Não se pode romper sigilo da confissão

Declarações sobre a crise entre a Santa Sé e a Irlanda após o Informe Cloyne

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ROMA, sexta-feira, 22 de julho de 2011 (ZENIT.org) – “É justo pedir mais severidade, mas no sigilo de confissão não se toca”, afirmou ontem em Viena Massimo Introvigne, representante da OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa) para a luta contra a discriminação dos cristãos.

O sociólogo italiano interveio assim sobre o tema da crise diplomática entre a Irlanda e a Santa Sé, após a publicação do informe sobre abusos sexuais a menores por parte de sacerdotes da diocese de Cloyne, com ameaça de ruptura das relações diplomáticas e um projeto de lei que, se for aprovado, obrigará os sacerdotes a informar sobre abusos sexuais a menores, inclusive se receberem esta informação dentro da confissão.

Durante um debate parlamentar desta semana sobre o Informe Cloyne, o primeiro-ministro irlandês, Enda Kenny, atacou duramente o Vaticano, acusando-o de não ter tomado as medidas adequadas para deter os abusos sexuais de sacerdotes católicos sobre menores.

Kenny citou o informe, divulgado na semana passada pela Comissão Murphy, do qual se desprende que Dom John Magee, bispo de Cloyne até 2010, ignorou as diretrizes sobre as normas de proteção infantil de 1996, elaboradas pela Conferência Episcopal Irlandesa, ao não informar sobre pelo menos 9 de 15 denúncias relativas a abusos sexuais, inclusive recentes (há três anos).

A respeito disso, os ministros do interior, Alan Shatter, e da infância, Frances Fitzgerald, propuseram uma lei que estabeleça a obrigação de denunciar os casos de abusos sexuais a menores, que forçaria um sacerdote católico a violar o sigilo da confissão no caso de o penitente revelar um crime desse tipo.

“Compreendemos as razões da Irlanda, um país que se orgulha dos seus mais de mil anos de amizade com a Santa Sé e que está turbado por aquilo que o próprio Papa definiu, em sua carta de 2010 aos católicos irlandeses, como 'atos pecaminosos e criminosos'”, declarou Introvigne.

No entanto, a solução passa por não romper o diálogo, “um diálogo diplomático, que deve ao mesmo tempo ajudar a evitar remédios – como os ataques ao sigilo da confissão – piores que os males que se pretendem curar”, explicou.

“Nem sequer os piores governos totalitários ousaram jamais atacar o sigilo da confissão; inclusive em uma época em que o anticatolicismo protestante influenciava fortemente a vida política dos EUA, o Supremo Tribunal de Washington declarou muitas vezes que violar o sacrário do confessionário católico teria destruído a própria noção de liberdade religiosa.”

“Como alguns sacerdotes irlandeses já declararam, se esta lei realmente for aprovada e eles forem interrogados sobre o conteúdo das confissões, não lhes restará outra alternativa a não ser calar e ser presos, pois, para a Igreja, o sigilo da confissão é uma obrigação gravíssima e irrenunciável.”

O político europeu desejou que “o Tribunal Europeu de Direitos Humanos constate a evidente violação da liberdade religiosa, e mais ainda: que, passada a emoção destes dias, o Parlamento irlandês nem sequer leve em consideração a aprovação da lei”.

“Certamente, há outras formas de reagir a uma crise cuja gravidade seria errado negar”, concluiu Introvigne, fazendo votos de “uma colaboração mais incisiva entre as autoridades civis e religiosas para reprimir os abusos, e o franco reconhecimento do episcopado irlandês dos erros cometidos no passado”.