O aborto e a ameaça à soberania nacional (Parte IV)

Análise do professor Ivanaldo Santos, autor do livro "Aborto: discursos filosóficos"

São Paulo, (Zenit.org) Ivanaldo Santos | 923 visitas

Situando o problema...

O Memorando 200 ainda dá sugestões de como a política imperialista dos EUA em controlar a população de outros países e, com isso, interferir na soberania nacional, deve ser disfarçada. De acordo com esse documento: "Os EUA podem ajudar a diminuir as acusações de motivação imperialista por trás do seu apoio aos programas populacionais declarando reiteradamente que tal apoio vem da preocupação que os EUA têm com: a) o direito de cada casal escolher com liberdade e responsabilidade o número e o espaçamento de seus filhos e o direito de eles terem informações, educações e meios para realizar isso; e b) o desenvolvimento social e econômico fundamental dos países pobres nos quais o rápido crescimento populacional é uma das causas e consequência da pobreza generalizada"[1]. E ainda por cima aponta a utilização das mulheres, como massa de manobra, para colocar em prática as políticas de controle da natalidade. Sobre esse assunto o documento afirma: "a condição e a utilização das mulheres nas sociedades dos países subdesenvolvidos são de extrema importância na redução do tamanho da família. Para as mulheres, o emprego fora do lar oferece uma alternativa para o casamento e maternidade precoces, e incentiva a mulher a ter menos filhos após o casamento. [...] As pesquisas mostram que a redução da fertilidade está relacionada com o trabalho da mulher fora do lar"[2].  

Como se pode ver pelo conteúdo do Memorando 200, uma espécie de Bíblia do controle da natalidade, os países centrais do capitalismo, especialmente os EUA, tem uma agressiva política de controle populacional. Essa política, de cunha neoimperialista, pressupõe a interferência na soberania dos países.

É preciso esclarecer que desde o final da década de 1970, quando o Memorando 200 já tinha sido publicado e suas políticas estavam sendo implementadas ao redor do mundo, que existe um pacto de cooperação e trabalho mútuo entre o governo dos EUA e as organizações que representam a ideologia liberal, especificamente as fundações que patrocinam o aborto e outras formas de controle populacional. Trata-se de um pacto que, de um lado, possibilita maior agilidade nas políticas e ações de controle populacional ao redor do mundo e, do outro lado, abre as portas para que essas fundações possam trabalhar em áreas estratégicas dos países (tribunais de justiça, congressos nacionais, conferências episcopais e outras) para impor o controle populacional e especialmente o aborto. Com isso, a soberania nacional é enfraquecida, pois quem decide o que a população nacional vai fazer ou experimentar não é a própria população, mas um conjunto de especialistas estrangeiros em controle populacional.

A terceira e última categoria é a esquerda internacional e especialmente o projeto de recriar o socialismo ou mais precisamente o neosocialismo ou socialismo do século XXI[3]. Nos últimos 20 anos os diversos movimentos e partidos políticos que compõem a esquerda internacional tem se esforçado para recriar o socialismo. E essa recriação deverá acontecer na América Latina. Esse continente é visto, pelas lideranças esquerdistas, como sendo o espaço de reconstrução do socialismo após o fracasso das experiências esquerdistas nos países do Leste Europeu, especialmente na Rússia. Isso fica bem claro na Declaração Final por ocasião da fundação do Foro de São Paulo (FSP)[4], em 1990, uma entidade que age dentro da América Latina e que tem por missão a implantação de governos esquerdistas-marxistas e neossocialistas nesse continente.  Na Declaração Final[5], por ocasião da conclusão do Primeiro Encontro do Foro de São Paulo, afirma-se que “avaliamos a crise da Europa Oriental [o Leste Europeu] e do modelo de transição ao socialismo ali imposto. Revisamos as estratégias revolucionárias da esquerda desta parte do planeta e dos objetivos que o quadro internacional coloca”[6]. Com isso, a meta do Foro de São Paulo passa a ser a criação do neossocialismo. Sendo que dessa vez na América Latina. Isso representa, na prática, outra agressão à soberania nacional, pois o objetivo do Foro de São Paulo não leva em conta as necessidades e a opinião dos governos e das populações latino-americanas.

