Na África, novas sementes trariam uma vida melhor?

Alimento geneticamente modificado, uma questão chave para o continente

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Por Robert Moynihan

WASHINGTON, segunda-feira, 26 de outubro de 2009 (ZENIT.org). A questão das sementes geneticamente modificadas não é, em seu âmbito, uma questão religiosa – não é um tema de fé.

Entretanto, é praticamente uma questão religiosa porque se entrelaça com temas de justiça fundamental – e de sentido comum fundamental – que são de uma importância central para todos os católicos, tal como para os homens de boa vontade.

E este é o porquê do documento preparatório para o Sínodo de África, entre os assuntos, também fala sobre as sementes geneticamente modificadas.

E é este também o porquê do próprio Vaticano – muito cautelosamente – estar estudando nos últimos anos a questão das sementes geneticamente modificadas.

A África para mim é um lugar vibrante, um lugar de vida – inclusive o Saara. Por isso, estou do lado daqueles que desejam que a vida na África se viva de forma mais abundante, que sejam cessadas as guerras tribais e que busquem seus próprios caminhos.

Uma vez, na África, encontrei uma criança de, talvez, três anos de idade, com um corte em seu calcanhar. Ele pegou a raspa de uma cenoura que eu estava descascando. Como estava suja, e não tinha água para lavar, rapidamente colocou-a em sua boca. Não tinha vendado seu corte. A ferida estava cheia de sujeira e um pouco de pus branco escorria pelas bordas.

Encontramos um pouco de água e lavei o corte. Tirei a sujeira, limpei e cobri a ferida com gaze que levava comigo. O corte sarou.

As coisas essenciais às vezes são muito simples: uma venda, ou depósitos para água corrente. Ou, quem sabe, plantar melhores sementes.

Mas as sementes geneticamente modificadas são melhores de verdade?

Prós e contras

“Em um continente, parte do qual vive na sombra do conflito e da morte, a Igreja deve semear sementes de vida”, afirmou Peter Turkson ao dar início aos trabalhos da segunda assembleia Especial para África do Sínodo dos Bispos.

Todo o mundo estaria de acordo, acredito, em que produzir melhores culturas é algo bom. Mas muitos bispos africanos temem que estas sementes possam fazer os agricultores africanos se tornem economicamente dependentes das empresas multinacionais que produzem novas sementes. E tem a preocupação de que estas novas sementes, desenhadas para resistirem a certas “pestes”, possam não ser tão boas como prometem e temem os efeitos que estas plantas modificadas possam gerar, no largo prazo, para a saúde humana.

Há um problema fundamental com algumas destas sementes. São estéreis.

Quer dizer, a planta cresce, produz fruto – seja milho, arroz, trigo ou soja – mas o milho, o arroz, o trigo, a soja não são férteis, assim, as sementes não se podem reservar e utilizar para a colheita do próximo ano, simplesmente por que não crescerão. Muitos bispos na África veem isso como um problema.

As novas sementes teriam de ser compradas da empresa produtora a cada ano. Muitos bispos da África enxergam isso como um problema.

E têm toda a razão; é um problema. Durante milhares de anos os agricultores conservaram suas sementes para uma seguinte plantação. Este é o verdadeiro sentido da paisagem de Gênesis: enquanto o mundo durar, o tempo de semear e o tempo de colheita não acabarão.

Mas a nova tecnologia acabaria com este ciclo histórico. Haveria um tempo para semear, um tempo para fazer a colheita e, logo, um novo tempo para comprar as sementes no próximo ano da empresa produtora.

O agricultor perderia sua capacidade de ser autossuficiente, mesmo que seja somente no âmbito da subsistência. O agricultor voltaria a ser completamente dependente da empresa de sementes.

O documento de trabalho  de Sínodo dos Bispos disse isso: a campanha em favor das sementes dos que propõem alimentos geneticamente modificados, que pretendem oferecer garantias de segurança alimentar, não deve passar longe dos verdadeiros problemas que rondam a agricultura na África: a falta de terra cultivável, água, energia, acesso ao crédito, preparação agrícola, mercados locais, infraestrutura viária, etc. Esta campanha corre o risco de arruinar os pequenos proprietários, abolindo os métodos tradicionais de plantação e fazendo com que os agricultores fiquem dependentes das empresas produtoras (...) Poderão os padres sinodais continuarem sendo insensíveis a questões como esta, que pesam com tanta força nos ombros de seus conterrâneos?

Fome

Entretanto, assim como os bispos africanos expressam estas preocupações sobre as novas sementes, algumas autoridades vaticanas têm sugerido que as sementes possam ser um bom caminho para a melhora da produção nas terras africanas, e consequentemente, ajudarão a evitar fome futura.

A melhora agrícola é a chave para melhorar a vida dos africanos e devem-se considerar todas as ferramentas, inclusive as sementes geneticamente modificadas, para que isso aconteça, afirmaram os oradores de um Simpósio em Roma, dia 24 de setembro, sobre o tema “Por uma Revolução Verde na África”.

Os agricultores da África do Sul e de Burquina Faso testemunham as melhorias em seus cultivos e em suas vidas ao introduzir em suas terras colheitas modificadas geneticamente.

O bispo Giampaolo Crepaldi, ex-secretário do Pontífice Conselho Justiça e Paz (acaba de ser nomeado bispo da diocese  de Triste, no norte da Itália e já não é mais funcionário vaticano), afirmava que o subdesenvolvimento e a fome na África devem-se em grande parte aos “métodos agrícolas antigos e inadequados” e que estas novas tecnologias, “que podem estimular e manter os agricultores africanos, devem ser colocadas à disposição deles, incluindo “as sementes que foram melhoradas mediante técnicas que intervieram em seu código genético”.

Um ponto válido foi levantado pelo padre Gonzalo Miranda, professor de bioética na Universidade Pontifícia Regina Apostolorum, a qual patrocinou o Simpósio. Afirmou em apoio à nova biotecnologia, que “se os dados comprovam que a biotecnologia pode proporcionar maiores benefícios para o desenvolvimento africano, é uma obrigação moral permitir que estes países tenham sua própria experiência”.

“Mas a frase chave é “se os dados comprovam”. E aqui está o verdadeiro problema. Porque os dados ainda não são claros.

E, de fato, existe uma considerável quantidade de dados que sugerem que há problemas com as novas sementes. Podem necessitar de mais água que as antigas, custam muito mais e deixam dívidas ao pequeno agricultor; e muitas são inférteis, o que significa que devem ser compradas todo ano.

Estes pontos negativos tiveram destaque dia 1º de maio de 2009 em um importante artigo de L’Osservatore Romano escrito por Francesco M. Valente, colaborador regular do diário vaticano.

E também foram lembrados pelo arcebispo George Nkvo, de Camarões, em uma interessante entrevista concedida ao jornalista norte-americano John Allen Jr, publicada dia 20 de maio de 2009.

Nkuo participou de uma “semana de estudo” em Roma, de 15 a 19 de maio, patrocinada pela Academia Pontífice das Ciências, para considerar todo o problema nos organismos geneticamente modificados (GMOs). Foi o único bispo africano e um dos poucos não científicos que participou.

Insegurança

“Objetivamente, se esta tecnologia faz de verdade com que a planta seja mais produtiva, se é acessível aos pobres e não existe perigos óbvios para a saúde do meio ambiente, então acredito que não haja mal nenhum nela”, afirmou Nkuo durante o encontro.

Mas disse também que não sabia se tudo isso – maior produtividade, acessibilidade aos pobres, sem efeitos secundários – era realmente verdade.

“Realmente não sei”, afirmou. “Este é meu problema. Não compreendo como a ciência pode ser tão confusa. Eu pensei que havia evidencias objetivas, mas a ciência parece estar em conflito. É surpreendente a divergência de opiniões”.

“Os que estão a favor dos OGM afirmam que estas plantas não fazem mal ao meio ambiente e que não fazem mal à saúde. Os que estão contra dizem que há perigos e que são um problema para a saúde. Em quem devo acreditar?”.

Se esta é a situação, se um bispo que passa uma semana em uma recente reunião a favor dos OGM em Roma ainda não sabe no que acreditar, parece então que a medida prudente seria abster-se de julgar até que os fatos estiverem claros.

Portanto, ao que parece, seria prudente e teria sentido que o Sínodo para a África estabelece em um documento final que a saúde e a vida de seu povo são supremas para eles, que serão utilizados todos os meios para melhorar a saúde e a vida de todos – sempre e quando os dados mostrem que haverá uma melhora verdadeira e não um beco sem saída.

A África não deveria adotar nenhuma decisão sobre as sementes geneticamente modificadas que lamentasse mais tarde.

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Robert Moynihan é fundador e redator chefe da revista mensal Inside the Vatican. É autor do livro: “Let God’s Light Shine Forth: the Spiritual Vision of Pope Benedict XVI” (2005, Doubleday). Pode-se visitar o blog de Moynihan em www.insidethevatican.com.