Monaquismo: caminho para unir os povos da Europa?

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Por Paolo Tanduo 

MILÃO, terça-feira, 20 de abril de 2010 (ZENIT.org). – Em 18 de março passado foi realizado e Milão um encontro com o vice-diretor do TG5 Andrea Pamparana, organizado pelo Centro Cultural Católico São Bento e pelo Comitê Soci Coop Baggio. Partindo da trilogia Bento – Bernardo – Abelardo do monaquismo, discutimos o tema “O monaquismo: caminho para unir os povos da Europa?”.

Hoje, mais do que nunca, precisamos de monges, de verdadeiros beneditinos, de verdadeiros cistercienses e, por que não, de autênticos cartuxos, ainda que estes pareçam um tanto anacrônicos por não se ocuparem de assuntos sociais. Assim, Andrea Pamaparana deu início à sua conferência. São Bento desempenhou um papel fundamental na história do Ocidente e da Europa. Não foi apenas um gigante da fé, o fundador do monaquismo ocidental, mas também o precursor de um colossal projeto cultural.

Sob sua liderança, milhares de monges espalhados por toda a Europa salvaram a economia e os livros, o saber dos antigos, a filosofia de Platão e Aristóteles. Estes preservaram os elementos fundamentais da civilização greco-romana. Por tais homens letrados é que se transfundiram no rio da cultura antiga as novas forças representadas pela compreensão bíblico-cristã da essência humana. Os monges recolheram aquela herança, enriquecendo-a e divulgando-a. Esta fusão entre Jerusalém, Atenas e Roma foi o ato constitutivo do que hoje chamamos de Europa.

Hoje há uma renovada sede de Deus e de autenticidade. Peço aos meus amigos da Igreja, disse, Pamparana, que me falem de Deus, porque Deus é um mistério. Há tantas pessoas que se questionam sobre a morte, sobre a vida e sobre Deus. Pamparana lembrou alguns episódios de sua vida ligados à figura de João Paulo II, de como este representou, com seu testemunho particular no momento de sofrimento decorrente de sua doença, algo de extraordinário que ficará na história, não apenas dos cristãos.

Assim como João Paulo II, também Bento, Bernardo e Abelardo representam algo que vale não apenas para os cristãos ou para aqueles que crêem em Deus, mas para o homem, para a pessoa, para a coletividade; são patrimônio de todos nós. O artigo 1º da regra beneditina é “Escuta o filho as Palavras do Mestre”. Esta regra é fundamental em uma sociedade como a nossa, onde, cada vez mais, a palavra “escutar” perde significado. A postura de São Bento está profundamente ligada à concepção que tinha de sua própria missão. São Bento não pensava: “Agora salvarei o mundo de uma era de ferocidade sem precedentes”.

Os monges beneditinos implementaram as reformas de todo o sistema agrário, recuperaram áreas de cultivo degradadas, reconstituíram a economia europeia; sua contribuição foi decisiva nos mais diversos campos. Basta lembrar que foi um monge quem desenvolveu a notação musical baseada no pentagrama, em um mosteiro de Pomposa. Estas atividades tinham como única finalidade a salvação da humanidade.

São Bento buscava tão somente servir a Deus, conforme lembrou Bento XVI em seu discurso no Colégio dos Bernardinos em Paris em 2008: “na busca por Deus, tornam-se importantes as ciências seculares, que nos indicam um caminho através da linguagem. Pois a busca por Deus exigia a cultura da palavra, é parte integrante de todo monastério a biblioteca, que indica os caminhos por meio das palavras. Desta exigência intrínseca de se falar com Deus e de cantá-Lo com as palavras por Ele doadas é que nasceu a música ocidental”.

São Bento explica a seus monges que é com Jesus que a história muda. O conceito que temos de democracia nasceu em Atenas, mas a democracia ateniense não era para todos, não era de massa e sim para poucos, pois, no mundo antigo, havia os homens, que não trabalhavam, e havia os escravos. Jesus é novidade pela qual os homens passam a ser todos iguais.

