Missão Roraima envia dez missionários de Brasília para evangelizar em Roraima

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BRASÍLIA, 2 de novembro de 2007 (ZENIT.org).- Com o lema “Diocese de Roraima e Arquidiocese de Brasília de Mãos dadas na Missão”, as duas comunidades iniciam um trabalho evangelização no próximo dia 4, quando oito dos missionários irão para Roraima (norte do país).



“Estamos começando o trabalho aqui em Brasília agora, mas a Igreja já é missionária. Mais de 40 sacerdotes de Brasília estão em missão fora da cidade. Sem falar nos leigos e religiosos. Nosso testemunho claro que está surtindo efeitos, mas temos que ressaltar que a Igreja é e sempre foi Missionária”, explica o seminarista Alex Novaes de Brito, um dos missionários.

Segundo Dom João Braz, arcebispo de Brasília, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) há anos fala da necessidade de evangelizar a Amazônia, um local onde os estrangeiros se preocupam mais que os brasileiros.

“Nós católicos estamos acostumados a receber muito, mas deixamos que somente os sacerdotes se entreguem à missão de evangelização. Brasília recebeu muitas graças de Deus nesses 47 anos e agora precisamos transmitir isso. Dar esse passo para crescer mais.”

O grupo dos dez missionários é formado por dois sacerdotes – Pe Marcelo Ramos e Pe Carlos Henrique Silva, dois seminaristas – Alex Novais de Brito e Fabrício Araújo dos Santos – e seis leigos – Edilene Batista Ribeiro, Maria das Graças Dias, Maria José de Castro, Patrícia Cristina Berg, Zilda Batista Ferreira e Gleison Adriano da Silva. “Nenhum missionário foi indicado. Eles se apresentarão porque se sentiram chamados para realizar essa missão”, explica Dom João.

Esses missionários irão evangelizar durante dois anos nos municípios Caracaí e Iracema e a intenção é que nos anos seguintes novos missionários de Brasília continuem esse trabalho.

Em entrevista à ZENIT, quatro missionários – Pe Marcelo Ramos, Patrícia Berg, Alex Novais e Fabrício Araújo – falaram um pouco sobre o que significa a Missão Roraima para eles e como um leigo pode também ser missionários na sua própria casa e trabalho.

Dentre outros pontos, eles comentaram a importância do apoio financeiro dos fiéis para que eles possam cumprir seu trabalho de evangelização durante esses dois anos em que ficarão em Roraima. Para colaborar, as pessoas podem depositar qualquer quantia na seguinte conta: Banco do Brasil – conta: 16100-4 Agência 3592-0

Leia na íntegra essa conversa com os missionários que ocorreu na IV Assembléia Arquidiocesana de Brasília, no dia 28 de outubro, quando ocorreu a Missa de envio.

–O que significa Missão Roraima para você?

–Pe Marcelo Ramos - Para mim está sendo uma renovação do meu sacerdócio. Era algo que eu já desejava há muito tempo. Trabalhar numa paróquia é muito bom, mas eu sempre senti a necessidade de alguma coisa a mais, que eu não sabia o que era. Foi como se renovasse todo o ardor missionário, todo o gosto por tudo que é de Deus. Inclusive desde esse tempo de preparação, em que temos que destruir muitas coisas de nós mesmos. Como foi dito no nosso retiro, o que vamos ser já está gravado no nosso coração, desde o nosso batismo. Não sei o que vamos enfrentar, mas sei que a missão já aconteceu para mim.

–Fabrício Araújo – Para mim é a realização de um sonho. Um sonho que Deus colocou no meu coração. De onde pode surgir isso? Como um garoto que sempre viveu aqui em Brasília pode sentir esse desejo de evangelizar? Então, para mim é a realização de um sonho inspirado por Deus.

–Alex Novaes de Brito – Para mim, a missão Roraima é estar com Jesus. Seguir seus passos e seu caminho. Eu tenho uma convicção forte no meu coração. Mesmo com minhas dificuldades e fraquezas, o Senhor me seduziu. Então, onde Ele me mandar eu quero estar prontamente, disposto a ajudar Jesus a ser conhecido, a proclamar sua palavra. Estar com Jesus, viver com Jesus, caminhar com Jesus, ter os mesmos sentimentos que Ele tem. Para mim, neste período de formação do sacerdote isso é muito importante. Eu tive uma dificuldade muito grande porque eu passei uma boa parte da minha vida na igreja Assembléia de Deus. Então eu não fui catequista. Uma das grandes dificuldades que eu tinha não era de conhecimento, de doutrina, mas eu queria ser catequista, dar formação mais integral sobre a doutrina. Então, acho que essa experiência vai ser muito importante para minha formação. A possibilidade de estar com as pessoas, de ouvir e falar, de conhecer outras comunidades, paróquias, outra cultura. Acho que isso vai ser enriquecedor para minha vida. Quero, com a graça de Deus, fazer uma comunhão fraterna com os outros missionários que vão comigo. Tê-los como irmãos de verdade, os irmãos que estou deixando em Brasília. Aqui estou deixando pessoas amadas. Então peço que o Senhor me dê a graça de amar os irmãos que estão indo comigo e sobretudo, me dê a graça de ser mais próximo daqueles que eu possa ter dificuldade de relacionamento.

