Momentos importantes do Concílio Vaticano II

Entrevista com Mons Vitaliano Mattioli

Brasília, (Zenit.org) Thácio Siqueira | 1280 visitas

Estamos comemorando os 50 anos do Concílio Vaticano II e nos perguntamos: como é que esse evento foi vivido pela geração que o presenciou? 

Mons. Vitaliano era seminarista em Roma naquele então. ZENIT o entrevistou para que nos contasse em primeira pessoa a sua experiência desse grande evento que marcou profundamente a história da Igreja contemporânea.

Mons. Vitaliano Mattioli, nasceu em Roma, Itália, em 1938 e realizou estudos clássicos, filosóficos e jurídicos. Foi professor na Universidade Urbaniana e na Escola Clássica Apollinaire de Roma e Redator da revista "Palestra del Clero". Atualmente é missionário Fidei Donum na diocese de Crato, no Brasil.

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ZENIT: Mons. Vitaliano, poderia contar-nos um pouco da sua experiência do Concílio Vaticano II?

MONS. VITALIANO: 25 de janeiro de 1959, festa da Conversão de São Paulo. João XXIII celebrou durante a manhã na Basílica de São Paulo (Roma) uma missa solene encerrando a Oitava de oração pela unidade dos cristãos. Mas desta vez, no fim da Missa o papa não saiu imediatamente, como de costume, para retornar ao Vaticano. Eu estava presente na celebração e não queria voltar para o Seminário sem ver o Papa. A espera foi longa. Não entendíamos o motivo. Fomos saber ligando a Rádio Vaticano e escutando a notícia de que o Papa depois da Missa Solene, tinha ido para uma sala do Mosteiro para comunicar aos Cardeais presentes a vontade de convocar um novo Concílio: o Vaticano II. A alegria que experimentei, como os outros seminaristas, foi grande. Naquele tempo estudava na faculdade de filosofia e depois de teologia na Universidade Lateranense. Aqueles três anos de preparação conciliar foram intensos. Lembro-me das várias tendências especialmente da dogmática e da bíblia que surgiam nas diversas Pontifícias Universidades romanas.

ZENIT: E como é que foi a abertura?

MONS. VITALIANO: 11 de outubro de 1962. Dia da abertura solene. Foi um momento de grande emoção eclesial. Na Basílica de São Pedro toda a Igreja estava reunida: Papa, Cardeais, Bispos, peritos conciliares. Através das muitas câmeras, os olhos de todo o mundo estavam focados na Basílica transformada em Sala Conciliar. No entanto, uma tristeza nublou o esplendor daquele dia: não estavam presentes vários Bispos e Cardeais da China e da União Soviética e países sujeitos a ela, pois ou estavam presos ou as Autoridades não tinham dado o visto de viagem para Roma; também estava ausente (veio mais tarde) a delegação da Igreja Ortodoxa Russa.

ZENIT: O que mais lhe surpreendeu nesse concílio?

MONS. VITALIANO: Participar no Concílio foi uma grande graça. Uma coisa importante, que em certo sentido me surpreendeu, foi a grande liberdade com a qual os Bispos puderam falar; liberdade, por vezes, ousada. Mas que mostra o grande respeito que a Igreja tem. Depois da proclamação do dogma da infalibilidade papal ( Concílio Vaticano I, 1870) alguns pensaram que a Igreja tinha fechado a boca do episcopado. E, ao contrário, isso não só não aconteceu, como aumentou, com o livre debate, a possibilidade do desenvolvimento do dogma.  Esta liberdade de expressão impressionou muito, especialmente as Delegações das várias Igrejas Ortodoxas. Sendo a primeira vez que puderam participar de um debate conciliar, ficaram impressionados com esta liberdade de expressão que existe dentro da Igreja Católica. Foi um bom passo em favor do ecumenismo.

ZENIT: E a morte de João XXIII?

MONS. VITALIANO: Dias muito cheios de emoção foram aqueles da morte de João XXIII. De acordo com o Código de Direito Canônico, na morte do Papa o Concílio foi suspenso. Depende do sucessor a continuação ou não. Mas já os trabalhos conciliares estavam começados e não era oportuno interrompê-los. Com a sua grande sabedoria, o novo Papa, Paulo VI expressou o desejo de continuar. Era uma decisão um pouco óbvia mas todos ficamos muito felizes.

ZENIT: O que mais lhe chamou a atenção?

MONS. VITALIANO: Dois grandes acontecimentos, fora do Concílio, mas inseridos naquele contexto, chamaram a minha atenção: a viagem de Paulo VI à Terra Santa (janeiro de 1964) e outro às Nações Unidas em Nova York (outubro de 1965).

Falavam que o Papa exportava o Concílio. Era a primeira vez, depois de São Pedro, que um sucessor seu voltava à Terra Santa. A curiosidade era sobre o que Paulo VI diria nos vários discursos, sendo a situação política muito complexa e a Santa Sé ainda não tinha relações diplomáticas completas com o Estado de Israel. Fiquei sabendo em seguida que alguns discursos foram ‘retocados’ no dia anterior de serem lidos, porque era prudente modificar algumas expressões. Mas foi um sucesso. A Igreja saiu fortificada e as distâncias ficaram menores.

No Palácio de cristal das Nações Unidas o problema era maior: um Papa convidado oficialmente pelo Secretário Geral U Thant, tinha que falar para os Poderosos do Mundo, muitos não-católicos, alguns hostis à Igreja e contra a religião. O mesmo Paulo VI em uma entrevista mais tarde, falou confidencialmente que teve um pouco de medo. Em seu retorno todos os Bispos esperavam o Papa na Basílica (do aeroporto, foi direto para a Basílica). Lembro-me de que também este foi um momento muito emocionante. Os aplausos cobriram completamente o canto "Tu es Petrus".

ZENIT: E como foi o encerramento do Concílio?

MONS. VITALIANO: Emocionantes foram os momentos em que se assinaram a maioria dos Documentos discutidos; para alguns, até o último momento, não se tinha a certeza de se seriam aprovados ou não.

Para mim, o ponto mais alto da emoção foi a vigília de encerramento, no dia 7 de dezembro de 1965. Ao mesmo tempo, Paulo VI, na Basílica de São Pedro e o Patriarca Atenágoras na igreja patriarcal do Fanar em Constantinopla revogaram a excomunhão dada naquele triste 16 de julho de 1054 pelo Papa de então, Leão IX e pelo Patriarca de Constantinopla, Miguel Cerulário.

Finalmente, depois de quase 900 anos, estas excomunhões eram revogadas e a distância entre as duas Igrejas, muito diminuídas. Na Basílica uma grande emoção invadiu as mentes de todos os presentes.

Aqui termina as lembranças. O resto é história.