas palavras são imediatamente retransmitidas pelos meios de uma maneira com freqüência resumida, abrupta. Seria necessário levar em conta esta diferença: tomar a palavra (e há quem o faça muito bem) comporta a dimensão doutrinal, a dimensão educadora e a dimensão pastoral. E depois, talvez seria necessário também um esforço de simplificação da linguagem. Repito: com exceção da mídia (mas não são todos competentes nestes campos), já não há intermediários entre a palavra pronunciada e a recepção por parte das pessoas, que não têm todas as chaves para decifrá-la. Seria necessário que estas chaves de decodificação fossem dadas desde a origem.