Música sacra e liturgia no tríduo pascal

Entrevista com um cantor do coral pontifício

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José Antonio Varela Vidal

ROMA, sexta-feira, 06 de abril de 2012(ZENIT.org) - A música sacra tem um papel fundamental no tríduo sacro, porque acompanha os ritos e símbolos da semana mais importante do ano para os cristãos. Graças aos estudos e à conservação dos cantos sagrados antigos e aos autores de todos os tempos que musicaram hinos e sequências famosas, hoje podemos nos maravilhar com peças que engrandecem ainda mais o mistério celebrado.

Entre os estudiosos está o compositor e tenor venezuelano Raimundo Pereira Martínez, um dos dois latino-americanos (o outro é peruano) da Capela Musical Pontifícia, o coro pessoal do papa que participa de todas as cerimônias litúrgicas presididas por ele.

Pereira Martínez é doutorando: sua pesquisa estuda manuscritos dos séculos X e XI sobre a interpretação do canto gregoriano. Dá aulas em Roma e na Coreia do Sul. ZENIT conversou com ele sobre a importância da música sacra na vida da igreja, fazendo um breve resumo das obras mais famosas que ao longo dos séculos vêm sendo interpretadas na semana santa.

As celebrações da Semana Santa sempre foram uma inspiração para os músicos, não?              

Sim, porque é a festa mais importante para os cristãos, junto com o natal. É o momento em que a vida vence a morte, em que se realiza a reconciliação de Deus com o homem.

Quais são os temas mais famosos da quinta-feira santa?

Depois que celebramos a Ceia do Senhor, a hóstia é transferida para um espaço fora do tabernáculo. Neste momento, cantamos o Pange lingua e o Tantum ergo, que são hinos medievais cujos originais são cantos gregorianos.

E na sexta-feira santa?

Na sexta-feira santa, que é o dia da morte de Jesus na cruz, nós fazemos a cerimônia da veneração da cruz. Cantamos o Populus meus, que é chamado de Improperius, que significa opróbrio. É Jesus que está prestes a morrer, e, a cada coisa que ele diz que fez pela humanidade, responde que só teve ingratidão em troca, e declara a injustiça de ir para a cruz. O original é muito antigo, é o Trisagion, que vem da liturgia bizantina e também é um canto gregoriano. Vários autores famosos o musicaram, como Palestrina, Victoria e Scarlatti. Outro hino característico é o Crux fidelis.

E o Stabat Mater?                                                                                        

Não é do repertório clássico gregoriano, é tardo-medieval. Na noite em que fazemos a via-crúcis no Coliseu de Roma, com o papa, cada estação da via-crúcis é respondida com um dos versos do Stabat Mater, uma das cinco sequências permitidas na liturgia atual. Antes havia mais, mas, por causa da sua composição teológica, foram reduzidas a cinco.

E no dia seguinte é celebrada a Vigília pascal...

Na noite do sábado, que para nós é o momento da ressurreição. Ali se proclamam as leituras bíblicas e cada uma é respondida com os cânticos da vigília, entre os quais o Cantate Domino original, em canto gregoriano, que também foi musicado pelos autores clássicos. Outro momento importante desta cerimônia são os batizados, em que se canta o Veni Creator, assim como as ladainhas em gregoriano, como em todas as cerimônias em latim. Pode ser feita também uma interpretação polifônica, de acordo com a solenidade e com a disponibilidade dos músicos. E no domingo de manhã temos outra sequência antiga, medieval, que é o Victimae paschali laudes. Também temos o Terra tremuit, que é o ofertório em gregoriano, e o Haec dies, que é o salmo próprio do domingo.

Qual é a origem do termo “canto gregoriano”?

Essa expressão é porque o papa Gregório Magno teve uma importância muito grande na sistematização e na codificação do canto gregoriano. Acreditava-se que ele era o autor de muitas dessas composições, mas hoje não se considera mais essa hipótese. Mas ele teve um papel importante na difusão desse canto sacro, e em homenagem a ele falamos em “canto gregoriano”, apesar do nome técnico que seria “canto romano-franco”, porque a origem dele é o canto romano antigo que foi levado para a França quando Carlos Magno queria a unificação do império. Na França, ele foi elaborado com elementos do canto gaulês e foi surgindo o que hoje chamamos de canto gregoriano.

E as composições posteriores, como o famoso Aleluia de Händel, como são classificadas?

A música sacra é muito vasta e nós temos que fazer uma distinção entre a música sacra e a música litúrgica. A litúrgica é sempre música sacra, mas nem toda música sacra é litúrgica, porque a música que você usa na liturgia tem que ser funcional e se inserir com harmonia naquilo que está acontecendo, porque se não for assim, vira um concerto. Por exemplo, o Aleluia de Händel, e outras peças desse tipo, pode ser executado no final de uma missa, depois da bênção final e do “ide em paz”, porque tecnicamente não estamos mais dentro da liturgia.

O papa gosta de que tipo de música?

O papa ama a música sacra e o canto gregoriano em particular. Nesta semana santa nós vamos executar praticamente todas as peças importantes do repertório gregoriano típicas da semana santa, nas celebrações presididas por ele. Ele também ama a polifonia clássica, e por isso vamos fazer o Stabat Mater de Palestrina, que é de uma grande beleza. Ele já mencionou também que Mozart é um dos seus autores preferidos.