"Nós tivemos um encontro pessoal com Cristo e gostaríamos que os outros também tivessem" (Parte II)

Padre Eduardo Robles-Gil, LC, nos conta como guiará os Legionários de Cristo e o Regnum Christi nesta nova fase da sua história

Roma, (Zenit.org) Luca Marcolivio, Antonio Gaspari, Sergio Mora | 458 visitas

Temos um papa latino-americano que, como membro da Companhia de Jesus, conhece bem a dinâmica da vida consagrada e religiosa. Ele propôs o desafio de ir "para as periferias existenciais". Como vocês vão responder a este desafio e que tipo de evangelização vão fazer?

Pe. Eduardo Robles-Gil: Temos que distinguir e acolher prontamente as indicações do papa. Na exortação apostólica Evangelii Gaudium, ele fala para a Igreja em geral e faz um convite a continuar anunciando Cristo para todas as pessoas com alegria e entusiasmo. O nosso serviço é feito especialmente na educação das pessoas, muitas delas batizadas, mas não praticantes. Elas estão nas "periferias existenciais", ou seja, onde Jesus Cristo não chegou ou, de certa forma, foi esquecido. Temos muitos colégios e universidades que são lugares para fazer o anúncio do amor e da misericórdia de Deus. No México, na Venezuela, no Chile, no Brasil e em outros países nós temos a rede de colégios Mão Amiga, em que os alunos pagam mensalidades muito baixas, pois acreditamos que a educação é a melhor maneira de livrar as pessoas da miséria e de abrir oportunidades para o futuro. Lá também existem periferias sociológicas e, muitas vezes, pobreza espiritual. Este é um campo de evangelização que está no coração do papa Francisco.

Nós levamos muito a sério o que o papa diz, porque é a razão da nossa existência. Porque nós tivemos um encontro pessoal com Cristo e gostaríamos que os outros também tivessem. O papa fala de uma Igreja que "sai", uma Igreja que sente a força da sua missão, que não tem medo. E nós queremos, inclusive através da nossa experiência recente, proclamar a misericórdia de Deus.

No dia 6 de fevereiro, os legionários divulgaram um comunicado que fala do fundador e, muito corajosamente, assumem uma postura sem meias palavras a respeito dele. Esta tomada de posição foi difícil de assumir ou já tinha amadurecido entre vocês? É o sinal de uma mudança?

Pe. Eduardo Robles-Gil: Eu não sei se consideramos isso como um amadurecimento, porque é algo que já tinha acontecido. Se vocês analisarem a carta do governo geral e dos diretores territoriais de 2010, o conteúdo sobre o fundador é muito semelhante. Mas, levando em conta o caminho que percorremos ao longo desses anos sob a direção do cardeal De Paolis, sentimos a necessidade de retomar o assunto no Capítulo Geral e falar com clareza. Não podemos esquecer que o Capítulo representa toda a congregação, não apenas os superiores. A novidade do comunicado, além do que foi dito sobre o fundador e dos pedidos de perdão, é a resposta para o que surgiu da visita apostólica e o caminho trilhado sob a direção do delegado pontifício, que nos levou a ver algumas coisas que não tínhamos feito de todo bem ou que poderiam ser melhoradas. Em certo sentido, é um caminho de conversão que nunca vai acabar, porque sempre podemos nos abrir para a graça que nos torna mais semelhantes a Cristo.

Hoje, os legionários são quase mil sacerdotes, um movimento que cresceu muito. Quais são as perspectivas para o futuro?

Pe. Eduardo Robles-Gil: Nós trabalhamos a terra, mas é Deus quem chama. A verdade é que nós gostaríamos de continuar crescendo em número de sacerdotes, em número de seminaristas, em número de leigos comprometidos, mas no ritmo que Deus quiser. De qualquer forma, é necessário também um pouco de prudência no crescimento, não tanto das vocações, que nunca serão suficientes, mas das obras. No passado, talvez nós tenhamos começado muitas iniciativas ao mesmo tempo e, nos últimos anos, fomos obrigados a fechar algumas obras e até mesmo a sair de alguma diocese ou cidade. Continuamos aprendendo.

A Legião trabalha em conjunto com uma realidade leiga muito importante, o Regnum Christi. Como o senhor espera que os leigos acompanhem a congregação nesta fase de mudança?

Pe. Eduardo Robles-Gil: Esta pergunta não tem uma resposta única. Nós, legionários, nos definimos como parte do movimento Regnum Christi; somos uma realidade complexa, rica em diferentes vocações: sacerdotes, leigos consagrados e consagradas, leigos comprometidos. Todos fazem parte da nossa realidade, que está envolvida na missão em resposta ao chamado de Deus. Os outros membros do Regnum Christi são chamados no seu estado de vida e na sua condição de vida, então a vocação deles acontece em outras circunstâncias. Os leigos devem fazer com que Jesus Cristo reine nas suas famílias, no seu trabalho, na sua profissão. E tentar garantir que Cristo reine cada vez mais no coração dos homens e na sociedade. Nós ajudamos uns aos outros de acordo com a espiritualidade da comunhão. Como sacerdotes, uma das nossas tarefas, como é definido pela nossa constituição, é assistir espiritualmente os membros do Regnum Christi. Nós, sacerdotes, consagrados e leigos participamos do mesmo carisma, mas isto se articula de acordo com a vocação particular de cada um. A diversidade na unidade é uma riqueza para todos.

De que o senhor vai sentir falta do México?

Pe. Eduardo Robles-Gil: Eu trabalhei como sacerdote em muitos lugares, mas a maior parte dos meus trinta anos de sacerdócio foi no México, na cidade onde eu nasci, onde estudei e onde a minha família vive. Por isso, a amizade das pessoas e da minha família é o que vai me dar saudade, o resto não. Não vou sentir falta dos tacos, apesar de que eu gosto deles também, mas dos meus amigos e das pessoas que eu amo.

Há alguma coisa que nós não perguntamos e que o senhor gostaria de comunicar aos leitores e colaboradores da ZENIT?

Pe. Eduardo Robles-Gil: Os meios de comunicação social são muito importantes hoje. Há muito tempo que eu acompanho as notícias sobre a Igreja através da ZENIT. Eu acredito muito no serviço que vocês oferecem e acho que, no meio das tantas notícias, a Igreja representa uma notícia positiva em muitos ambientes. Gostaria de agradecer a todos aqueles que, no passado, tornaram este serviço possível para a Igreja e também àqueles que o tornam possível hoje.

Os acontecimentos que estamos vivendo com o Capítulo Geral e com a Legião são um tempo de esperança que vem de Deus, nosso Senhor. Existe esperança quando a terra é fértil, e aqui vem o trabalho de todos os leigos do movimento e dos legionários: temos que procurar ser um terreno fértil para dar muito fruto para a glória de Deus.

Gostaria também de agradecer a todos aqueles que vêm nos acompanhando nesses anos com as suas orações e com o seu apoio. Nós somos gratos pela sua caridade e queremos corresponder também com as nossas orações.

Leia a primeira parte da entrevista publicada ontem, 12 de fevereiro de 2014