No mosteiro, a cada dia, estamos sempre encontrando Jesus.

Entrevista com Ir. Teresa de Jesus, do carmelo Santa Teresinha da cidade de Aparecida do Norte

Brasília, (Zenit.org) Thácio Siqueira | 1188 visitas

Já está às portas a Celebração do 17º Dia da Vida Consagrada, com celebração na Basílica Vaticana, em Roma, no próximo sábado, 2 de fevereiro.

Coincide com a festividade do Batismo do Senhor. “No dia em que a Igreja faz memória da Apresentação de Jesus no templo, celebra-se o Dia da Vida Consagrada. Com efeito, o episódio evangélico ao qual nos referimos constitui um ícone significativo da doação da própria vida por parte de quantos foram chamados a representar na Igreja e no mundo, mediante os conselhos evangélicos, os traços característicos de Jesus, casto, pobre e obediente, o Consagrado do Pai”, explica o Papa Bento XVI em homilia no dia 2 de fevereiro de 2012.

Para iluminar um pouco o sentido e significado dessa celebração ofereceremos aos leitores de ZENIT uma série de entrevistas com religiosos e religiosas.

Publicamos a seguir entrevista com a Ir. Teresa de Jesus, do Carmelo Santa Teresinha, da Cidade de Aparecida do Norte: www.carmelosantateresinha.com.br

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ZENIT: O que é que motiva uma jovem a entrar no carmelo? Como foi no seu caso?

Ir. Teresa: Eu penso que a cada pessoa Deus atrai de uma maneira diferente. No meu caso, desde criança, desejava muito ir às Missões na África, mas com o passar do tempo, fiquei atraída pela vida de silêncio e oração. Eu me lembro até hoje que, quando via alguém rezando, ou na Missa, comungando, com uma atitude tão recolhida, aquilo me questionava e então refletia: “Essa pessoa deve ter um relacionamento muito íntimo com Deus. Eu também quero ter. Também quero conhecer quem é este Deus”. Teve início aí a minha vida de oração, e a minha busca de Deus.

ZENIT: Qual é o sentido de uma vida contemplativa hoje?

Ir. Teresa: Há uma frase de Thomas Merton que diz: “No mosteiro, a cada dia, estamos sempre encontrando Jesus.” Hoje as pessoas têm uma grande sede, e muitas delas não sabem que é Deus o Único que as pode saciar. A vida monástica e contemplativa é um sinal para as pessoas que estão no mundo; é como se dissesse: “Olhem! Quem vocês estão procurando só pode ser encontrado no silêncio e na solidão! Parem um pouco, façam silêncio e poderão encontrá-Lo!”

ZENIT: Como é o seu mosteiro?

Ir. Teresa: Nosso Mosteiro foi fundado em 1932, na cidade de Mogi das Cruzes, pela Reverenda Madre Raymunda dos Anjos, vinda do Mosteiro de Santa Teresa, São Paulo. As Irmãs viviam em grande pobreza, e a casa era insalubre, por isso ficaram doentes. Vinte anos mais tarde, transladaram o mosteiro para a cidade de Aparecida, SP. Atualmente somos 23 irmãs, três das quais fazem o serviço externo da portaria, ou seja, são religiosas, mas não são monjas, pois não vivem na clausura. De nosso mosteiro já saíram três fundações: Passos (MG), Três Pontas (MG) e a Madre Raymunda ajudou na fundação do Carmelo de Cotia (SP).

ZENIT: Vocês estão presas?

Ir. Teresa: Não, isso não é verdade.  Para quem Deus chama, não é perda, mas ganho. É verdade que temos que renunciar muitas coisas, e coisas boas, mas é sempre por um Bem maior: Deus. E também a clausura não é uma prisão como muitos pensam. A clausura ajuda muito na purificação de nosso coração, no conhecimento próprio, na vida fraterna, e principalmente, cria um ambiente para o encontro com Deus na oração e solidão.

ZENIT: O nosso querido Papa trouxe à tona a figura de São Bento. O que ele significa para vocês?

