Morte de Bin Laden, risco para cristãos do Paquistão

Introvigne: em pouco tempo os ataques poderiam multiplicar-se

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ROMA, sexta-feira, 6 de maio de 2011 (ZENIT.org) - Ele não estava escondido em uma região inacessível do Afeganistão, nem mesmo no complexo de bunker e cavernas de Tora Bora, na província afgã de Nangarhar, a oeste do famoso Passo Khyber. Morava em uma espécie de "forte" na cidade paquistanesa de Abbottabad, famosa pelo seu clima agradável e saudável. Localizada cerca de 70 km ao norte da capital Islamabad, a cidade, ironicamente, não só tem o nome do militar britânico que a fundou a meados do século XIX (Abott), senão que alberga várias instalações do exército paquistanês.

Estamos falando do terrorista mais procurado do mundo, Osama Bin Laden. O fundador e ideólogo da rede terrorista islâmica "por excelência", a Al Qaeda (que significa "A Base"), foi morto durante a noite do domingo, dia 1º, para segunda-feira, 2 de maio, durante uma operação realizada por um comando composto de forças especiais da marinha americana, os "Navy Seals". De acordo com as últimas informações, Bin Laden, que não respondeu ao ataque, foi atingido na cabeça por soldados americanos. Segundo o jornal paquistanês Dawn (3 de maio), quem matou o homem-bomba, entretanto, foi um dos seus guarda-costas. O ataque matou várias pessoas, entre elas um filho de Bin Laden - Hamza -, dois dos seus "mensageiros" e uma mulher, que não foi usada como escudo humano (como se declarou inicialmente).

Foi o próprio presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, quem anunciou à nação e ao mundo a eliminação daquele que orquestrou vários atentados - incluindo os perpetrados contra as Torres Gêmeas em Nova York, em 11 de setembro de 2001 -, às 23h30 (hora de Washington).  O presidente afirmou que seu país "não está - e nunca estará - em guerra com o Islã" (The Associated Press, 2 de maio). As palavras "fez-se justiça" provocaram cenas de júbilo em várias cidades dos EUA, especialmente em Nova York, onde os bombeiros - os heróis do 11S - se uniram à espontânea explosão de alegria.

Mas a morte de Bin Laden não significa que a guerra acabou. As reações dos partidários de Bin Laden nos sites islâmicos não prometem nada de bom. Também o fato de que o corpo de Bin Laden tenha sido lançado ao mar (após um funeral muçulmano a bordo do porta-aviões Carl Vinson, no Golfo Pérsico) certamente alimentará o desejo de vingança.

A preocupação por possíveis represálias da Al-Qaeda e seus aliados é muito grande entre a comunidade cristã do Paquistão. O arcebispo de Lahore, Dom Lawrence John Saldanha, solicitou às autoridades paquistanesas que reforçassem a segurança dos cristãos, um "alvo fácil" para os extremistas (UCA News, 2 de maio). "Os acontecimentos pós-11 de setembro influenciaram toda a minha vida e carreira episcopal", disse o prelado, ordenado arcebispo no mesmo dia dos ataques de 2001.

De acordo com informações da agência Fides (2 de maio), as autoridades paquistanesas têm aumentado as medidas de segurança para a comunidade cristã em diversas cidades, entre elas Islamabad, Lahore, Karachi e Multan. "A situação é tensa. De fato, muitos temem as reações, totalmente sem sentido, contra as minorias cristãs. O governo está focando uma atenção máxima nas medidas preventivas", disse à Fides o assessor especial do governo para as Minorias Religiosas, o católico Paul Bhatti.

O assassinato de Bin Laden chega, de fato, no momento de maior tensão entre muçulmanos e cristãos no Paquistão, como evidenciado pelos novos ataques a bairros cristãos de Gujranwala, ao norte de Lahore, na província de Punjab. A cidade é, há semanas, cenário de violência anticristã, que explodiu em meados de abril, após a "descoberta" de algumas páginas queimadas do Alcorão, que culminou na prisão de dois cristãos membros da família Gill (ZENIT, 19 de abril).

Como revela AsiaNews (2 de maio), o que desencadeou os últimos ataques foi a "descoberta", na manhã do dia 29 de abril, de uma cópia queimada do Alcorão, no cemitério cristão. Segundo fontes de AsiaNews, a notícia provocou uma verdadeira perseguição contra os cristãos, suas propriedades e locais de culto, e obrigou as autoridades a aplicarem a Lei 144, que proíbe todas as reuniões públicas de mais de quatro pessoas.

Justamente nestes dias foram assassinados mais dois cristãos no Paquistão. Como disse a agência AsiaNews, a primeira vítima foi Younas Masih, um comerciante do subdistrito de Chak Jhumra, que foi baleado após uma discussão com dois clientes que não queriam pagar a compra de cigarros. A segunda vítima foi um cristão preso desde 2005 por blasfêmia e condenado à morte em 2007. Trata-se de Yiunas Masih, morto em 28 de abril no hospital, depois de sofrer ferimentos graves na prisão de Faisalabad. O homem, como foi observado por AsiaNews, foi ameaçado de morte por seus companheiros de cela.

O representante da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) para combater o racismo, intolerância e discriminação contra os cristãos, Massimo Introvigne, chamou a atenção dos cristãos no Paquistão. Em nota divulgada na segunda-feira, 2 de maio, Introvigne recordou que a proteção dos cristãos é "um dever grave e concreto dos governos do Paquistão e de outros países onde as minorias cristãs estão ameaçadas pelo ultrafundamentalismo islâmico". "Os governos envolvidos - afirmou o sociólogo - não poderão dizer que não estavam preparados: já há sites jihadistas que neste momento estão pedindo que se realize o ataque a igrejas e o assassinato de cristãos."

Para Introvigne, autor de uma biografia de Bin Laden, a morte do ideólogo da jihad é "fundamental do ponto de vista simbólico, mas não para destruir a Al Qaeda, que agora atua como uma rede, e não como um movimento do ponto de vista operativo". Segundo o sociólogo, "existe o risco de que, a curto prazo, a fragmentação do centro de decisões produza uma multiplicação dos atentados".

(Paul De Maeyer)