–Patrícia Berg – Tenho pensado muito na passagem do Jovem Rico. O que era preciso fazer para ser feliz. Seguir todos os preceitos. O jovem diz que já faz tudo, mas Jesus pede que ele deixe suas coisas e o siga. O Jovem Rico dá as costas e vai embora. Eu me coloco no lugar desse Jovem. Mas, em vez de perguntar o que tenho que fazer para ser feliz, pergunto o que Ele quer que eu faça. Porque feliz eu sou. Me sinto muito feliz. Tenho minha família, meu namorado, meu trabalho, enquanto muitos não têm. Me sinto uma pessoa realizada e muito feliz. Dei meu sim a Deus. Foi muito difícil para mim justo porque tenho muita coisa boa e foi difícil abrir mão de tudo isso. Mas, não quis fazer como o Jovem Rico. Quis dar meu sim e seguir a vontade de Cristo, pelo menos por dois anos. Como membro do movimento Regnum Christi, cada membro é convidado para ir como colaborador por um ano, pelo período de férias, alguns por um tempo maior. Eu sempre quis dedicar um ano da minha vida para a Igreja, mas não tinha tido a oportunidade até agora. Quando escutei Dom João falando dessa missão eu senti muito forte no meu coração o desejo de ir e o desejo de Deus foi que eu fosse.

Quais são as suas expectativas?

–Patrícia Berg – A gente procura não criar expectativa porque a realidade a gente só vivencia quando está lá. Se criamos, ou nos decepcionamos ou nos surpreendemos com algo muito distante do que imaginamos. Claro que a gente tem conhecimento de muita coisa da região. O próprio bispo de Roraima nos deu material sobre a região, mas nada disso serve para que criemos expectativas. Não estamos indo para fazer um trabalho pelo povo, mas para estar com o povo. “Estar com” pressupõe desprendimento. A gente quer ir sem muita coisa mesmo, com coragem para que tudo que vier seja pela graça de Deus. Que as expectativas sejam criadas lá e não aqui.

–Alex Novaes – Espero encontrar um povo igual ao daqui de Brasília, sem esperança e alegria, um povo que tem dentro de si o próprio Cristo que pode estar um pouco adormecido. Tenho certeza que o povo de Roraima não é diferente do povo de Brasília. Não precisamos ter medo disso. Precisamos ter medo de não responder ao chamado de Cristo. Somente isso. Deus já nos deu todas as condições para respondermos ao seu chamado. Durante esses dois anos nossa comunidade vai ser esse povo.

–Patrícia Berg – É como aquela passagem onde Jesus está no cenáculo e dizem que sua mãe e irmãos estão esperando. Eu vou fazer desse povo, meu pai, minha mãe, meus irmãos. Assim como os missionários. Lembrando os primeiros cristãos que colocavam tudo em comum. Que a gente também tenha essa experiência durante a missão.

–Aproveitando que o Alex falou em medo, quais são os medos ou dificuldades que vocês sentem agora com relação à Missão?

–Patrícia Berg – Uma dificuldade é procurar ser mais íntimo, mais próximo daqueles que talvez sejam um pouco mais difíceis de temperamento ou personalidade. Claro que também pensamos nas dificuldades próprias da região, como riscos de doenças, malária, doença de chagas, hepatite, dengue, animais como cobras, jacarés, ou problemas com a água. São coisas da realidade de lá, mas nós também estamos tendo cuidado e tomando as precauções. Nosso trabalho também não é só falar de um Deus distante. Então, também vamos aproveitar para falar desses cuidados que o povo também tem que ter. Assim como a Pastoral da Criança, que não deixa de ter a evangelização e de dar apoio às mães que não sabem como agir. A gente tem esses medos, mas estamos tomando as precauções, como vacinas.

–Alex Novaes – É importante dizer que não estamos indo sozinhos. Vamos ser acolhidos pela Igreja de Roraima que já nos espera e temos o apoio da Igreja de Brasília. Vamos ter uma estrutura modesta mas que não vai deixar faltar nada, com a graça de Deus. Vamos ter o suficiente para trabalhar sem nos preocupar com isso. Não estamos indo para um lugar onde não temos nada. Também temos que lembrar que a Igreja é missionária.

