Nosso coração sente-se turvado com as traições e negações de que ele mesmo é capaz

Homilia do Cardeal Tarcisio Bertone pronunciada na Eucaristia por ocasião da peregrinação de outubro a Fátima

Fátima, (Zenit.org) | 453 visitas

Apresentamos a Homilia do Cardeal Tarcisio Bertone pronunciada na Eucaristia por ocasião da peregrinação de outubro a Fátima, realizada neste domingo, 13 de outubro de 2013

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Queridos peregrinos de Fátima,

Amados irmãos e irmãs!

         «Mantenhamos firme a confiança»! Este é o apelo que nos foi feito no trecho da Carta aos Hebreus, aqui proclamado na segunda Leitura: «Todos nós nos tornamos participantes de Cristo, desde que mantenhamos firme até ao fim a confiança inicial» (Heb 3, 14). Pouco antes, alertava-nos: «Tende cuidado, irmãos, que nenhum de vós tenha um coração mau e incrédulo, que o afaste do Deus vivo» (v. 12).

1.     Está a terminar o Ano da Fé. E, como vemos, é de fé que nos fala a Liturgia da Palavra nesta Eucaristia: «Levanta-te – disse Jesus ao samaritano curado da lepra – e segue o teu caminho. Foi a tua fé que te salvou» (Lc 17, 19). A fé em Jesus Cristo reconstrói a pessoa humana, renova todo o seu ser, enche de paz e esperança a sua vida. Quer Naamã, quer o leproso do Evangelho regressam à sua história não apenas curados de uma doença física, mas sobretudo com a capacidade de ler a acção de Deus na sua vida e, por isso, agradecidos pelos seus dons. E, quando a acção de graças destes homens se transformou em adoração, ficou patente a sua grandeza: com a humildade e a confiança que colocaram nos seus gestos, abriram o coração a Deus e à sua acção. De facto, a cura não foi pedida nem prometida; tudo aconteceu por causa da confiança que colocaram na palavra recebida.

No «hoje» da nossa vida, ameaçada por fragilidades e riscos vários, atravessada pela experiência básica de não podermos dominar o futuro, receosos de que a injustiça e a morte tenham a última palavra sobre a existência humana, só é possível esperar verdadeiramente na vitória sobre o mal e a morte, enfrentar a vida com coragem e determinação, se o rosto de Deus se deixar mostrar e nós o soubermos ver nesses sinais deixados por outros crentes, sinais que testemunham como vale a pena confiar no Deus de ontem, de hoje e de sempre; entregar o nosso coração Àquele que sustenta o nosso ser, viver e morrer. Entre essas figuras exemplares de crentes, sobressai Maria, a Virgem fiel.

2.     Toda a Igreja está hoje em comunhão com a Jornada Mariana que se realiza na Praça de São Pedro, no Vaticano, durante a qual os fiéis cristãos são chamados a «renovar, pessoalmente, a sua própria consagração ao Coração Imaculado da Mãe da Igreja e a viver este nobilíssimo acto de culto com uma vida cada vez mais conforme à vontade divina e em espírito de serviço filial e devota imitação da sua celeste Rainha» (Paulo VI, Exort. past. Signum magnum, 13/V/1967, parte II, nº 8). A sua vida de disponibilidade, fé e fidelidade é a escola onde cada um de nós aprende a ser melhor cristão e mais Igreja.

No âmago da Mensagem de Fátima, temos a conversão, que implica amor de Deus acima de todas as coisas, horror ao pecado mais que o amor à vida, fidelidade à Lei de Deus, que se resume e traduz na caridade. Porventura não foi esta a última recomendação que aqui nos fez a Mãe do Céu: «não ofendam mais a Deus Nosso Senhor, que já está muito ofendido»? «Tende cuidado, irmãos, que nenhum de vós tenha um coração mau e incrédulo, que o afaste do Deus vivo» (Heb 3, 12). A conversão a Deus é o princípio de toda a restauração da ordem humana. O Salvador do mundo, mesmo do mundo temporal, é só um: Jesus Cristo! Contra o fatalismo do mundo, Maria veio aqui lembrar que, na ordenação e governo de tudo o que acontece, há um Coração infinito. E, «desde que Deus passou a ter um coração humano e deste modo orientou a liberdade do homem para o bem, para Deus, a liberdade para o mal deixou de ter a última palavra. O que vale desde então, está expresso nesta frase: “No mundo tereis aflições, mas tende confiança! Eu venci o mundo” (Jo 16, 33)» (Card. Joseph Ratzinger, “Uma tentativa de interpretação do ‘segredo’ de Fátima”, Comentário teológico).