Será São Bento o responsável por levar esta ideia adiante. São Bento nos mostra hoje que o homem, para estar de pé, necessita de duas dimensões: ora et labora, ação e contemplação. 

É com sua Regra que se expande o sentimento e o desejo de servir a Deus, que passa a ser então a ligação fundamental entre a cultura ocidental e redescoberta da cultura grega, a ponto de hoje já “não podermos nos dizer não cristãos”, uma vez que reconhecemos em Atenas, Jerusalém e Roma aquela triangulação que está na base de nossa cultura – inclusive daqueles que pensam não ser assim.

São Bento, escreve Pamparana em seu livro, indicava a seus discípulos as duas estradas do monaquismo: a primeira estrada diz respeito ao interior do homem, pois ser monge exige que congregue todas as forças e faculdades em uma atenção e uma obediência exclusivas a Deus; a outra, é ser monge para o próximo.

São Bernardo quis que o monge, até então isolado na clausura, se pusesse a pregar, mas poucas pessoas percorreram tantos quilômetros como ele. Os Papas sempre necessitaram de Bernardo para resolver também problemas de natureza política – suas cartas são obras-primas de estratégia política. Quando Bernardo chega a Roma, Papa Inocêncio, que era um monge, se levanta para ir ao seu encontro, e chega a esboçar a intenção de inclinar-se; os cardeais presentes ficaram chocados, como poderia ser possível: o Papa ir ao encontro de Bernardo, e não o contrário.

Vem-me à mente a imagem de João Paulo II que, ao se tornar Papa, recebe os cardeais para as saudações, e quando chega a vez do cardeal Wyszyński, o impede de se ajoelhar, por considerá-lo como um pai, a quem deveria prestar homenagem. O mesmo ocorreu no encontro do Papa Inocêncio com Bernardo. Bernardo era um gigante, poderia ter sido Papa, rei ou imperador, disse Pamparana. Era de tal modo estimado que o rei da França o chamou para administrar suas terras.

Bernardo chega a Milão vindo da Alemanha, onde esteve para repreender duramente um monge que havia acusado os judeus de deicídio, desencadeando assim um verdadeiro massacre. Bernardo considerava os judeus como irmãos mais velhos, e por isso gozava de grande estima entre eles. Em Milão, sua popularidade leva o povo a pedir que seja nomeado cardeal-arcebispo. Mas Bernardo não se interessa, desejando apenas voltar o mais rápido possível a seu monastério para pregar aos monges.

Seus sermões importantíssimos, em particular os comentários do Cântico dos Cânticos, foram registrados por seus monges, bem como suas numerosas epístolas, cujo método de catalogação é ainda hoje estudado. Os milaneses presentearam Bernardo com um candelabro, uma obra-prima em ouro maciço ainda hoje conservada no Domo de Milão, na tentativa de convencê-lo; mas ele recusou.

Sim, a clausura e a estrada: nenhum outro título seria mais adequado para descrever a história de São Bernardo. Uma história na qual o mistério da vida na clausura não conduz a um afastamento das angústias da existência, mas, ao contrário, nelas nos mergulha.

Por ocasião da morte de Gerardo, seu irmão mais próximo, os outros monges o veem chorar e se perguntam: como aquele que sempre nos ensinou que a morte é a libertação que nos permite ir de encontro a Deus pode estar chorando? E Bernardo responde de maneira genial, é um homem e chora pela morte de seu amigo, mas precisa resolver o problema educativo em sua relação com seus monges, e diz: “choro de alegria e de inveja deste que finalmente está junto de Nosso Pai”. Bernardo esconde uma coisa que é maravilhosa: a fraqueza dos homens.

Em Bernardo emerge a vivacidade inteligente a atuante da cultura religiosa medieval. Um cultura na qual fé e vida se entrelaçam, na qual o santo era um homem mais capaz de humanidade, mais agudo ao olhar para o mundo e para os problemas da sociedade.

