"Negocio com os rebeldes desde o início"

Ajuda à Igreja que Sofre entrevista Pe. Aurelio Gazzera, carmelita italiano

Roma, (AIS) | 363 visitas

Nos dias 10 e 11 de Junho, Bangui, capital de República Centro Africana, foi palco dum encontro inter-religioso para o qual D. Dieudonné Nzapalainga, Arcebispo de Bangui, tinha convocado representantes de diversas religiões, assim como um padre por diocese, para negociar com os rebeldes da Séléka. O Padre Aurelio Gazzera, carmelita oriundo de Itália, missionário e director da Caritas da diocese de Bouar, relembrou este encontro inter-religioso aquando duma conversa com a AIS.

Publicamos a seguir a entrevista:

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Fundação AIS: Participou no encontro inter-religioso em Bangui. Como avalia a importância deste encontro?

Pe. Aurelio Gazzera: O encontro entre os líderes religiosos (católicos, protestantes e muçulmanos) tem uma grande importância. Existe, há alguns meses, uma plataforma religiosa que reúne o arcebispo de Bangui (D. Dieudonné Nzapalainga), o presidente da comunidade islâmica e o presidente da conferência das Igrejas Evangélicas. Começaram a encontrar-se antes do golpe de Estado e até fizeram missões no interior do país, para visitar as cidades que tinham sido tomadas pelos rebeldes.

Fundação AIS: Qual o motivo deste encontro?

Pe. Aurelio Gazzera: Esta reunião nasceu da seguinte preocupação: acontece que, face ao aparecimento dos muçulmanos radicais, pode haver uma reacção contra todos os muçulmanos, sem distinção. Com o aparecimento do islamismo há, efectivamente, elementos inquietantes (com a pilhagem e os ataques contra as igrejas e os cristãos ), mas há também o perigo de as pessoas, fartas de serem saqueadas e de ver que alguns muçulmanos participaram na pilhagem e lucraram com isso, utilizarem a violência contra os muçulmanos.

Fundação AIS: É um dos padres encarregados de negociar com os rebeldes. Já adquiriu experiência neste assunto…

Pe. Aurelio Gazzera: Pessoalmente, negocio, desde o início, com os rebeldes sempre com o cuidado de defender a população. Alguns dias após o golpe de Estado, também me encontrei com alguns muçulmanos para negociar com eles a maneira de evitar as pilhagens e a violência. E, graças a Deus, e também à boa vontade de uns e de outros, não houve muitas pilhagens em Bozoum.

Fundação AIS: Como é que isso se realiza na prática?

Pe. Aurelio Gazzera: Não é, muitas vezes, uma situação muito agradável, porque os rebeldes chegaram, pilharam, dispararam, etc. Algumas vezes, conseguimos evitá-los… Mas, muitas vezes, um pouco por todo o lado, houve encontros menos brutais. Por vezes, são os rebeldes que têm necessidade de (por exemplo, tratamentos, como no caso das cáries tratadas no nosso consultório dentário, em Bozoum) e, às vezes, somos nós que vamos ter com eles para resolver um problema, para conseguir libertar alguém, para os convencer a parar com os tiros, as pilhagens, as acções violentas ou ainda para garantir o funcionamento dos serviços básicos como as escolas ou os hospitais. O contacto varia duma pessoa para a outra, e conforme a ocasião… Deve ficar bem claro que vamos ter com eles não por causa das nossas necessidades, mas pelas da população. E isto implica, pelo menos da minha parte, que vá com coragem e firmeza, sem mostrar “demasiado” medo, porque não estou lá por causa de mim, mas dos meus irmãos e irmãs… As reacções dos rebeldes são, muitas vezes, bastante boas: para mim como cristão, é também uma oportunidade para lhes dar hipótese para reflectir e fazer algo de bom.

Fundação AIS: Baseado em que princípios, pode este diálogo ter sucesso?

Pe. Aurelio Gazzera: Um diálogo, neste momento, é feito de verdade e de caridade, de justiça e de misericórdia. Não é muito fácil porque, quando se começa a misturar a política tudo se torna difícil. Mas é preciso tentar sempre. É preciso ser muito claro, mas com respeito, não tentando esconder os acontecimentos e os actos criminosos destas pessoas. Normalmente compreendem, muito bem, quando se vai negociar sem ser em benefício próprio, mas no de outros. Estão sempre armados, mas como eu vou sem nada, sem escolta nem armas… sou o mais forte… E também sou um joker… e não dos menos importantes: a oração e a presença de Deus…

Fundação AIS: Como vê o futuro?

Pe. Aurelio Gazzera: Sinceramente… neste momento não estou muito optimista… A República Centro- Africana está nas mãos de pessoas que não têm um programa de desenvolvimento nem de melhoria das condições de vida da população. Para além disso, há muita incompetência. Sem esquecer que o golpe de Estado desencadeou toda uma série de violência e pilhagens que não param, mesmo três meses depois. Há demasiados rebeldes armados e nenhuma tentativa séria foi feita para os desarmar. E quanto mais se demora a intervir, mais numerosos se tornam e mais difícil será desarmá-los. É, também, preciso ter em conta que a maior parte dos rebeldes (pelo menos dos primeiros) é de origem chadiana ou sudanesa…

Fundação AIS: Mas também há esperança?

Pe. Aurelio Gazzera: A esperança. São as escolas públicas que, finalmente, reabrimos em Bozoum. Na primeira semana, só havia 140 alunos. Mas na semana seguinte, já eram 1.699. Ouso esperar que também o país possa seguir este caminho: se nos pusermos a trabalhar, mesmo que não sejamos muitos… as coisas, pouco a pouco, com a ajuda de Deus e a boa vontade dos homens e das mulheres, podem renascer…