Entretanto – há noventa e seis anos – chegaram os dias em que Maria previu e veio anunciar tempos tristes para a humanidade. Aqui Ela Se manifesta bela como a aurora e forte como «um exército em ordem de batalha», pedindo que nos alistássemos nas suas fileiras para empreender o combate. Não Lhe bastou ser admirada, invocada, venerada; Nossa Senhora quis que os corações dos indivíduos, dos povos e do mundo inteiro fossem «consagrados» e colocados sob a sua guia. Queria gente «entregue», chamando todos a unirem o seu coração ao d'Ela em serviço fiel. Mas, obedecemos nós verdadeiramente ao apelo de Fátima e estamos dispostos a continuar a obedecer? Todo o nosso ser está com Maria, na certeza de que o amor tudo crê, tudo espera, tudo suporta? Na firme confiança de que o amor tudo abraça, tudo perdoa, tudo vence?

3.     «Não tenhais medo» é o tema deste ano pastoral, aqui no Santuário, integrado na caminhada para a celebração do centenário das Aparições, na qual se põe em destaque a promessa de Nossa Senhora: «O meu Coração Imaculado conduzir-vos-á até Deus». Estas palavras encerram certezas e apelos consoladores do Céu, dados em vários momentos aos Pastorinhos de Fátima, nomeadamente à Lúcia: «Não desanimes. Eu nunca te deixarei! O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá a Deus» (Aparição de Junho de 1917). Queridos peregrinos, repito hoje a todos: Não desanimemos, «mantenhamos firme até ao fim a confiança inicial» (Heb 3, 14)!

De que temos nós medo? O nosso coração sente-se muitas vezes turvado com todo o mal que há no mundo e com as nossas próprias fraquezas; o nosso coração sente-se turvado com as traições e negações de que ele mesmo é capaz. Parecemos seguros contra tudo, menos contra nós próprios. Temos medo de nós mesmos, porque não sabemos o que fazer com a vida e com os dons que Deus nos concede. Temos medo, porque não confiamos em Deus. Com a redenção, foi-nos oferecida «uma esperança fidedigna, graças à qual podemos enfrentar o nosso tempo presente: o presente, ainda que custoso, pode ser vivido e aceite, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros desta meta, se esta meta for tão grande que justifique a canseira do caminho» (Bento XVI, Encíclica Spe salvi, nº 1). A meta é nada mais nada menos que o próprio Deus. É de conhecimento geral o episódio dos Pastorinhos presos pelo governador de Ourém; momentos aterradores para três crianças, nomeadamente quando se vêem separadas umas das outras e ameaçadas que vão ser lançadas em azeite a ferver! Qual é a reacção delas? Recorrem à oração. E, quando perguntam ao Francisco o que estava a fazer, ele, com a graça de uma criança mas também com a ousadia de um homem de fé, respondeu: «Estou a rezar uma Ave-Maria, para que a Jacinta não tenha medo».

O Beato Francisco e nós sabemos que, a Deus, tudo é possível (cf. Lc 1, 37). Sem imaginar nem pretender o Mistério de Deus como uma realidade que funcione segundo os nossos interesses, medidas e critérios, sabemos que podemos e devemos confiar no amor poderoso de Deus, que, por caminhos que só Ele conhece, toca o coração das pessoas, está presente nos acontecimentos da história, é capaz de «escrever direito pelas linhas tortas» que os humanos traçaram e continuam a escrever. Por isso, «quando já ninguém me escuta, Deus ainda me ouve. Quando já não posso falar com ninguém, nem invocar mais ninguém, a Deus sempre posso falar. Se não há mais ninguém que me possa ajudar – por tratar-se de uma necessidade ou de uma expectativa que supera a capacidade humana de esperar – Ele pode ajudar-me. Se me encontro confinado numa extrema solidão... o orante jamais está totalmente só» (Bento XVI, Encíclica Spe salvi, n.º 32).

Virgem Mãe, sois bem-aventurada porque acreditastes no cumprimento de tudo quanto Vos foi dito da parte do Senhor (cf. Lc 1, 41)! Confio-Vos o que parece ser hoje a coisa mais importante no serviço da Igreja: o seu forte testemunho de fé diante da hodierna geração de homens e mulheres, tentada pela crescente secularização e indiferença religiosa que grassam por aí. Que este testemunho fale sempre a linguagem clara do Evangelho e assim encontre acesso aos corações, sobretudo da geração jovem! Atraia a juventude e entusiasme-a para uma vida conforme ao modelo do «homem novo», que temos no vosso Filho Jesus Cristo, e para os diversos serviços na vinha do Senhor. Amen.