–E como o leigo que se motiva ao ver vocês saindo em missão, mas que não tem condições de fazer o mesmo, pode ser missionário onde mora e trabalha?

–Fabrício de Araújo – A missão é uma resposta ao chamado de Deus. Todos nós cristãos somos missionários pelo batismo. Temos que ter coragem de partir. Pode ser que alguém sinta o chamado de ser missionário, mas o importante é lembrar que a missão não é só sair das suas fronteiras ou do seu país. Você pode ser missionário na sua família, no seu trabalho, com seu vizinho, na sua rua. A missão é algo muito mais amplo. Ir para Roraima é algo muito específico e deve envolver toda a arquidiocese de Brasília. Essa missão não é só dos dez missionários, é da Igreja de Brasília. Então, o leigo pode colaborar com a missão Roraima com a sua oração. Também financeiramente iremos precisar de ajuda. Uma missão como essa envolve muitos gastos. Uma descida pelo Rio Branco custa aproximadamente seis mil reais. Então, para uma comunidade pobre, como as que vamos evangelizar, isso tem um impacto muito grande. Você também pode colaborar financeiramente e estará sendo missionário.

–Alex Novaes – Acho que um elemento importante é a continuidade. A missão começa agora, mas a idéia é que continue. Agora estamos fazendo essa mobilização e pode ser que daqui a três meses as pessoas já nem se lembrem dos missionários de Roraima. Então, é importante que não falemos de nós missionários, mas que a Igreja é missionária. Devemos lembrar que temos mais de 40 sacerdotes que estão em missão fora de Brasília, isso sem falar dos leigos e religiosos.

–Por que você aceitou essa missão?

–Pe Marcelo Ramos – Um ano antes, numa reunião do Conselho Presbiterial da Arquidiocese recebemos o convite de Dom João e eu me coloquei à disposição. Quando soube dessa missão, eu parecia uma criança, meu coração disparou no meio da reunião do clero. Fazia tempo que não sentia isso. Disse sim de acordo com minha experiência na Igreja. Acho que Deus tem um jeito de falar com cada um. E Ele queria que eu fosse instrumento dele. Até brinquei lá na paróquia dizendo que Deus estava me promovendo, me dando um novo desafio. Trabalhei com dois sacerdotes que morreram e refleti muito sobre a morte. Talvez eu não tenha mais oportunidade de fazer isso, então quero fazer agora e deixar tudo o que me prende. Amanhã posso não estar aqui, então tenho que viver da melhor maneira, se não eu perco e alguém também perde.

–Alex Novaes – No mundo inteiro tem gente que não conhece Jesus. Ele é um dom tão grande na nossa vida e por que não vamos transmitir isso a outras pessoas? Tudo que sou e que conquistei na minha vida foi Deus quem me deu. São Paulo dizia que antes de conhecer a Cristo tudo era esterco. Depois que Ele teve um encontro com Cristo tudo passou a ter sentido. Digo o mesmo que São Paulo. Antes de conhecer a Deus, nada tinha sentido. Fui muitos anos da Assembléia de Deus. Tem oito anos que sou batizado na igreja Católica e depois já entrei no Seminário que foram os anos mais felizes da minha vida. No seminário foi onde me senti mais amado em toda minha vida. Acho que agora preciso manifestar esse amor aos outros.

–Fabrício Araújo – Quero responder com uma frase: Amor a Jesus e amor ao povo.

–Patrícia Berg – Minha história é parecida com a do Pe Marcelo Ramos. Quando Dom João comentou com os jovens que iam para a visita do papa em São Paulo, meu coração pulou e eu tentei disfarçar para que meu namorado não percebesse, não ficasse preocupado. Mas Deus é tão bom que sem eu saber, meu namorado sentiu o mesmo. Mas não para ele. Deus falou no coração dele: “Ela vai”. Acho que foi uma experiência profunda que tivemos como casal. Assim como Maria ficou preocupada com a situação e com o que ia acontecer, sem saber como falaria a José, Deus foi lá e providenciou tudo. Eu fiquei uns dois meses sem saber como falar para o meu namorado que eu queria ir, que eu sentia esse chamado e que Deus queria que fosse. Seria muito difícil para nós dois e no dia que contei para ele, me acabei de chorar. Mas ele muito tranqüilo, me disse: “eu sabia disso e não sabia porque você ainda não tinha me falado. Desde aquela reunião eu sabia que Deus estava te chamando.” Tenho muito forte a presença de Maria comigo. Meu lema é “tudo por Jesus e nada sem Maria!” Acho que Maria passa na frente e abre caminhos que às vezes não acreditamos. E ela tem sido muito importante na minha vida e na vida do meu namorado.