Ministério da Palavra oficializado, força para Igreja missionária

Entrevista com Dom Walmor Oliveira de Azevedo, arcebispo de Belo Horizonte

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Por Alexandre Ribeiro

BELO HORIZONTE, domingo, 24 de maio de 2009 (ZENIT.org).- “Não encontrar com rapidez um modo de fazer com que a Palavra de Deus chegue mais rápido através de ministros para isto constituídos é deixar de usar a força maior para o que nós queremos ser: uma Igreja em estado permanente de missão”, afirma o arcebispo de Belo Horizonte (Brasil).

No Sínodo da Palavra, em outubro de 2008, Dom Walmor Oliveira de Azevedo –responsável na CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) pela Comissão de Doutrina da Fé–, propôs o estudo e a oficialização do ministério da Palavra. Ele explica a ideia nesta entrevista a ZENIT.

–No Sínodo o senhor defendeu a oficialização do ministério da Palavra. Em que consiste?

–Dom Walmor Oliveira de Azevedo: Quando fiz minha intervenção durante o Sínodo, quis focalizar que a Igreja, na sua missionariedade, precisa contar com muitos ministros para garantir presença em todos os lugares e chegar a todos os corações. Ao considerar a Palavra de Deus, como diz São Jerônimo, verdadeira comida e verdadeira bebida, propus que se torna importante o estudo e a oficialização do ministério da Palavra. Este é um caminho que a Igreja já está percorrendo. São muitas experiências ao redor do mundo de ministros da Palavra, em alguns lugares até chamados de delegados da Palavra. Mas é preciso fazer com que este ministério ou este serviço não seja apenas de suplência; digamos, se o sacerdote não pode estar presente, então por suplência alguém exerce o ministério da Palavra, no culto da Palavra. Penso que se torna importante estudar e aprofundar a perspectiva de que, numa Igreja toda ministerial, de muitos ministros, o ministro da Palavra, portanto instituído, oficialmente enviado, possa ser uma presença congregando comunidades de fé, grupos de pessoas em diferentes ambientes, para que a Palavra de Deus possa ser repartida como verdadeira comida e verdadeira bebida, como verdadeiro e indispensável alimento.

Nesse sentido, nós na Igreja sentimos necessidade de fazer com que a Palavra de Deus tenha na vida de cada cristão católico uma centralidade, seja uma fonte de referência permanente. Eu gosto de dizer que não podemos viver um só dia sem a Palavra de Deus. Assim como nós não podemos viver sem o alimento, nós não podemos viver um só dia sem a Palavra de Deus. É preciso multiplicar a repartição, a oferta do serviço da Palavra de Deus. Ora, nós vemos outros grupos religiosos crescendo a partir deste anúncio e deste serviço da Palavra de Deus. Nós que temos essa missão, e a Igreja que é depositária desta Palavra de Deus, e que tem este tesouro inesgotável, não pode demorar muito para multiplicar a rede de servidores e de anunciadores da Palavra de Deus. Penso que essa compreensão pode trazer uma força missionária nova, pois a experiência com o encontro pessoal com Cristo, que é núcleo central da missionariedade para a Igreja, tem na Palavra de Deus uma grande alavanca e uma grande força.

Ao ouvir os relatórios dos bispos durante o Sínodo, outros também tocaram nessas perspectivas, para mim isso se tornou cada vez mais evidente. Não encontrar com rapidez um modo de fazer com que a Palavra de Deus chegue mais rápido através de ministros para isto constituídos, instituídos, é deixar de usar a força maior para o que nós queremos ser: uma Igreja em estado permanente de missão. 

–Como se poderia estruturar este ministério? 

