Natal: silêncio e adoração; comunhão e solidariedade

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SÃO PAULO, 24 de dezembro de 2003 (ZENIT.org).- Publicamos a seguir artigo sobre o Natal do professor José Pereira da Silva, doutorando em História Social das Religiões pela Universidade de São Paulo, publicado pelo jornal «O Lábaro» da Diocese de Taubaté no dia 21 de dezembro de 2003.




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Natal: silêncio e adoração; comunhão e solidariedade

Uma das notas predominantes do Natal é a alegria de vermos aparecer Cristo na terra. Escreveu São Bernardo de Claraval (1090-1153): «O Filho de Deus nasceu: exulte de alegria aquele que deseja grandes coisas, porque o grande benfeitor veio. Irmãos, eis o herdeiro: recebamo-lo com amor, pois Ele também será nossa herança. Aquele que nos deu seu próprio Filho, como não nos teria dado tudo o mais com Ele? Que ninguém duvide, que ninguém hesite, temos o testemunho mais fiel que existe: ‘O verbo se fez carne e habitou entre nós’ (Jo 1, 14). O mistério do Natal, o Verbo Encarnado! Este mistério não se esgota em nossas palavras. O Natal é adoração e silêncio frente ao mistério, ação de Deus pela qual Ele se revela e entra em comunhão conosco, possibilidade de nossa comunhão com Ele. ‘Deus predestinou-nos ao seu amor para sermos adotados como filhos seus por Jesus Cristo’ (Ef 1, 5). Deus nos inclui na sua comunidade de Amor. Deus nos chama à comunhão com Ele, bem como nos envia à comunhão com o próximo, incluindo a própria natureza criada.»

Escreveu Santo Agostinho (354-430): «Por vós nasceu, no tempo, o Autor do tempo. Por vós apareceu, na carne, o Criador do Mundo. Por vós fez-se criatura o Criador» (Sermão 192, I – 9º do Natal).

É interessante notarmos que no término de cada ano há um Natal. Natal vem a ser um certo paradoxo. Sim, em meio ao que vai envelhecendo, alquebrado pelo cansaço e a fragilidade corporal, coloca-se uma grande novidade: uma criança nasce! E nasce diversamente das outras crianças, embora compartilhe o frio e a fome das demais. A criança do Natal é a portadora de vida eterna. O contraste do Natal – o novo dentro do velho – ajuda os homens a compreender que tudo vale aqui na terra, desde que escrito por amor a Deus e ao próximo!

A história atual, com seus desatinos e crimes atesta que o mundo está descontente e angustiado. Os desencontros de nossos dias são um aceno que aponta para o Infinito. A criatura humana quer algo de melhor, que ela mesma não sabe definir e que, em última análise, Deus: «O Verbo se fez carne e habitou entre nós» (Jo 1, 14). Escreveu São Bernardo: «E para que a pusilânime fragilidade humana não hesite, Ele fez-se irmão dos homens, Ele fez-se Filho do homem, Ele fez-se homem».

Deus é o futuro do homem e do mundo. Se a humanidade perde o sentido de Deus, fecha-se para o futuro e perde inevitavelmente a perspectiva da sua peregrinação no tempo. Nascer, morrer, sacrificar-se e sofrer por quê?

A estas interrogações o cristianismo oferece uma resposta satisfatória. Por isso, Cristo é a esperança da humanidade. Ele é o verdadeiro sentido do nosso presente, porque é o nosso futuro certo.

O Verbo de Deus se esvazia duplamente: se fez homem e se fez pobre, assumindo a vida e o destino dos deserdados, oprimidos e sofridos. Morre condenado como os escravos e marginalizados (Fl 2, 6-11), após se ter feito pobre, viver com os pobres e viver como pobre (Mt 8, 20).

No nascimento de Jesus Deus se fez criança, fragilidade, despojamento. O presépio convida todos os povos à contemplação (Mt 2, 1-12) e, de modo especial, convida à contemplação os pobres e oprimidos simbolizados pelos pastores (Lc. 2, 8-18).

O presépio é um convite ao silêncio e à adoração diante do Mistério. O Jesus Salvador se faz silêncio e adoração na manjedoura, dentro de uma estrebaria e nos convida a trabalhar juntos para que haja mais vida e dignidade em nossa sociedade.

O Jesus Criança do presépio questiona o vazio, a solidão de muitas pessoas num mundo barulhento e superficial que perde o sentido do Mistério, da contemplação, da oração.

Que sejamos homens e mulheres portadores do «novo», outros pastores a anunciar a Boa Nova da chegada de Jesus. Um santo Natal para todos!