Ministério Ordenado (Parte I)

Reflexões de Dom Orani João Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro

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RIO DE JANEIRO, terça-feira, 14 de agosto de 2012 (ZENIT.org) - Publicamos a seguir a primeira parte de uma reflexão que Dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro, enviou a ZENIT, sobre o Ministério Ordenado. Amanhã (15) publicaremos a segunda parte.

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O mês de agosto é o Mês Vocacional! Nele, com mais ênfase destacamos a dimensão vocacional de cada batizado. Sabemos que o batismo é a fonte de todas as vocações. A palavra vocação vem do latim "vocare" e quer dizer chamado, chamamento que supõe uma resposta. Neste sentido Deus chama e o ser humano responde.

A primeira e maior de todas as vocações é o chamado à vida. Todos são chamados à vida. O próprio Jesus enfatiza isso quando diz: "Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância", ou ainda quando se revela como a própria vida: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida". O chamamento à vida é uma vocação que gera, por si mesmo, em nós a felicidade. Vida e felicidade são vocações universais do ser humano. São comuns a todos os estados de vida. E todos temos a vocação universal à santidade. Vocação comum a todos nós.

Dentre os estados de vida possíveis está aquele que é impresso pelo sacramento da Ordem. Ordem é o sacramento graças ao qual a missão confiada por Cristo a seus apóstolos continua sendo exercida na Igreja, e assim será até o fim dos tempos. O sacramento da Ordem comporta três graus, a saber: diaconato, presbiterado e episcopado. A ordenação transcende uma simples eleição, designação, delegação, porque confere um dom do Espírito Santo, um poder sagrado (para melhor servir o povo de Deus), que só pode vir de Cristo mesmo e que atua na sua Igreja.

O sinal visível desta consagração se dá no rito da imposição das mãos do bispo e na oração consecratória. Na teologia do sacramento da Ordem, Cristo é o sumo sacerdote e também o único. É ele quem faz da Igreja "um reino de sacerdotes para Deus", onde cada fiel exerce o seu sacerdócio por meio de sua participação, cada qual segundo sua própria vocação, na missão de Cristo, sacerdote, profeta e rei.

O sacerdócio ministerial, conferido pelo sacramento da Ordem, embora também participe do único sacerdócio de Cristo, se difere na sua essência. Enquanto um se realiza no desenvolvimento da graça batismal, outro está a serviço do sacerdócio comum.

Portanto, o sacerdote age na pessoa de Cristo, faz as suas vezes entre nós, está para nós como aquele que serve. A presença do sacerdote retrata a presença de Cristo cabeça, aquele que governa a Igreja. Essa presença não quer dizer que o padre está imune a fraquezas, erros, pecados, mas que ele está revestido da força do Espírito para o bem de todos.

Além de representar Cristo, cabeça da Igreja, os ministros ordenados agem em nome de toda a Igreja, oferecendo a Deus a oração da Igreja, sobretudo durante a santa Missa, e, com ele, toda a Igreja se oferece com Cristo, por Cristo e em Cristo.

Falemos um pouco mais sobre os três graus do sacramento:

Existem dois graus de participação no ministério de Cristo, a saber, o sacerdócio e o episcopado. O diaconato se destina ao serviço.

Os bispos

Os bispos são os legítimos sucessores dos apóstolos. Conservam a semente apostólica por meio da sucessão ininterrupta desde os apóstolos de Cristo. Assim como os apóstolos receberam de Cristo uma especial força para transmitir aos seus colaboradores e assim levar a bom termo a missão recebida de Cristo, pela imposição das mãos, os bispos transmitem aos seus colaboradores – os sacerdotes – este mesmo dom espiritual que os apóstolos transmitiram.

Como sucessores dos apóstolos, devem zelar pelo "depósito da fé" confiado à Igreja de Cristo. A fé Cristã é, também, a fé apostólica, porque baseada no testemunho legítimo dos apóstolos, vê nos bispos a legítima sucessão dos apóstolos ao longo dos séculos na Igreja de Cristo. Esta missão dos bispos tem um tríplice sentido: recordar que a Igreja foi construída sobre o fundamento dos apóstolos, testemunhas escolhidas e enviadas para a missão por Cristo; conservar e transmitir, com o auxílio do Espírito Santo, o ensinamento, o depósito precioso, as salutares palavras da boca dos apóstolos; garantir que a Igreja de Cristo continue a ser ensinada, santificada e dirigida pelos apóstolos até a volta de Cristo, graças aos que a Eles sucedem na missão pastoral: o colégio dos bispos, assistidos pelos presbíteros, em união com o sucessor de Pedro, pastor supremo da Igreja. (cf. CIC §857). 

          Os bispos, como os apóstolos são enviados a pregar, dando continuidade ao que fez Jesus: "Como o Pai me enviou, também eu vos envio" (Jo 20,21). São, portanto, ministros de Deus, ministros da Nova e Eterna Aliança, servidores de Cristo e administradores dos mistérios de Deus. São as primeiras testemunhas da Ressurreição do Senhor, sua missão deve durar até o fim dos tempos, na ocasião da vinda gloriosa de Nosso Senhor. Em sua missão compete aos bispos o tríplice múnus de ensinar, santificar e reger a Igreja de Cristo. Ensinar, anunciando, como primeira tarefa, o Evangelho de Cristo e denunciar tudo que lhe é contrário; santificar, pela oração e trabalho, pelo ministério da Palavra e dos Sacramentos e também por seu testemunho de vida; reger, porque lhes cabe dirigir e coordenar suas igrejas particulares como delegados de Cristo com conselhos, exortações e exemplos, com autoridade e poder sagrado, sempre no mais profundo espírito de serviço e comunhão, tal como o seu Mestre.

O Documento de Aparecida, no seu §181, ressalta que "Os bispos, além do serviço à comunhão que prestamem suas Igrejasparticulares, exercem este ofício junto com as outras Igrejas diocesanas. Desse modo, realizam e manifestam o vínculo de comunhão que as une entre si. Na Conferência Nacional dos Bispos, os bispos encontram seu espaço de discernimento solidário sobre os grandes problemas da sociedade e da Igreja, e o estímulo para oferecer orientações pastorais que animem os membros do povo de Deus a assumirem com fidelidade e decisão sua vocação de ser discípulos missionários.”

A experiência da comunhão manifesta-se na colegialidade dos bispos oriundos das mais diversas, significativas e desafiadoras realidades, e testemunham sempre mais a Unidade da Igreja de Cristo que, seguindo ao seu Mestre e Senhor, deseja ser no mundo e na sociedade um sacramento universal de salvação, sinalizando Cristo e seu Reino a todos os homens e mulheres de boa vontade. Ensina o CIC, no §1594, que "o bispo recebe a plenitude do sacramento da Ordem que o insere no Colégio Episcopal, e faz dele o chefe visível da Igreja Particular que lhe é confiada. Os bispos, como sucessores dos apóstolos, e membros do Colégio, participam da responsabilidade apostólica e da missão de toda a Igreja, sob a autoridade do papa, sucessor de São Pedro".

† Orani João Tempesta, O. Cist.

  Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