«Morte encontro com o absoluto», segundo arcebispo primaz do Brasil

o Cardeal Geraldo M. Agnelo reflete sobre o tema da morte no dia em que a Igreja comemora os fiéis defuntos.

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SALVADOR, sexta-feira, 2 de novembro de 2007 (ZENIT.org).- «O pensamento da morte não nos deixa colocá-lo de lado ou removê-lo com pequenas astúcias. A maioria de nós procura reprimi-lo. Empregamos notável parte de nossas energias para ter longínquo o pensamento da morte. Esforço psicológico para cobrir o que tende sempre a ser descoberto» – assim D. Geraldo M. Agnelo, arcebispo de Salvador e primaz do Brasil inicia seu texto preparado para esta sexta-feira, em que a Igreja comemora a lembrança de seus fiéis falecidos.



O purpurado reflete sobre as diversas respostas que o homem dá para o acontecimento da morte. «Alguns ostentam segurança de si mesmo, dizendo que sabem que devem morrer, mas não se preocupam excessivamente; pensam na vida e não na morte. É a posição do homem secularizado que procura ser independente da fé, e de  Deus. Isso não é senão um de tantos modos com que se tenta exorcizar o medo» – diz o cardeal.

«Os poetas não propõem soluções, mas tomam consciência de nossa situação. Parece vento impetuoso que levanta ondas altas do mar e não se sabe o que mais atingirá nem como, haja visto o tsuname. “Assim, diz um poeta, sou eu que sem rumo, giro pelo mundo, sem pensar de onde vim, nem para onde vou”» – revela D. Geraldo, que já foi presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

«Os filósofos tentaram explicar a morte. Não basta dizer como Epicuro que a morte é falso problema, porque “quando estou eu, não está ainda a morte, e quando está a morte eu já não estou mais”» – continua. «Para o marxismo, a morte é preocupação da pessoa, e como não é a pessoa humana que conta, mas a sociedade, a espécie não morre. O homem sobrevive na sociedade que contribuiu para construir. O marxismo, porém, terminou, e o problema da morte ficou. O comunismo perdeu a batalha nos corações. Diante da morte não soube fazer outra coisa do que construir grandes mausoléus a Lênin e a Stalin».

Em seu texto enviado a Zenit e publicado integralmente no site da CNBB, o cardeal também toca no tema da proliferada doutrina da reencarnação: «Quem se recordará do que foi ou fez em vidas precedentes? E a consciência de ser a mesma pessoa? Se existisse, seria não um suplemento de vida, mas de sofrimento; não seria motivo de consolação mas de susto. É como se dissesse a  um encarcerado que ao fim de sua detenção sua pena foi redobrada e tudo deve começar de novo».

D. Geraldo lembra que «A carta aos Hebreus 9,27, afirma: “Foi estabelecido que os homens morrem uma só vez; depois dela vem o julgamento”. A fé cristã professa a ressurreição da morte».

O Cardeal, que foi um dos presidentes da Quinta Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e Caribenho, traz também em seu texto um trecho do Documento de Aparecida: «“Jesus Cristo nos foi dado, a plenitude da revelação de Deus, tesouro incalculável, a “pérola preciosa”, cf. Mateus 13,45-46, o Verbo de Deus feito carne, Caminho, Verdade e Vida dos homens e das mulheres, aos quais abre um destino de plena justiça e felicidade. Ele é o único Libertador e Salvador que, com sua morte e ressurreição,  rompeu as cadeias opressivas do pecado e da morte, revelando o amor misericordioso do Pai e a vocação, dignidade e destino da pessoa humana”».

Por fim, o purpurado pergunta: «Mas a que serve pensar na morte? É necessário ou útil fazê-lo?» – e ao mesmo tempo, responde – «Sim é útil e necessário. Serve antes de tudo a preparar-se e a morrer bem».

«A interrogação sobre a morte suscita e orienta para uma resposta, resposta que vem de Cristo, resposta que manifesta como na morte a vida se recria, se completa e se totaliza, “a criação mesmo espera com impaciência a revelação dos filhos de Deus” (Romanos 8,19), porque a experiência mortal foi vencida pelo Ressuscitado», diz D. Geraldo Agnelo.

«Recordamos os nossos mortos, todos, os nossos e os outros, os grandes e os pequenos, os que têm um monumento e os que têm somente um pouco de terra que os cobre, recordamos como riquezas dadas por Cristo, como sinal do drama humano, como testemunho do encontro com a salvação», convida o arcebispo de Salvador.