–Dom Walmor Oliveira de Azevedo: A oficialização como ministério supõe, e eu disse isso no Sínodo, um estudo por parte dos dicastérios competentes da Santa Sé, como a Congregação para a Doutrina da Fé, a Congregação para a Educação Católica, para a Liturgia e a Disciplina dos Sacramentos. Supõe este estudo para clarear uma compreensão teológica e a configuração ministerial. Também supõe uma preparação adequada. É preciso uma formação básica boa, consistente, profunda, incluindo a dimensão doutrinal, incluindo a dimensão da compreensão da própria Palavra de Deus, uma compreensão que dê aos ministros da Palavra a condição de por si cavar desta fonte, tirar água desta fonte, que é inesgotável. E incluir ainda uma preparação muito específica no âmbito da comunicação. Durante o Sínodo, houve um momento em que cristalizou toda a discussão em torno disso. Até mesmo se fez uma proposição ao Santo Padre de que haja um diretório próprio para a preparação daqueles que comunicam a Palavra de Deus, daqueles que são os pregadores, para a homilia. Esse aspecto da comunicação é fundamental. Do contrário, nós não falaremos com uma linguagem que neste tempo atual abre caminhos para que as pessoas possam entender, ser interpeladas, tocadas.

Penso que são dois movimentos importantes. O de clarear o sentido teológico, pastoral, canônico do ministério da Palavra, na direção de dar mais oficialidade a ele. E, ao mesmo tempo, este trabalho que nós já podemos fazer com nossos padres e com os que já são ministros da Palavra e que estão exercendo este serviço. Uma preparação de modo que nós tenhamos uma força de comunicação maior através deles e se possa ter uma linguagem, como diz o Santo Padre, com força performativa, isto é, ao comunicarem, tocam profundamente o coração das pessoas com a força da Palavra de Deus.

–Qual a repercussão de sua proposta?

–Dom Walmor Oliveira de Azevedo: A primeira repercussão disso nós vamos sentir quando vier a exortação pós-sinodal, que é um trabalho próprio do Santo Padre Bento XVI, e que se espera possa vir até um ano no máximo depois do acontecimento do Sínodo. A exortação pós-sinodal vai nos mostrar a repercussão e as indicações que o Santo Padre vai fazer nesta direção. Nós temos grande expectativa sobre a exortação. Esperamos que ela chegue logo. Temos certeza de que ela trará muitas perspectivas interessantes.

–Este ministério da Palavra seria também uma maneira concreta e positiva de enfrentar o avanço das seitas?

–Dom Walmor Oliveira de Azevedo: Coloquei isso exatamente lá. Muitos cristãos que até deixam a Igreja católica e se engajam em outras confissões religiosas dizem: agora encontrei Jesus, agora minha vida tem sentido. Temos certeza de que esses testemunhos, no que pesam sua consistência e sua autenticidade, estes testemunhos se devem ao contato direto e permanente com a Palavra de Deus. E por isso as pessoas são tocadas. Porque o contato com a Palavra de Deus é experiência de graça que toca o coração das pessoas. Nós precisamos repartir a Palavra de Deus de maneira mais aberta, mais forte, mais constante, congregando muitas pessoas e motivando-as ao encontro pessoal com Cristo.

–Isso não dividiria a Igreja entre Eucaristia e Palavra?

–Dom Walmor Oliveira de Azevedo: Isso seria impossível acontecer porque nossa Igreja é eucarística. É uma Igreja que nasce e vive da Eucaristia, assim como é uma Igreja que nasce e vive da Palavra de Deus. A nossa tradição, a nossa experiência eclesial não permitiria que se fosse numa direção quase polarizadora. Pelo contrário, isto nos daria uma força maior, enriquecedora, enquanto a Eucaristia e a Palavra nos sustentam e são para nós indivisíveis. Nós não seríamos uma Igreja simplesmente como outras Igrejas que usam da Palavra mas não vivem e não celebram a grandeza do mistério inesgotável da Eucaristia. A tradição da nossa Igreja num caminho como esse de muitos ministros distribuindo a Palavra não nos desligaria de uma fonte que dá força e consistência a nossa identidade católica.