Ir. Teresa: Acredito que nosso Papa é um grande místico; basta prestar atenção em seus discursos e homilias. O que me chama a atenção em Bento XVI é que ele sempre, de uma maneira ou de outra, indica o caminho que devemos seguir: a vida de intimidade com Jesus, quando diz,  por exemplo: “A felicidade tem um rosto e tem um nome: Jesus de Nazaré, escondido na Eucaristia”, ou: “Em Jesus encontra plena realização toda a ânsia e anelo do coração humano”. Isso é como que a base da vida contemplativa.  Além disso, o Papa fez uma série de catequeses sobre a oração que alargou muito meu horizonte sobre o tema. Considero isso uma das grandes graças que recebi no ano passado, ao ler essas catequeses.

ZENIT: É complicada a vida de oração?

Ir. Teresa: O Papa diz em uma das Catequeses, que na oração, mais do que em qualquer outro lugar, talvez, fazemos a experiência de nossa fraqueza. Muitas vezes queremos rezar, mas não conseguimos, devido ao cansaço, distrações, nossa imaginação (que é a “louca da casa”), etc. Mas o fato de poder estar naquele momento a sós com Jesus, compensa tudo. Encontramos, algumas vezes, muitas dificuldades, mas o principal é o encontro com Deus, e o trabalho do Espírito Santo em nossa alma, pois se a oração não transforma a pessoa, então não é verdadeira oração.

Nossa Santa Madre Teresa, grande Mestra de oração, diz em uma de suas cartas, que prefere uma oração árida, difícil, mas que a transforme, do que uma oração sentimental, que não a leve a comprometer-se com nada.

ZENIT: Como é a vida detrás dessas grades? Vocês têm paz? Qual é a essência de um consagrado?

Ir. Teresa: Sim, mas não a paz que leva a buscar-me a mim mesma, pois essa não é a paz verdadeira. A alegria de estar fazendo a vontade de Deus, de aceitar esta mesma vontade, mesmo quando Ele permite a Cruz (que é sempre para o nosso bem, mesmo quando não entendemos), tudo isso permite que a paz faça morada em nosso coração.

ZENIT: Vocês fazem algum trabalho apostólico? Como está a preparação para a Jornada Mundial da Juventude 2013?

Ir.Teresa: Nossa vida é inteiramente contemplativa, por isso não fazemos nenhum trabalho apostólico. Diz as nossas Constituições: “O apostolado próprio das Carmelitas descalças consiste na oração e na imolação pela Igreja”. “A oração, a contemplação, e toda a vida de uma carmelita tem em vista a salvação das almas”. Por isso, nosso apostolado específico é a oração e a imolação pela Igreja, pelos sacerdotes, e pela humanidade.

Devido à nossa vida escondida, pouco sabemos sobre a Jornada Mundial da Juventude, mas nosso modo de estar presente é rezar por essa intenção.

ZENIT: Qual é a espiritualidade de vocês?

Ir. Teresa: A espiritualidade de Santa Teresa de Jesus, mais conhecida como Santa Teresa de Ávila. A Santa Madre Teresa desejava que suas filhas vivessem uma vida de amizade com Jesus, por isso a oração não se restringe apenas aos momentos específicos dedicados a ela. Tudo deve ser oração na vida de uma carmelita. Durante o trabalho, devo estar conversando com Jesus, como dois amigos que se amam conversam. Na recreação, na vida fraterna, devo servir a Jesus na pessoa das Irmãs, como Santa Teresinha nos deu o belíssimo exemplo. Se nos deixamos guiar pelo Espírito Santo, tudo podemos transformar em oração.

Para as pessoas que desejam ser “servos do amor”, como escreveu a Santa Madre, ao começar a falar de oração, aconselho que procurem ler os livros de Santa Teresa, principalmente o “Caminho de Perfeição”, o “Livro da Vida” e o “Castelo Interior”.

ZENIT: Como os leitores de ZENIT podem ajudá-las?

Ir. Teresa: Rezando por nós, para que sejamos fiéis à nossa vocação na Igreja. O mundo precisa muito de oração, e a Igreja espera muito de nós neste sentido. Então peço aos leitores de ZENIT que em suas orações se lembrem de nós. Para aqueles que desejam conhecer nosso mosteiro, podem acessar: www.carmelosantateresinha.com.br