Para a implantação do neossocialismo nos países latino-americanos o Foro de São Paulo conta com ampla rede de entidades e organizações, como, por exemplo, partidos políticos de esquerda, sindicatos e Organizações Não Governamentais (ONGs). Além disso, o Foro de São Paulo fez um pacto estratégico com grupos feministas e pró-aborto com o intuito, de um lado, esses grupos apoiarem a causa ideológica do neossocialismo e, de outro lado, as organizações e partidos políticos de esquerda do continente apoiarem e incentivarem o aborto. Isso ficou bem claro durante o XIII Encontro do Foro de São Paulo, realizado em 2007, quando a declaração emitida pelas mulheres que participaram do encontro faz referência direta a “responsabilidade reprodutiva” e aos “direitos sexuais e reprodutivos”. É preciso esclarecer que essas duas expressões são códigos e neologismo para identificar o aborto e outras técnicas de controle da natalidade. Além disso, a declaração final[7] do encontro faz referência direta ao fato da Rede de Mulheres Latino-Americanas e Caribenhas, um das redes que dão sustentação ao Foro de São Paulo, que, entre outros itens, deseja lutar pela implantação, a nível latino-americano, da saúde sexual e reprodutiva das mulheres, ou seja, deseja implantar o aborto em todo o continente.

A política de criação e implantação do neossocialismo na América Latina é mais um capítulo tanto da perca de autonomia das nações como da implantação do aborto. Sem contar que, no continente latino-americano, o Foro de São Paulo (FSP) mantem um pacto estratégico com a ideologia liberal, especialmente com as fundações multimilionárias que financiam o aborto em escala planetária.  Apesar das duas vertentes terem ideologias diferentes, o FSP é socialista-marxista e as fundações são liberais-capitalista, ambos tem em comum o projeto de interferir na soberania das nações e, com isso, imporem suas visões sobre a sociedade e o ser humano.

Continua...

[1] NATIONAL SECURITY STUDY MEMORANDUM 200: Implications of Worldwide Population Growth For U.S. Security and Overseas Interests, op. cit., p. 155.

[2] NATIONAL SECURITY STUDY MEMORANDUM 200: Implications of Worldwide Population Growth For U.S. Security and Overseas Interests, op. cit., p. 151.

[3] BORON, Atílio. O socialismo do século XXI: notas para discussão. In: CEB, Centro de Estudos Bíblicos, Domingo, 7 de setembro de 2008.

