Minas e sua Padroeira

Dom Walmor, arcebispo de Belo Horizonte, reflete sobre a festa do Santuário de Nossa Senhora da Piedade

Belo Horizonte, (Zenit.org) Dom Walmor Oliveira de Azevedo | 429 visitas

O segundo domingo de setembro é dia de festa no Santuário Estadual Nossa Senhora da Piedade - Padroeira do Estado de Minas Gerais. A data coincide exatamente com o dia 15, quando, na liturgia, se celebra Nossa Senhora das Dores, a Mãe da Piedade. Reconhecer a importância desse momento é fundamental. As datas especiais são componentes determinantes do movimento que dá ritualidade à vida de cada pessoa, de uma família e de um povo.

A vida sem ritos perde sua interioridade e, assim, corre o risco de cair na superficialidade. Os prejuízos serão sempre grandes, comprometendo o sentido de solidariedade, a consciência de povo e os laços culturais. Essa perda impõe ao dia a dia uma rotina que esteriliza o viver e não lhe permite um horizonte altruísta, belo. Celebrar o dia 15 de setembro - e os sete dias que o precedem; meditando as sete dores de Maria - é um ritual que pode e deve se tornar uma grande fonte de força para os mineiros, com incidências na vivência da fé e na própria cultura.

Vale a pena ter presente que os rituais, mesmo aqueles de gestos simples, abrem caminhos e ampliam horizontes, no conjunto da vida de um povo e no andamento das instituições; qualifica relações interpessoais, tão importantes e urgentes num tempo de individualismos e isolamentos. A vivência de tudo que envolve os ritos, incontestavelmente, impulsiona na direção da fonte de referências que podem transformar a vida, particularmente com a compreensão adequada do caminho para se viver bem.

Os ritos são gestos concretos e ordenam a vida com leveza e beleza. Têm força curativa, propriedades para resgates importantes e criação das condições que permitem a reconquista da inteireza do viver, a inserção social e cultural adequadas, bem como a capacidade de contribuir com cidadania. Assim, o ritual, com todos os gestos, por mais simples que seja, como a celebração da Padroeira de Minas, torna-se uma oportunidade de dar à própria alma, na vivência da fé e na condução da vida, uma nova ordem.

Esse novo ordenamento desdobra-se em incidências sobre as dinâmicas social e política, pela peculiaridade do resgate da história, pela força própria advinda da reverência a pessoas de grande estatura que nos precederam, além do reconhecimento dos dons e prerrogativas recebidos através da natureza, da história, da cultura e da religiosidade. É uma oportunidade de reafirmar valores, enraizar a profundidade da autoestima e convencer-se de que a vida tem sentido.

A Padroeira de Minas não é uma invenção de hoje, nem um mecanismo de produção de alguma coisa. É um legado que tem oficialidade ultrapassando mais de 50 anos. Uma história que reverencia a memória de homens notáveis, como o Monsenhor Domingos Evangelista Pinheiro, o Cardeal Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, Frei Rosário Joffily e tantos outros, muitos devotos, peregrinos, cuidadores e defensores desta herança nossa: o Santuário da Padroeira de Minas e a devoção à Senhora da Piedade. Um patrimônio comparável àqueles que são mundialmente reconhecidos como mais belos e significativos.

Sua história remonta à figura eremítica do português Antônio da Silva Bracarena, aquele que veio para ganhar dinheiro, e com o dinheiro ganho construiu a Ermida para ser a casa de clemência e bondade da Senhora da Piedade. Deixa assim - tocado pela narração da aparição de Nossa Senhora, no alto da Serra da Piedade, vista por uma menina da comunidade no sopé da montanha, muda, e que volta a falar - uma herança de religiosidade que caminha para 250 anos de história, 200 anos de peregrinações, 53 de oficialização como padroeira dos mineiros, significativa e completa expressão da fé cristã.

O tesouro desta fé, enraizado na magnífica arquitetura divina que é a Serra da Piedade, que congrega o patrimônio paisagístico natural e a herança histórica de grande relevância, merece de todos um grande apreço.  Exige também a disposição de cada um para celebrar, de longe ou de perto, a festa da Padroeira. Do alto da Serra da Piedade, tocados pelo silêncio das montanhas, beijados pela aragem que só nelas se encontra, avistando longe, pode se fazer a inigualável experiência de crer, de transformar-se pela força da beleza e de orgulhar-se santamente pelo privilégio deste patrimônio sagrado. A oportunidade é de semear a alegria mineira dessa herança, unir e fortalecer o povo ao celebrar solidariedades. Momento de olhar para Minas e sua padroeira com um amor novo. É festa da Padroeira, de todos os mineiros, uma festa de todos.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte