Na liturgia "a música deve sempre estar a serviço da liturgia e dos ritos"

Entrevista com Jorge e Tânia, criadores do CD "Dois nos caminhos do Senhor", vendido em prol da construção da Paróquia de Guadalupe em Brasília

Brasília, (Zenit.org) Thácio Siqueira | 479 visitas

Tânia e Jorge são um belo exemplo de amor e compromisso com a própria paróquia e com a evangelização.

Nesse ano concretizaram uma bonita iniciativa utilizando os seus próprios dons musicais para gravar juntos, os "Dois", o primeiro CD de música religiosa.

A venda desse CD, chamado "Dois nos caminhos do Senhor", está sendo revertida totalmente em prol da construção da sede definitiva da paróquia Nossa Senhora de Guadalupe, localizada na Eqs 311/312, Asa Sul, Brasília.

Publicamos a seguir a entrevista uma nova entrevista que o casal concedeu a ZENIT aprofundando em uma das faixas do CD, a música "Despertar".

Para adquirir o CD "Dois nos caminhos do Senhor" acesse:http://www.paroquiadeguadalupe.com.br

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ZENIT -  Nesta caminhada a "Dois nos Caminhos do Senhor" quando foi que nasceu a música "Despertar"? Qual a principal mensagem que a música deseja passar?

Jorge e Tânia - A música Despertar talvez tenha sido a primeira que fizemos juntos. Nos casamos em fevereiro de 1999 e ela foi composta em outubro daquele ano. Não temos exatamente uma recordação de como tudo aconteceu, mas geralmente trabalhamos a partir de algum sentimento ou de alguma saudade de Deus que estamos sentindo no momento.

Queremos estar sempre em oração e, quando ficamos um tempinho sem essa conexão com Deus, dá saudade. O mesmo em relação a Nossa Senhora. E também em relação aos nossos Anjos da Guarda. Sabe, recentemente nos apaixonamos por São José também e temos sentido tanta saudade dele que fizemos uma música!

Esse tema do reencontro com Deus é algo recorrente em nossas músicas. A canção Deus Amigo (faixa 5 do CD) também faz alusão aos momentos de deserto espiritual que vivemos e à ideia de que nosso Deus de infinita misericórdia está sempre nos esperando de braços abertos.

Mas voltando a Despertar, expressamos nessa canção nossa vontade imensa de dar graças ao Senhor porque Ele é bom e porque a misericórdia d´Ele é infinita e se revela em nossa vida nas pequenas e grandes coisas.

Há momentos em que as preocupações do mundo nos afligem e tomam conta dos nossos afazeres, mas é importante e necessário pararmos para nos voltarmos para Deus.

Despertar também alude, mesmo que de modo indireto, ao sacramento da Confissão: pecamos, Senhor,  e sabemos que por merecimento não ganharíamos o Seu perdão, mas Sua misericórdia é tão imensa que, tendo em vista nosso arrependimento, volta a encher nossa vida de cores. E é essa vida colorida pelo amor de Deus que de novo oferecemos a Ele, compreendendo que tudo é do Senhor - o que somos, temos, vivemos.

Quanto à melodia, começou como uma bossinha; às vezes ainda tocamos Despertar com uma cadência diferente daquela do CD. Mas isso nos leva à próxima pergunta. 

ZENIT - Poderia comentar como é o processo de escolha dos arranjos para uma música? E de forma especial para esta música "Despertar" como foi a escolha dos arranjos? Foi um processo simples? ou complexo?

Jorge e Tânia - O processo de escolha dos arranjos no CD foi todo feito junto com o Duda Suliano, o produtor sensível, competente e orante que Deus nos mandou.Geralmente, apresentávamos a ideia da música e como a executávamos até o momento.

No caso de Despertar, enviamos para ele dois arranjos: o primeiro era uma bossinha, como costumamos tocar na missa com piano e voz; o segundo era uma gravação que tinhamos com a Banda Sinai, da qual fizemos parte com os parceiros Cristiano Nunes, Jorge Nassar, Claudio Braga, Marcelo Megale, Lisa Santos e Ana Caichiolo, e tinha uma pegada mais para o Soul.

O Duda, com sua percepção aguda, elaborou um terceiro arranjo mais animadinho e a gente amou! Em geral, no processo de gravação, nós dávamos indicações de instrumentos que gostaríamos de ouvir no CD. Ele acrescentava em cada caso o instrumento ou arranjo vocal que tivesse a ver com a música. Em Despertar, temos um naipe de metais que deu um colorido especial à canção e um lindo solo de trombone. Nosso compadre, Jorge Mattar, profundo conhecedor de música, disse que o arranjo lembra um pouco o estilo do João Donato. Para nós, e para o Duda, esse foi um dos maiores elogios que o CD recebeu até o momento.

ZENIT - Na Pastoral da Música de uma Paróquia como deve ser este despertar para a escolha das músicas que ajudem os paroquianos a viverem bem os atos litúrgicos? Pode ser qualquer tipo de música em qualquer hora? Pode nos dar um exemplo de ato liturgico e de música que formam uma combinação perfeita para vocês?

Jorge e Tânia - Nossa, a Liturgia é reflexo de sabedoria milenar e os ritos existem para dar organicidade ao que a Igreja prega há milênios. Os ritos, a nosso ver, também servem para dar unidade: os mesmos ritos que rezamos aqui são rezados na China, na Polônia, enfim, a unidade da Igreja se baseia na ação do Espírito Santo, mas se materializa nos ritos que são comuns em toda parte.

Por isso, a música deve sempre estar a serviço da liturgia e dos ritos. A música não pode estar desconectada dos momentos em que se encaixa. Cantar um Aleluia na Quaresma não é adequado porque é um hino de louvor que se enquadra, de modo lógico, à celebração da Ressurreição, e na Quaresma temos cânticos mais introspectivos, de pedido de misericórdia, de aceitação da nossa pequenez perante tudo por que passou Jesus para nossa salvação.Do mesmo modo, os momentos mais festivos pedem músicas mais alegres.

Cada parte da Santa Missa tem uma característica que compõe um todo coeso: muito resumidamente, primeiro nos apresentamos; depois pedimos perdão; damos graças e glória a Deus por nos sentirmos perdoados; refletimos sobre as leituras; fazemos a oferta da nossa vida inteira; comungamos; damos graças a Deus; e saímos felizes e renovados desse momento de adoração.

Para cada uma dessas etapas, há músicas que cabem como uma luva. São tantos os exemplos! Veja que mesmo o Pai Nosso pode ser cantado. Há um Pai Nosso lindo cantado pelo Padre Marcello Rossi, que vez ou outra cantamos nas celebrações. O pessoal às vezes não entende porque rezamos o Pai Nosso depois, mas é que essa música, em especial, acrescenta palavras à oração que Cristo nos ensinou, então rezamos exatamente as palavras que Ele nos ditou para confirmar nossa unidade. O canto vem como acréscimo para a elevação das almas a Deus.

Outro momento em que é importante atentar para as palavras é o Ato Penitencial. Às vezes cantamos apenas pedindo perdão; outras vezes cantamos apenas nos confessando. Mas o momento é de confessar e pedir a misericórdia de Deus. Por isso, certas músicas são "incompletas" no sentido oracional, e os padres, logo após o canto, rezam o Kyrie Eleyson ("Senhor, tende piedade de nós..."), novamente com essa ideia de unidade, da comunhão dos Santos em um só rito, uma só liturgia.

Para esclarecer esse caso, a música Confissão, que está no CD Dois, é uma música pela qual nos apresentamos a Deus como pecadores e pedimos perdão; mas nela não falamos "Senhor, tende piedade de nós; Cristo, tende piedade de nós; Senhor, tende piedade de nós". Assim, quando o Padre nos permite cantar essa música no Ato Penitencial, ela é logo seguida do Kyrie falado. A música é apenas um acessório que ajuda a elevar nossas almas.Ocorre que como a música é uma forma de arte - e, com isso, enseja alguma vaidade, algum orgulho de fazer algo belo -, vários músicos começam a achar que as canções são o centro da celebração da Santa Missa, e porque gostam mais de uma ou outra, porque essa ou aquela canção é mais pop, acham que podem encaixar qualquer música em qualquer momento litúrgico. Precisamos, então, despertar para a necessidade do serviço: serviço à liturgia, aos ritos, à comunidade.