Música sacra: tesouro da Igreja e da humanidade

Entrevista com cardeal Farina, arquivista e bibliotecário vaticano

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ROMA, segunda-feira, 13 de junho de 2011 (ZENIT.org) - Para comemorar os 100 anos da criação do Pontifício Instituto de Música Sacra de Roma, foi organizado, de 26 de maio a 1º de junho, um congresso internacional sobre música sacra nas duas sedes romanas do instituto. Entre os presentes, estava o cardeal Raffael Farina, diretor da Biblioteca e dos Arquivos Secretos do Vaticano, que concedeu uma entrevista a ZENIT.

ZENIT: O que significa para a Igreja possuir uma grande variedade de partituras?

Cardeal Farina: Significa conservar um patrimônio de arte e de liturgia do culto, junto aos manuscritos mais antigos da Bíblia, à tradição do texto bíblico e do que é parte da tradição da Igreja de Roma, ao lado de outros tantos tesouros da antiguidade clássica e muito mais.

Os livros litúrgicos musicais são muitas vezes enriquecidos por miniaturas suntuosas, nas quais a conotação musical se conjuga com a preciosidade artística das imagens. Conservamos estes tesouros, que são da Igreja, mas também da humanidade.

A música e a arte têm, além disso, uma validez altamente educativa, pois ensinar a apreciar o que o homem produziu de belo durante os séculos significa difundir e promover uma educação capaz de abrir a mente e o coração ao que verdadeiramente vale a pena, ao que enriquece a alma. Significa cultivar sementes importantes e fecundas em um mundo às vezes entristecido por eventos negativos e por enganosos subprodutos.

Em particular, os manuscritos litúrgico-musicais são o testemunho da oração da Igreja através dos séculos, da beleza da liturgia e da universalidade da linguagem que desde sempre une os fiéis, tornando-os partícipes da ação de Deus. Estes tesouros preciosos são conservados não somente na Biblioteca Vaticana, mas também nas basílicas de Santa Maria a Maior, em São João de Latrão e no arquivo da basílica de São Pedro.

Muitos livros chegaram à Biblioteca Vaticana por doações, compra ou depósitos, além da aquisição de exemplares e de coleções completas, o que garantiu, através do tempo, a conservação deste patrimônio, que teria sido perdido devido a várias circunstâncias históricas.

Permite, além disso, uma ampla fruição dos livros por parte dos estudiosos, acolhidos nos ambientes equipados e idôneos para a consulta, além da conservação.

ZENIT: É verdade que a Biblioteca Vaticana está digitalizando seus volumes?

Cardeal Farina: Começamos um projeto que envolve um importante investimento e que ainda não pudemos realizar. À medida em que encontremos patrocinadores dispostos a financiar a empresa, daremos início de maneira sistemática e bem programada.

Digitalizar todos os manuscritos da Biblioteca Vaticana demorará uns 20 anos. O projeto está amplamente ilustrado no site da Biblioteca Vaticana (http://www.vaticanlibrary.va/home.php?pag=in_evidenza_art_00115&BC=12).

ZENIT: Através da história, qual é a constante, o denominador comum da música sacra?

Cardeal Farina: Através das várias épocas e em suas diversas linguagens, a música sacra traduziu a liturgia em melodia, sublinhando os momentos importantes, revelando o mistério do encontro entre Deus – o verdadeiro protagonista da ação litúrgica – e o coração do homem que escuta. A música sacra agrega ao paladar uma ressonância que conduz às profundezas do Mistério.

Além disso, em virtude da universalidade e de tocar as cordas do desejo mais profundo em cada homem (o encontro com Deus), a música sacra tem a capacidade de alcançar e envolver até as pessoas mais distantes, aproximando-as da verdade da Palavra.

A oração se torna canto e o canto se torna oração, para dar glória a Deus, como bem ilustram os Padres (basta pensar em Ambrósio do Agostinho), que individualizaram e expressaram todas as potencialidades do canto litúrgico.

ZENIT: O senhor gostaria de acrescentar mais alguma coisa sobre o congresso?

Cardeal Farina: Iniciativas científicas, como este congresso, com um programa de densas contribuições específicas e especialísticas, além de celebrativas, indicam um concreto avanço da busca, promovem uma confrontação e fazem emergir importantes novidades nos estudos dos manuscritos, como ouvimos nas conferências do primeiro dia.

ZENIT: Quais são os arquivos mais úteis da Biblioteca Vaticana para o estudo dos manuscritos litúrgico-musicais?

Cardeal Farina: Os arquivos da Biblioteca Vaticana que contêm manuscritos litúrgico-musicais são muitos. Basta folhear os catálogos de que dispomos (desde Bannister e Ehrensberger até Salmon e Llorens) para ter uma ideia.

Iniciando com os arquivos da Capela Sistina e da Capela Júlia, onde há obras com canto gregoriano ou música polifônica, usada durante as celebrações solenes: a maior parte é de grande tamanho e ricamente ornamentada (as mais antigas que se conservam são da metade do século XIII).

Estes transmitem obras de célebres compositores que trabalharam no Colégio musical papal através dos séculos (G. Dufay, Carpentras, J. Desprez, C. Festa, G. P. Palestrina, G. Allegri…) e no da Capela Júlia (reorganizada por Júlio II), o primeiro de cujos magister cantorum foi Palestrina; depois os Vaticano musicali, constituídos como fundo autônomo em 1956 (até então, haviam estado unidos aos Vaticani latini); e é preciso recordar ainda Santa Maria a Maior, no Vaticano desde 1931.

Tais manuscritos transmitem a música sacra como testemunho da história da música, na perspectiva daquela universalidade do saber que sempre caracterizou o patrimônio recolhido na Biblioteca dos pontífices.

Esta biblioteca nasceu – vale a pena recordar – como humanística e pronta para acolher textos de diversos âmbitos disciplinares e em todos os idiomas, expressões das diversas civilizações e religiões: do latim ao grego, do hebraico ao árabe, do persa ao turco, do aramaico ao etíope, dos idiomas eslavos ao chinês e japonês.

E sua importância consiste também nessa perspectiva ecumênica e unificadora do saber e da civilização, perspectiva que ainda hoje nos sugere, através do estudo de várias disciplinas – no respeito pela identidade de cada um e com o amor pela cultura -, que o homem pode tornar-se cada vez mais homem e aproximar-se do seu Criador.