O movimento beneditino cresce e se torna importantíssimo também no plano econômico e político, como mostra o monastério de Cluny. Os beneditinos se tornam poderosos. Esta riqueza incomoda os jovens que buscavam viver a essência da regra beneditina. Nasce a reforma Cistercense. Bernardo se une a eles, e é redigida a carta da caridade, primeiro exemplo de carta constitucional de unidade da Europa.

Constitui-se uma vasta rede de monastérios, e os monges já não eram franceses, alemães ou espanhóis: eram apenas monges. Mas como se comunicavam? Simples: havia o latim. Bernardo, junto aos seus confrades, começa a construir monastérios por toda a Europa. Também os cistercenses começam a acumular grandes riquezas – com o risco de perder de vista a essência da mensagem cristã, que coloca a pessoa no centro de tudo.

Neste período, os movimentos beneditino e cistercense encontram o movimento franciscano, que convoca novamente à pobreza e à proximidade dos mais pobres. Nascem, no movimento monástico, os Bancos do Santo Espírito e osMonti di Pietà (instituições financeiras sem fins lucrativos, voltadas ao crédito agrícola e o microcrédito), com a possibilidade de apoiar os necessitados e dar aos pequenos empreendedores o que lhes fosse necessário: nasce assim a economia moderna.

Hoje, nossa cultura tenta renegar suas origens, com consequências devastadoras. Nossa cultura tem raízes profundas nas idéias de igualdade entre todos os homens, de igualdade entre homens e mulheres, do trabalho como algo que enobrece o homem, de liberdade. Pamaprana ilustrou essa verdade com um episódio do Evangelho: certa vez, um grupo de homens condenou à morte uma mulher adúltera; se fosse o contrário, o homem adúltero não seria condenado. Mas chega Jesus e diz: “que atire a primeira pedra aquele que não tiver pecado”. 

Jesus restabelece a igualdade entre todos os homens e também entre o homem e a mulher. Nos ensina a amar nosso próximo. Tais elementos não estão presentes em outrsa culturas; são próprios da nossa.

O carisma de Bernardo era tamanho que, conta-se, as esposas trancavam os maridos dentro de suas casas quando este passava, para evitar que eles o seguissem.

Nossa cultura conta, seguramente, também com Abelardo entre seus principais protagonistas. Este dizia a seus jovens: “para que possam crer, devem compreender, devem conhecer, devem saber”. Com Abelardo, muda-se definitivamente a história da educação, muda a concepção do estudo, nasce a universidade tal qual conhecemos hoje. A influência de Abelardo foi imensa.

O final do século XII – erroneamente definido como uma época obscura, mas que na verdade viu brilhar uma formidável luz – deve a ele o gosto pelo rigor técnico e uma capacidade extraordinária de explicar e se fazer entender. Milhares de jovens de toda Europa deixaram suas casas para chegar, após viagens longas e perigosas, às escolas da França onde o mestre ensinava. Como escreveu o grande filósofo francês Etienne Gilson: “Abelardo estabeleceu um padrão intelectual abaixo do qual não se aceitará nunca mais descer”.

Espírito lúcido e oração generoso, homem e professor dominado pela paixão. Amou e foi amado por uma mulher, Heloísa, cujo destino mais tarde foi ser intelectual e depois abadessa, estando entrelaçado até o fim à vida de seu antigo professor, depois esposo e mais tarde irmão na Igreja. Abelardo tornou-se monge após sua história de paixão com Heloísa.

O encontro com outro grande homem de seu tempo, Bernardo de Claraval, alimentou séculos de lendas e boatos. Eram dois gigantes, se enfrentaram, e Bernardo venceu o mestre Palatino, mas representavam duas faces de uma mesma moeda reluzente de sagacidade e santidade. Bernardo, como homem da Igreja, tinha razão; mas Abelardo tinha razão ao dizer que para crer é preciso antes compreender. Abelardo e Bernardo possibilitaram à cultura europeia dar um enorme salto.