O aborto e a ameaça à soberania nacional (Parte III)

Análise do professor Ivanaldo Santos, autor do livro "Aborto: discursos filosóficos"

São Paulo, (Zenit.org) Ivanaldo Santos | 1036 visitas

Situando o problema...

A primeira categoria é a ideologia liberal que prega um individualismo radical e muitas vezes antiético. Trata-se de um individualismo que afirma que a felicidade é um bem puramente individual e que, por isso, tudo pode ser feito e tudo é justificável. É dentro dessa linha de raciocínio que se fala, por exemplo, em legalização das drogas, da prostituição, da eutanásia e do aborto. No tocante ao aborto a ideologia liberal formula a seguinte proposição: por que um indivíduo tem que ter um filho se pode usar seu tempo e dinheiro para outros fins?

Foi baseado nessa ideologia que foram criadas, por milionários ou empresas privadas, fundações de incentivo, entre outras coisas, ao controle da natalidade e, por conseguinte, o incentivo ao aborto. Entre essas fundações é possível citar: Fundação Rockefeller, Fundação Ford, Fundação MacArthur, Fundação Carnegie, Fundação Bill & Mellinda Gates e a Federação Internacional de Planejamento Familiar, conhecida pela sigla IPPF. Vale salientar que a Federação Internacional de Planejamento Familiar (IPPF) devido a sua política agressiva de execução da prática do aborto, ficou conhecida como a multinacional da morte[1].

A segunda categoria são os governos das potenciais econômicas e militares do Ocidente, especialmente os EUA. Esses governos desejam impor o aborto e outras técnicas de controle da natalidade, como a esterilização de mulheres, aos países pobres e em desenvolvimento, como uma das possibilidades de manutenção de sua hegemonia política e econômica sobre esses países. Não se trata de teoria da conspiração, mas de um projeto bem documentado. Os limites de um estudo acadêmico não permitem que sejam apresentados todos os documentos que tratam dessa questão. Mais a título de ilustração será realizada a apresentação das posições do famoso Memorando 200[2]também conhecido como Relatório Kissinger, por ter sido produzido na gestão do secretário de Estado americano Henry Kissinger. Vale salientar que esse documento serviu e continua servindo de parâmetro para o governo dos EUA financiar políticas de controle da natalidade ao redor do mundo. 

Esse documento produzido pelo governo americano em 1974 defende que os EUA e outros países desenvolvidos do Ocidente (Inglaterra, França e outros) devem, de um lado, aprimorar as técnicas de controle da natalidade, também conhecidas como controle populacional, planejamento familiar, reengenharia populacional, política de planejamento populacional, controle demográfico, direito sexual e reprodutivo e outros nomes semelhantes. E, do outro lado, incentivar e até mesmo impor aos países pobres e em desenvolvimento essas técnicas. O objetivo dessa política agressiva de controla da natalidade é garantir a hegemonia política dos países centrais do capitalismo. Nas palavras do Memorando 200: "a assistência para o controle populacional deve ser empregada principalmente nos países em desenvolvimento de maior e mais rápido crescimento onde os EUA têm interesses políticos e estratégicos especiais. Estes países são: Índia, Bangladesh, Paquistão, Nigéria, México, Indonésia, Brasil, Filipinas, Tailândia, Egito, Turquia, Etiópia e Colômbia"[3]. Entre essas técnicas é altamente recomendado o aborto, pois, segundo o próprio documento, "certos fatos sobre o aborto precisam ser entendidos: nenhum país já reduziu o crescimento de sua população sem recorrer ao aborto"[4].

A América Latina aparece no Memorando 200 como sendo a região de maior preocupação dos EUA.  Nas palavras do documento: "Na América Latina. Prevê-se que haverá rápido crescimento populacional nos seguintes países tropicais: Brasil, Peru, Venezuela, Equador e Bolívia. É fácil ver que, com uma população atual [ano de 1974] de mais de 100 milhões, o Brasil domina demograficamente o continente; lá pelo fim deste século [o século XX], prevê-se que a população do Brasil chegará aos 212 milhões de pessoas, o mesmo nível populacional dos EUA em 1974. A perspectiva de um rápido crescimento econômico - se não for enfraquecida pelo excesso de crescimento demográfico - indica que o Brasil terá cada vez maior influência na América Latina nos próximos 25 anos"[5].

Continua...

[1] [1] SCALA, Jorge. IPPF (Federação Internacional de Planejamento Familiar). A multinacional da morte. 2 ed. Anápolis, Brasil: Múltipla, 2004.

[2] NATIONAL SECURITY STUDY MEMORANDUM 200: Implications of Worldwide Population Growth For U.S. Security and Overseas Interests. National Security Council of the United States: Washington, December 10, 1974.

[3] NATIONAL SECURITY STUDY MEMORANDUM 200: Implications of Worldwide Population Growth For U.S. Security and Overseas Interests, op. cit., p. 13-14; 30.

[4] NATIONAL SECURITY STUDY MEMORANDUM 200: Implications of Worldwide Population Growth For U.S. Security and Overseas Interests, op. cit., p. 182.

[5] NATIONAL SECURITY STUDY MEMORANDUM 200: Implications of Worldwide Population Growth For U.S. Security and Overseas Interests, op. cit., p. 22.

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Ivanaldo Santos é filósofo e professor do departamento de filosofia e da Pós-Graduação em Letras (PPGL) da UERN. Livros publicados: Nietzsche: discurso introdutória (Editora Ideia, 2007), Aborto: discursos filosóficos (Editora, Ideia, 2008). ivanaldosantos@yahoo.com.br.