Monaquismo russo: desafio de formar comunidades após período soviético

Fala o monge ortodoxo Pëtr Meščerinov, do Mosteiro San Daniil, de Moscou

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Por Antonio Gaspari 

ROMA, quinta-feira, 5 de novembro de 2009 (ZENIT.org).- Após ter resistido à violência dos comunistas soviéticos, o monaquismo russo está dando sinais de despertar, preparando-se para resistir à secularização da modernidade.

É o que afirma Pëtr Meščerinov, monge do Mosteiro San Daniil de Moscou e vice-diretor do Centro para a formação espiritual da infância e adolescência do Patriarcado de Moscou.

ZENIT o entrevistou com ocasião de sua estada na Itália para o Congresso internacional sobre o tema “Buscadores do eterno, criadores de civilização. O monaquismo entre o Oriente e o Ocidente”, organizado pela Fundação Russa Cristã (www.russiacristiana.org).

—Quanto conta a contemplação e quanto a ação no monaquismo oriental?

—Meščerinov: Posso falar do monaquismo russo. Já desde tempos antigos, por tradição, temos duas vias monásticas diferentes ligadas a dois santos russos: São Nilo de Sora e São José de Volokolamsk. Eram contemporâneos e discutiram fortemente entre eles próprios.

Eram questões muito profundas, disputas complexas. Eu poderia resumir assim brevemente as correntes que os dois santos propunham: Nilo de Sora defendia a dimensão contemplativa, enquanto José de Volokolamsk, a dimensão ativa.

Não se pode dizer que estes dois aspectos estejam em contradição um com o outro, porque na dimensão contemplativa encontramos também sua incidência na vida cultural russa, na literatura, na redescoberta dos Padres da Igreja; por outro lado, se tomamos a corrente mais ativa, mais comprometida com o social de São José Volokolamsk, podemos observar que com sua ação não pretendia substituir o Estado, mas que mantinha firme sua adesão a suas próprias raízes contemplativas.

Para concluir, podemos dizer que não existe contradição real entre as duas dimensões.

Já São Macário o Grande dizia que cada monge tem sua vocação específica, sua atividade específica, e que portanto os que contemplam não devem julgar os que servem, e vice-versa, porque estão intimamente ligados um ao outro e constituem juntos a verdadeira comunidade monástica cristã.

—Quem e quantos são os mártires do monaquismo russo?

—Meščerinov: No que concerne ao monaquismo russo, podemos falar sobretudo dos novos mártires do século XX. Muitos foram canonizados e muitos outros ainda não foram canonizados, mas o fechamento massivo dos monastérios na época soviética testemunha que os monges deram a vida para defender o ideal monástico.

—Frente a uma selvagem correria da modernidade, como reagem as comunidades monásticas russas?

—Meščerinov: As comunidades monásticas reagem de modos diferentes. Para responder a esta pergunta, é necessário ter em conta que a tradição monástica russa foi interrompida violentamente durante o período soviético, e por isso o monaquismo russo hoje está precisamente buscando uma resposta para esta pergunta.

Pelo momento ainda não se encontrou uma resposta. Há duas variantes: ou uma radical separação e autoexclusão do mundo, que não é o saudável “sair do mundo” que se entendia tempos atrás, quando se pensava no monaquismo, mas uma forma maníaca de se proteger da agressão do mundo. A segunda variante está ligada à secularização, exteriormente se declara ser monge, mas na realidade se insere na vida secular de todos.

Este momento de provação ainda não encontra uma resposta na vida da Igreja. Em minha opinião, a comunidade tem seguramente que se proteger de certos fenômenos do mundo moderno, mas esta proteção deve acontecer de modo sóbrio, adequado, sadio e eclesial, e não de modo associal.

—Qual é a realidade destas comunidades hoje?

—Meščerinov: A principal tragédia de nossa vida eclesial de hoje está na falta absoluta de comunidade. Há comunidades que nascem em contraposição à postura da Igreja no sentido geral, mas comunidades enquanto tais como norma de vida comunitária, não há.

Isso está vinculado seguramente à herança soviética, porque nesse período cada agregação era olhada com suspeita e estava suscetível a repressão, e de fato na própria consciência de muitas gerações de pessoas se criou um instinto anti-solidário.

Quando pessoas educadas segundo esta mentalidade entram hoje na Igreja é muito difícil sentir e inclusive entender que se trata de uma comunidade cristã, porque qualquer forma de agregação sofre a influência do coletivismo soviético, enquanto que a comunidade cristã e o coletivismo soviético são duas coisas que não têm nada a ver uma com a outra.

Por isso, os russos de hoje não têm predisposição para a vida comunitária, e isso se reflete também na vida monástica. Nós não temos comunidades verdadeiras e próprias comunidades monásticas, temos mosteiros formalmente organizados, há alguns monges, alguns indivíduos sozinhos com uma vocação reta e sincera, mas não conseguem inserir-se bem na comunidade.

Esta é seguramente uma tarefa para o futuro, ou talvez nossa vida eclesial e social tenha chegado a um ponto de não retorno, onde é praticamente impossível voltar à solidariedade autêntica. Mas isso o futuro mostrará.