Nas trevas do conflito sírio, uma freira ajuda a vislumbrar a luz

Irmã Agnes Mariam de la Croix, fundadora do movimento Mussalaha, é indicada para o Prêmio Nobel da Paz

Roma, (Zenit.org) Naman Tarcha | 608 visitas

"Mussalaha", "Reconciliação": este é o nome do movimento que conclama o mundo a dar fim à guerra na Síria e a silenciar o estrondo das armas. O movimento "Reconciliação" trabalha por uma verdadeira paz através da mediação entre as partes de um conflito que já dura três anos e cuja vítima real é só o povo sírio.

O coração desse movimento é uma freira: Agnes Mariam de la Croix.

"Num momento em que o mundo precisa desesperadamente de uma solução pacífica para acabar com o derramamento de sangue na Síria, esta iniciativa se destaca como um farol, cuja luz alimenta a esperança que vem de dentro da sociedade síria e expressa o desejo da maioria das pessoas de trilhar o caminho da paz". Estas palavras são de Mairead Maguire, pacifista britânica e co-fundadora da Comunidade de Pessoas de Paz (Community of Peace People). Prêmio Nobel da Paz em 1976, ela propôs, em carta ao Instituto Nobel, que o reconhecimento seja concedido neste ano à Irmã Agnes.

A freira nasceu como Fadia Laham, de pai palestino e mãe libanesa, mas diz que se sente totalmente síria. Passou a juventude em Beirute. Ao decidir consagrar a vida a Deus, entrou no convento e depois fundou o Mosteiro de Mor Yacoub na região de Qalamoun, na Síria, onde vive há 20 anos.

A verdade e a justiça não podem deixar de impactar a consciência humana, muito menos para uma pessoa que escolheu dedicar a vida ao serviço dos últimos entre os seres humanos. Por trás de um sorriso sereno, os olhos da irmã Agnes revelam a dor que ela tem visto e vivido junto com as pessoas inocentes que conheceu em sua missão.

Quando o conflito sírio estava apenas começando, a irmã escreveu uma carta a uma associação humanitária francesa falando da guerra midiática e da desinformação contra o seu país, contando com coragem o que realmente estava acontecendo. Por causa dessa carta, os grupos rivais lançaram críticas e acusações contra ela.

Mas a Irmã Agnes não se abateu: decidiu continuar com mais coragem ainda a luta contra a desinformação, e, graças à sua contribuição, chegou à Síria a primeira delegação de jornalistas estrangeiros, apesar do total encerramento do governo sírio, temeroso de possíveis infiltrações de espiões internacionais.

A religiosa convenceu as autoridades (a quem fez críticas oportunas em várias ocasiões) da necessidade de dizer a verdade de maneira neutra e independente, denunciando os massacres e crimes cometidos pelos grupos terroristas formados por jihadistas estrangeiros que chegaram ao país para fazer “guerra santa”. Não se trata, portanto, de um levante popular: há grupos organizados que criam manifestações pontuais e tentam, através da violência, provocar conflitos sectários e divisões étnicas e religiosas.

A estrada a percorrer é difícil. As críticas chovem de todos os lados sobre a Irmã Agnes, até mesmo de grupos que se dizem pacifistas ao mesmo tempo em que pedem intervenção militar na Síria. Alguns a acusam de apoiar o governo sírio, quando, na verdade, a freira denuncia os crimes dos rebeldes e desmascara as falsas notícias.

"Eu não faço política: o meu compromisso é puramente humanitário", disse ela em mais de uma ocasião. Suas palavras não são vazias. Apesar dos ataques ferozes de movimentos próximos à oposição síria e de simpatizantes dos rebeldes sírios, seu papel foi decisivo nas áreas de maior conflito, onde, muitas vezes, conseguiu encaminhar o compromisso entre os combatentes e o governo. Tudo graças à rede de voluntários do movimento Mussalaha, que salvou muitos civis e reabriu os canais do diálogo e da reconciliação.

Isto possibilitou que a Irmã Agnes evacuasse famílias, protegesse mulheres e crianças e não agisse como espectadora, mas permanecesse na vanguarda entre as pessoas e nos lugares de alto risco. A freira é implacável e continua a percorrer o mundo como porta-voz de civis inocentes: já recolheu muita ajuda durante as suas viagens à Europa e à Austrália, conseguindo, entre outras coisas, criar um hospital itinerante e juntar grandes quantidades de medicamentos e itens de necessidade básica.

Enquanto o mundo espera que as partes em conflito se sentem à mesa de negociações em Genebra, uma freira tenaz está salvando muitas vidas todos os dias, abrindo uma janela de esperança no meio do massacre, mediante o diálogo e a reconciliação.

* Naman Tarcha é jornalista e apresentador de televisão. Sírio de Aleppo, graduado em Comunicação pela Pontifícia Universidade Salesiana de Roma, vive e trabalha na Itália há anos. É pesquisador e especialista em mídia e cultura árabe.