Morte, onde está tua vitória?

Uma humilde interpretação do romance de Daniel Rops

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Por Elisa Hulshof

SÃO PAULO, quarta-feira, 19 de dezembro de 2012 (ZENIT.org) - Muito se poderia dizer sobre o romance de Daniel Rops, cuja inquestionável qualidade se apresenta nos mínimos detalhes. Logo na primeira impressão, algumas coisas não se podem deixar de notar: A perfeita habilidade do autor, não somente com a escrita, mas também com a profundidade e verossimilhança das personagens, e da própria história em si. Nota-se perfeitamente que não se trata de fantasia, é o verdadeiro quadro de uma história de vida. Os fatos, do começo ao fim, se desenvolvem com tanta coerência que com grande facilidade poderíamos atribuir à narrativa a impressão de ser perfeitamente baseada em fatos reais.  

Muitos outros grandes romances, como tal, nos trazem às mãos toda uma vida que vemos passar diante dos nossos olhos através das páginas, desde a terna infância até o começo de uma nova vida. É esse elo com a vida em si, como ela é, como a sentimos em nossa própria pele, de corpo e espírito que dá ao romance uma profundidade que nenhum conto de fadas pode alcançar: Independente de um fim amargo e dos sofrimentos das personagens é impossível deixar de aprecia-lo. E mais impossível ainda, não reconhecer sua qualidade.

“Morte, onde está tua vitória”, sem dúvidas, é um grande romance. No entanto, mais do que apenas um grande romance, o autor conseguiu a grande proeza de não somente reconduzir sua personagem à conversão, mas também ao leitor. Esse grande romance não é somente um grande romance pura e simplesmente porque, (tão contrariamente a muitos outros livros que possuem as mesmas qualidades) esse carrega consigo um grande fim, uma grande moral. Não se trata, como muitos poderiam imaginar, de uma “moral da história” explícita, como em um conto de fadas. É uma grande lição muito mais do que subentendida no texto, em hora alguma ela é citada, e é dificílimo saber ao certo em qual parte da história ela se faz presente. Trata-se, por assim dizer, de uma perfeita redenção que é passada por osmose, quando nos entregamos às suas páginas. A grande lição do livro não poderia tampouco ser explicada facilmente por palavras, você apenas a vive, a sente, juntamente com Laura Malaussène.

Em outras palavras, Daniel Rops nos estende sua mão, e nos leva pelos caminhos incertos, pela pior solidão e insegurança da vida, faz-nos sentirmos tentados pela ilusão do mundo impregnada da filosofia de Nietzsche, faz-nos embriagarmos e afundarmos no nada e no pecado, para finalmente, tão lentamente que mal se percebe, com essa mesma mão nos reerguer, e sem uma palavra dita, sem nenhuma grande explicação, ele coloca diante de nós a verdade pura e simples: Cristo.

Daniel Rops não fala de Cristo, nem de ensinamentos ou de religião. Através de uma história, um romance, ele simplesmente nos faz sentir terrivelmente a sua ausência.
Nos faz busca-Lo sem que saibamos o que estamos buscando. O vazio e o sofrimento que passa Laura na história de sua vida – e que, pela grande habilidade do autor, nós absorvemos instintivamente – é um perfeito quadro do que é a vida de muitas pessoas; do lugar, um grande “fundo do poço”, ao qual se chega trilhando o caminho escolhido fora de Deus, seguindo os instintos de suas naturezas violentas.

“A cada instante, no fundo de nós, nossa consciência escolhe; a cada instante, tudo pode ser refeito. Nada está perdido, antes do momento supremo em que tudo se esclarece”. 
Laura teve a oportunidade de muitas escolhas durante a sua vida, mas cega por uma força que nem mesmo ela conhecia, nenhuma de suas escolhas envolvia nem mesmo a sombra de alguma relação com Deus e com o seu grande propósito para nossa vida.“A tentação, se lhe oferecesse para que você possuísse estas satisfações que deseja, ao mais caro dos preços – o da sua alma – alguma coisa em você protestaria, e recusaria essa transação...Não é verdade?” – disse o velho padre à Laura, antes ainda que ela se visse mergulhada e arrastada, pouco a pouco, à tentação da felicidade que o mundo oferece. A memória dessa espiritualidade de sua infância, quase totalmente apagada no coração da velha Laura, ajuda a resgata-la daquilo que deveria ser o fim, aquilo que é sempre o único e verdadeiro fim, e o único e verdadeiro meio.

Essa é uma história de redenção. Uma longa e quase imperceptível transformação de uma mulher, dona de natureza violenta, tombada pelas forças do mundo, de volta a Cristo. E essa volta a Cristo, é de tal forma quase inevitável, de tal forma clara e obvia, como uma obra do destino (encarnado na pessoa de Xave, a moça que aceita com amor sua morte prematura, e aceita-a em nome de Laura).Laura, influenciada pelas idéias de Nietzsche a respeito da vida, como se deve conseguir sua felicidade a qualquer custo, sem piedade de esmagar quem se opuser a ela, considerando ser a piedade um sentimento dos fracos, acaba por perde-la no momento em que obtém o que desejava à custa da vida de uma mulher, e perde também o amor do seu companheiro no momento em que corrompe à sua carne para salva-lo.É incrível como, sem condenar nenhuma dessas atitudes, sem em momento algum citar alguma moral, alguma religiosidade, apenas através do desenrolar dos fatos e dos sentimentos das personagens conseguimos sentir que precisamente nesse momento, de uma hora para outra, toda a vida de Laura se despedaça. Mesmo desprovida de qualquer moralismo cristão, e ainda fiel às idéias de Nietzsche, Laura sente nesse momento a felicidade mais uma vez escapar de suas mãos. Sente que tudo se perde, a partir desse momento.Então, já abandonada naquele meio, deixando-se levar por toda a perversão e indiferença, ela desprende-se de tudo, até mesmo de ser cúmplice do mal para entregar-se ao total vazio.Muito devagar, primeiro através de uma falsa caridade, depois influenciada por seu encontro com Thierry, Laura vai a passos lentos em busca de algo que lhe falta, sem ela saber o quê. Lentamente ela vai se desprendendo de suas correntes, uma a uma, lentamente readquirindo hábitos cristãos, sem necessariamente relaciona-los com Cristo, encontrando a cada novo passo uma paz nunca encontrada em nenhum dos outros caminhos onde buscou.O desenlace final vem com a filha de Pia, a amiga que Laura havia esquecido, aparecer em sua vida através de seu enteado Rafael. Exatamente no ponto onde sua vida se embaraçou, é o ponto onde ela se desembaraça. A menina, doente, morre, e com sua morte, ou antes ainda, a sua aceitação sobre o sofrimento e a morte, conduzem Laura de volta à Cristo, como era justamente o desejo da moça. Um desejo que ela não soube por em palavras, mas que se subentende no decorrer da história. 
Enfim, esse é um livro que, acima de tudo, é preciso viver.Não é preciso se esforçar para isso. Daniel Rops, com sua própria habilidade, já fez isso por nós. Sentimos e vivemos com Laura a vida dela.Daniel Rops não precisou tagarelar abertamente sobre Deus para nos conduzir a ele, bastou nos mostrar sua ausência através dessa vivência e experiência da vida de Laura.

Somente depois disso podemos responder à nós mesmos a pergunta do livro.Onde está a vitória da morte? Somente em Cristo. Essa é...“A vitória sobre a morte”.