Monges Cistercienses de São José do Rio Pardo (II)

História da vida monástica de São José do Rio Pardo, SP

Amparo, (Zenit.org) Vanderlei de Lima | 465 visitas

Para o leitor interessado é importante e oportuno explicar os nomes de cada Ofício, em suas respectivas horas, e a razão de ser de cada um – conforme vimos no último artigo – de acordo com o que explana Dom Estevão T. Bettencourt, OSB. Curso de Liturgia. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 1989, p. 140-142:

Ofício de Vigílias ou Leituras, que pode ser rezado a qualquer hora do dia, mas que nos mosteiros mantêm seu caráter noturno, de espera e vigilância. Visa um maior contato com a Palavra de Deus em toda sua profundidade, por isso além do texto bíblico próprio para o Ofício de Leituras daquele dia, lê-se também o comentário de um Padre da Igreja ou do Santo do dia.

Laudes (do Latim, Louvores), rezado logo de manhãzinha, como vimos na lista de horários, se inspira no renascer da luz do dia após as trevas da noite. Celebra a Ressurreição do Senhor Jesus. Ele é a luz por excelência que ilumina a todos (cf. Jo 1,9) ou o sol da justiça que nasce do alto (cf. Lc 1,78). Daí duas das características desse momento de oração: glorificar a Cristo, o grande vitorioso sobre a morte, conforme se proclama no Cântico de Zacarias retirado de Lucas 1,68-79 e consagrar ao Pai celeste o dia de trabalho e de esperanças que o cristão tem pela frente.

As horas Terça, Sexta e Noa são chamadas de horas menores e visam santificar o dia todo, daí estarem distribuídas ao longo dele. Lembram também passagens bíblicas. Assim, Terça recorda a vinda do Espírito Santo sobre Nossa Senhora e os Apóstolos à terceira hora do dia (para os judeus este começava às 6h), conforme Atos 2,15. Lembra ainda a crucificação do Senhor Jesus, de acordo com Marcos 15,25.

Sexta, meio dia, é a hora em que Pedro rezava no terraço e teve uma visão segundo a qual deveria batizar o centurião Cornélio sem lhe impor a circuncisão, abrindo, desse modo, as portas da Igreja aos pagãos (cf. At 10,9). É também a hora da agonia de Jesus na cruz (cf. Mt 27,45). O hino que abre essa hora lembra o calor que muitas vezes nos atinge ao meio-dia e pede ao Senhor a extinção do fogo das paixões a arder, não raras vezes, no coração dos homens.

Noa lembra a oração de Pedro e João no Templo, momento em que Pedro cura, em nome de Jesus, o paralítico que ali pedia esmolas (cf. At 3,1). Recorda também a morte de Nosso Senhor na cruz às 15h (cf. Mt 27,45). Daí pedir o hino desta hora que “seja a tarde luminosa numa vida permanente; e da santa morte o prêmio nos dê glória eternamente”.

Vésperas (nome originário de Véspero ou Vênus, astro luminoso que começa a brilhar assim que caem as trevas noturnas) é uma oração que conclui o dia e inicia a noite. Dá graças a Deus pelos benefícios recebidos naquele dia e comemora a Ceia do Senhor e sua morte na cruz, ocorrências que se deram em tempo vespertino. O ofício de Vésperas ainda relembra aos fiéis que o Senhor Jesus voltará, no arremate ou no final da história deste mundo, para julgar os vivos e os mortos trazendo-nos a luz sem ocaso que é Ele mesmo (cf. Jo 8,12).

Cientes disso, os cristãos acorrem para as Vésperas como os operários da vinha, que é a Igreja, a fim de receberem de Deus o pagamento pelo trabalho realizado com Ele e por Ele ao longo do dia transcorrido (cf. Mt 20,1-16) ou ainda para – à moda dos discípulos de Emaús – rogar: “Fica conosco, Senhor, porque o dia vai declinando e a noite já vem” (Lc 24,29).

Completas, como o próprio nome diz, é a última oração do dia. Tem como lembrança, de acordo com a tradição de povos antigos, a comparação do sono noturno com o “sono” da morte. Consciente disso, o fiel se entrega e se abandona, por meio dos salmos recitados, nas mãos do Senhor antes de se confiar ao merecido repouso. Isso bem se exprime no cântico que o velho Simeão cantou no fim de sua vida e o cristão entoa ao final das Completas: “Deixai agora vosso servo ir em paz, pois meus olhos viram vossa salvação que preparastes ante a face das nações, luz que brilhará para os gentios e para a glória de Israel o vosso povo” (Lc 2,29-32).

Recorda ainda a gratidão por termos passado mais um dia na misericórdia do Senhor e exorta-nos a uma atitude penitencial de examinarmos a nossa consciência a fim de que, apesar das nossas limitações, nos esforcemos para nos vermos – em nossas misérias e virtudes – do mesmo modo como Deus nos vê. Consequentemente, se pede perdão dos pecados leves cometidos ao longo daquele dia a fim de, purificado totalmente, se preparar para, depois do sono da noite, servir novamente no campo do Senhor ao clarear do novo dia.

No último artigo da série, veremos a importância do trabalho na vida monástica e as formas de contato com a Abadia de Nossa Senhora de São Bernardo.

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