Nova evangelização cultural e digital

Entrevista com o jornalista Vincenzo Grienti

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Por Antonio Gaspari

ROMA, segunda-feira, 12 de julho de 2010 (ZENIT.org) - Nos últimos 15 anos, a tecnologia telemática revolucionou o mundo da informação e da comunicação.

As mudanças introduzidas têm também influenciado a Igreja católica, que se mantém atenta às inovações no campo da comunicação social.

Para tratar da questão da relação da Igreja católica com estas tecnologias, em especial no que se refere à internet, ZENIT entrevistou o jornalista Vicenzo Grienti, especialista do departamento de comunicações da Conferência Episcopal italiana, autor do livro “Chiesa e internet. Messaggio evangelico e cultura digitale” (Academia Universa Press – Firenze, 2010). 

ZENIT: A Igreja está pronta para fazer uso das oportunidades que a cultura digital oferece, ou ainda há resistências?

Grienti: Como simples jornalista e observador do fenômeno, penso que ao longo da história das comunicações sociais, a Igreja esteve sempre aberta às solicitações oriundas das novas tecnologias: basta observar as últimas mensagens de Bento XVI relativas ao Dia Mundial das Comunicações Sociais e as iniciativas da Igreja italiana para compreender de que modo a comunidade eclesial se posiciona em relação aos meios de comunicação social. Com o Concílio Vaticano II, registra-se uma grande abertura da Igreja para os meios de comunicação. No que se refere ao tema específico da web, no meu entender são duas as pedras fundamentais, representadas pelos documentos do Conselho Pontifício das Comunicações Sociais de título “A Igreja e a internet” e “Ética e internet”, ambos de 2002. A estes se somam uma série de convenções, seminários e encontros; o mais importante, no âmbito da Igreja italiana, foi a recente convenção nacional de tema “Testemunhos digitais. Faces e linguagens na era do crossmedia”, promovido pela Conferência Episcopal Italiana em abril e encerrado com a presença de mais de 8 mil participantes presentes na audiência do Santo Padre. As palavras “testemunhos” e “digitais” são muito sugestivas: ser testemunha significa testemunhar a própria fé no contexto em que se vive. Um contexto de todo novo, de fato digital, inédito e caracterizado por novas linguagens, como a da web 2.0.

ZENIT: De que maneira a web, como instrumento, vem sendo e será utilizada?

Grienti: Hoje, na Itália, existem mais de 15 mil sites de conteúdo católico: muitos são páginas de dioceses e paróquias, outros são páginas pessoais ou blogs. Alguns fazem uso da web 2.0, como o Facebook, Twitter, YouTube e outras modalidades de redes sociais. Em meu livro, analiso estes fenômenos, e estou convencido de que a Igreja está aberta e confiante em relação a estes. É necessário compreender, porém, que estamos diante de instrumentos postos a serviço do homem. Os novos media são úteis para veicular a mensagem evangélica, a Palavra de Deus. Estes instrumentos constituem o “primeiro areópago dos tempos modernos” e, em razão da própria missão da Igreja, funcionais enquanto, conforme escreveu João Paulo II na encíclica Redemptoris missio de 1990, “não basta usá-los para difundir a mensagem cristã; é necessário integrar a própria mensagem a esta nova cultura criada pela moderna comunicação”.

Da mesma forma, as “Orientações” pastorais dos bispos italianos para o período 2000-2010 colocam o comunicar no centro da ação pastoral da Igreja, sinal de que a comunicação é um fator por demais importante para ser ignorado. Tudo isto tendo em vista que as relações “face a face” permanecem insubstituíveis e essenciais para a transmissão do Evangelho. O desafio para o futuro será não só o de educar estes novos meios, mas também desenvolver uma ação educativa através deles, especialmente no que diz respeito às novas gerações – os assim chamados “nativos digitais”, habituados a estas novas linguagens.

ZENIT: O ingresso na web de paróquias, dioceses e institutos missionários favorece a transparência e exige novas propostas missionárias? O que pensa a respeito?

Grienti: Concordo plenamente. A esse respeito, sem dúvida é de grande interesse e relevância a reflexão de Bento XVI por ocasião da Mensagem para o 43º Dia Mundial das Comunicações Sociais. No texto, de fato, o Papa exorta os jovens católicos a “levarem ao mundo digital o testemunho de sua fé”, pois compete a eles “a tarefa de evangelizar este ‘continente digital’”, ajudando as pessoas a passarem “do mundo virtual do cyberespaço para o mundo real da comunidade cristã”.

ZENIT: Quais são os limites do sistema telemático? Por exemplo, fala-se em realizar confissões pela internet; e há os riscos associados à mediação das relações humanas por máquinas – algo que, se não compensado, arrisca oferecer mais danos que benefícios.

Grienti: A internet oferece oportunidades e também riscos. Penso que os pilares fundamentais para uma “navegação” segura são três: o bom senso, a responsabilidade e a competência. A presença de sacerdotes na web, com sites pessoais, por exemplo, enriquece o anúncio que a Igreja faz do Evangelho. Mas no que se refere às confissões pela internet e, de modo geral, dos Sacramentos, acredito que estes encerrem um caráter pessoal, direto, real e não “mediado”. Neste caso, estamos na esfera da “encarnação do Verbo”, e, portanto, do aspecto concreto dos sacramentos: o Pão, o Vinho, a Água do Batismo, o gesto; tem um caráter imediato, não virtual da Salvação.

ZENIT: Para além das questões tecnológicas, qual projeto cultural a Igreja pretende oferecer para explicar as razões da própria fé?

Grienti: A internet e as novas tecnologias em geral estão modificando nossa maneira de viver, de nos informar, de nos comunicarmos. Não é por acaso que se fala em uma nova cultura permeada pelos novos meios. Também estas novas linguagens interpelam ao testemunho do crente. Para “navegar” no âmbito desta nova cultura digital, é necessário ser educado para estas linguagens, promover a consciência e oferecer critérios interpretativos. Não é por acaso que as Orientações pastorais da Igreja italiana para o próximo milênio foquem a questão da educação. Hoje, essa questão se tornou uma verdadeira emergência, e é neste sentido que se orienta a proposta cultural da Igreja italiana. Fazer cultura através da comunicação é a tarefa fundamental. Emile Durkheim sustentava que, se abandonados à própria sorte, os homens estariam destinados a se tornarem vítimas dos próprios desejos sem fim. Por isso, é preciso focalizar a atenção na educação, e se fazem necessários “professores” capazes de ensinar; é necessário um patrimônio de valores, uma tradição a cultivar, compreender a própria identidade, antes de se abrir às identidades distantes à nossa; mas, principalmente, é necessário dispor de um modelo de experiência humana. Parece-me que a “questão antropológica” e a “questão educativa” são dois elementos aos quais o Projeto cultural da Igreja italiana tem conferido grande importância, através de iniciativas e atividades promovidas nas diversos núcleos culturais de todas as dioceses.