Missa: questão de amor

Conselhos de Dom Javier Echevarría, prelado do Opus Dei

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Por Jesús Colina 

ROMA, sexta-feira, 2 de abril de 2010 (ZENIT.org).- A Santa Missa é uma questão de amor, afirma Dom Javier Echevarría, prelado do Opus Dei, quando lhe pedem um conselho para todos aqueles que em algum momento se entediaram na Celebração Eucarística.

A este sacramento, Dom Echevarría (que, junto a Dom Álvaro del Portillo, foi a pessoa mais próxima de São Josemaría Escrivá de Balaguer) dedica seu último livro, “Vivir la Santa Misa” (RIALP).

Dom Echevarría, membro da Congregação para as Causas dos Santos e do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, consultor da Congregação para o Clero e membro honorário da Academia Pontifícia de São Tomás de Aquino, busca, com este livro, redescobrir o amor à Eucaristia, “que deve ser o centro da nossa vida”, segundo explica nesta entrevista concedida à Zenit.

-O que o senhor recomendaria aos católicos que dizem que se “entediam” na Missa?

Dom Echevarría: Eu lhes recomendaria que participassem com sinceridade da Missa, buscando e amando Jesus. São Josemaría escreveu em Caminho: “Você diz que a Missa é longa, mas eu acrescento: porque seu amor é curto”.

Não podemos dar muita importância ao sentimento: entusiasmo ou apatia, vontade ou falta de vontade. A Missa é sacrifício: Cristo se entrega por amor. É uma ação de Deus e não podemos captar plenamente sua grandeza, por nossa condição limitada de criaturas. Mas podemos fazer o esforço não somente de estar na Missa, mas de vivê-la em união com Cristo e com a Igreja.

-Quando o senhor descobriu o mistério escondido e revelado pela Eucaristia?

Dom Echevarría: Graças a Deus, procuro redescobri-lo todos os dias: na liturgia da palavra – que ajuda a manter o diálogo com Deus ao longo do dia – e na liturgia eucarística. Deveríamos nos admirar sempre diante desta realidade que nos supera, mas da qual o Senhor nos permite participar, ou melhor, convida-nos a participar.

Na Missa, não somente se cumpre uma comunicação descendente do dom redentor de Deus, mas também uma mediação ascendente, oferecimento do homem a Deus: seu trabalho e seus padecimentos, suas penas e alegrias, tudo isso unido a Cristo: por Ele, com Ele e n’Ele. Não posso deixar de dizer que ver como São Josemaría celebrava o Santo Sacrifício produziu em mim um sério impacto, ao contemplar como era a sua devoção eucarística diária.

Toca profundamente a alma considerar que, na apresentação das oferendas, o sacerdote pede a Deus que acolha o pão e o vinho, que são “fruto da terra e do trabalho do homem”. Em qualquer circunstância, o homem pode oferecer seu trabalho a Deus, mas na Missa essa oferenda alcança seu pleno sentido e valor, porque Cristo a une ao seu sacrifício, que oferece ao Pai pela salvação dos homens.

Quando a Missa é o centro e a raiz do dia do cristão, quando todas as suas atividades estão orientadas ao sacrifício eucarístico, pode-se afirmar que todo o seu dia é uma Missa e que seu lugar de trabalho é um altar, onde ele se entrega plenamente a Deus, como seu filho amado.

-Bento XVI, em seu pontificado, está impulsionando um redescobrimento da imensidade deste sacramento. O que mais lhe chama a atenção das palavras ou gestos do Papa sobre a Eucaristia?

Dom Echevarría: Parece-me especialmente importante, neste momento, sua insistência em que a liturgia é ação de Deus e, como tal, é recebida na continuidade da Igreja.

O Papa escreveu que a melhor catequese sobre a Eucaristia é a própria Eucaristia bem celebrada. Portanto, o primeiro dever de piedade do sacerdote que celebra ou do fiel que participa da Missa é a observância atenta, devota, das prescrições litúrgicas: a obediência da pietas.

Por outro lado, o Papa também insiste em que a Eucaristia é o coração da Igreja: Deus presente no altar, o Deus que está perto, que edifica a Igreja, que reúne os fiéis e os envia a todos os homens.

-Algo mais pessoal: segundo suas lembranças, o que era a Eucaristia para São Josemaría? Que papel ela tinha em seu dia-a-dia?

Dom Echevarría: Auxiliei São Josemaría na Missa muitas vezes. Nessas ocasiões, ele costumava me pedir que rezasse para que ele não se acostumasse a celebrar aquela ação tão sublime, tão sagrada. Pude comprovar, de fato, algo que ele me disse uma vez: que experimentava a Missa como trabalho: um esforço às vezes extenuante – tal era a intensidade com que a vivia.

Ao longo do dia, ele costumava recordar os textos que tinha lido, em particular o Evangelho, e muitas vezes os comentava com naturalidade, como um alimento da sua vida espiritual e humana.

Ele era consciente de que, na Missa, o protagonista é Jesus Cristo, não o ministro, e de que o cumprimento fiel das prescrições permite que o sacerdote “desapareça”, para que só Jesus brilhe. Muitas pessoas que participavam da Missa celebrada por ele – inclusive nas circunstâncias difíceis da Guerra Civil Espanhola – comentavam depois que sua forma de celebrá-la tinha algo que as tocava profundamente e se sentiam convidadas a crescer em sua devoção ao Santo Sacrifício.

Tenho certeza de que o que tocava os que participavam – os que participávamos – da sua Missa era precisamente isso: que ele deixava que Cristo aparecesse, não sua pessoa.