[4] Não existe ainda um estudo aprofundado sobre os perigos representados pelos planos estratégicos do Foro de São Paulo (FSP). Esses perigos abarcam alvos como, por exemplo, a soberania das nações latino-americanas, a vida da Igreja e a liberdade dos cristãos. O Foro de São Paulo é uma das entidades mais organizadas e com ampla penetração no tecido social da América Latina. Ele está presente em pelo menos 22 países do continente e conta com mais de 69 organizações filiadas. Entre essas organizações consta até mesmo o grupo narco-terrorista da Colômbia, Forças Armadas Revolucionárias da Colômbias (FARC). Apresentamos uma pequena lista de países e suas respectivas organizações que compõem o Foro de São Paulo. Na Argentina: Frente Grande, Frente Transversal Nacional e Popular, Movimento Libres del Sur, Partido Comunista, Congreso Extraordinario del Partido Comunista, Partido Comunista Revolucionario, Partido Humanista, Partido Intransigente, Partido Obrero Revolucionario-Posadista, Partido Socialista, Partido Solidario, Unión de Militantes por el Socialismo. Na Bolívia: Moviemnto al Socialismo, Movimiento Bolivia Libre, Partido Comunista de Bolívia. No Brasil: Partido Democrático Trabalhista (PDT), Partido Comunista do Brasil (PCdo B), Partido Comunista Brasileiro (PCB), Partido Socialista Brasileiro (PSB), Partido dos Trabalhadores (PT). No Chile: Izquierda Critiana, Partido Comunista, Partido Humanista, Partido Socialista. Na Colômbia: Polo Democrático Alternativo, Presentes por el Socialismo, Partido Comunista Colombiano, Forças Armadas Revolucionárias da Colômbias (FARC). Em Cuba: Cuba, Partido Comunista de Cuba (PCC). No Equador: Equador, Movimento de Unidad Plurinacional Pachakutik – Nuevo Pais, Movimento PAIS, Movimento Popular Democrático, Partido Comunista de Ecuador, Partido Comunista Marxista-Leninista del Ecuador, Partido Socialista – Frente Amplio. Em El Salvador: Frente Farabundo Martin para la Liberación Nacional. Na Guatemala: Alianza Nueva Nación, Unidad Revolicionaria Nacional Guatemalteca. Na Martinica: Pati Kominis pou Lendépandans eh Sosyalizm, Conseil National des Comitês Populaires. No México: Partido de los Comunistas Mexicanos, Partido Comunista de México, Partido de la Revolución Democrática, Partido del Trabajo. Na Nicarágua: Frente Sandinista de Liberação Nacional. No Panamá: Partido del Pueblo de Panamá. No Paraguai: Partido Popular Tekojoja, Partido Convergencia Popular Socialista, Partido Comunista Paraguayo, Partido del Movimento al Socialismo, Partido País Solidario. No Peru: Partido Comunista del Perú – Patria Roja, Partido Comunista Peruano, Partido Nacionalista del Perú, Partido Socialista. Em Porto Rico: Frente Socialista, Movimiento Independentista Nacional Hostosiano, Partido Nacionalista del Puerto Rico. Na República Dominicana: Alianza por la Democracia, Fuerza de la Revolución, Movimiento Izquierda Unida, Partido Comunista del Trabajo, Partido de la Liberación Dominicana, Partido de los Trabajadores Dominicanos, Partigo Revolucionario Dominicano. No Uruguai: Frente Amplio, Asamblea Uruguay, Corriente de Unidad Frenteamplista, Movimento de Participación Popular, Movimento de Liberación Nacional Tupamaros, Partido Comunista de Uruguay, Partido Obrero Revolucionario Troskista-Posadista, Partido por la Victoria del Pueblo, Partido Socialista de los Trabajadores, Partido Socialista de Uruguay, Vertiente Antiguista, Movimento 26 de Marzo. Na Venezuela: Liga Socialista, Movimento Electoral del Pueblo, Movimento Bolivariano, Partido Comunista da Venezuela, Partido Socialsita Unido de Venezuela, Patria Para Todos.

[5] O conjunto de todas as Atas e demais declarações oficiais do Foro de São Paulo (FSP) foi disponibilizado gratuitamente pelo jornal virtual Mídia Sem Mascara (http://www.midiasemmascara.org/) por meio do endereço: http://www.midiasemmascara.org/attachments/007_atas_foro_sao_paulo.pdf.

[6] FORO DE SÃO PAULO. Declaração Final. São Paulo, Brasil, 1990. 

[7] XIII ENCUENTRO DEL FORO DE SÃO PAULO. Resoluciones de las Mujeres Participantes del Primer  Foro Preparatorio en el Marco del XIII Encuentro del Foro de São Paulo. San Salvador, Nicarágua, 11 de enero de 2007. 

Para ler a terceira parte clique aqui

Ivanaldo Santos é filósofo e professor do departamento de filosofia e da Pós-Graduação em Letras (PPGL) da UERN. Livros publicados: Nietzsche: discurso introdutória (Editora Ideia, 2007), Aborto: discursos filosóficos (Editora, Ideia, 2008). ivanaldosantos@yahoo.com.br.