O aborto e a ameaça à soberania nacional (última parte)

Análise do professor Ivanaldo Santos, autor do livro "Aborto: discursos filosóficos"

Brasília, (Zenit.org) Ivanaldo Santos | 757 visitas

O que fazer?

O quadro que foi apresentado anteriormente, de forma resumida, demonstra que a soberania dos países latino-americanos e de outras regiões do planeta está em perigo. Ela é sumariamente ignorada pelos grupos de pressão pró-aborto que, se utilizando de amplo capital em dinheiro e de grande estrutura internacional, desejam a qualquer custo implantar, incentivar e promover o aborto no continente latino. Essa promoção fere tanto os valores democráticos como a soberania das nações.  

No entanto, como salienta Gonzalo Miranda[1], não se deve desanimar diante dos obstáculos, por maiores que sejam as dificuldades deve-se sempre vê-las com otimismo. O motivo é que desde sua fundação, há mais de 2.000 anos, a Igreja sempre foi perseguida e, ao mesmo tempo, sempre esteve ao lado dos mais fracos e oprimidos. Apesar disso ela sempre conseguiu vencer as dificuldades, as perseguições e as barreiras sociais.

Além disso, é preciso perceber que “atualmente quase não há uma única voz que se levanta para defender os valores religiosos e culturais dos povos do mundo. A ONU está calada, líderes democráticos e até mesmo da esquerda internacional nada dizem. A grande exceção é a Igreja Católica e o Papa. O pontífice tem feito reiterados pronunciamentos alertando para o perigo da morte da democracia e, por conseguinte, de ser imposta uma agenda, para as nações, que fere gravemente seus valores religiosos e culturais[2]”. O aborto emerge como centro dessa agenda e, por conseguinte, a Igreja como sendo a grande oposição.

Diante de tudo que foi exposto apresenta-se 9 estratégias para combater a política de imposição do aborto e, ao mesmo tempo, fortalecer a democracia e a soberania das nações. 

1) Melhorar a formação dos noviços, seminaristas e outras categorias de estudantes clericais católicos. Por incrível que pareça muitos seminaristas se formam e são ordenados padres e não conhecem a doutrina da Igreja sobre a vida e a dignidade da pessoa humana. O combate à cultura da morte e ao aborto passa obrigatoriamente por uma formação mais aprofundada para os candidatos a vida religiosa.

2) Melhorar a pastoral desenvolvida por bispos, padres, religiosos e líderes leigos católicos. A Igreja tem uma grande inserção social, mas, às vezes, a formação visando a promoção da dignidade humana deixa a desejar. É preciso investir em uma pastoral pró-vida e pró-família que apresente claramente, sem rodeios, a doutrina da Igreja e o Evangelho.

3)Investir na formação dos leigos. Essa tem que ser uma das metas da Igreja na América Latina. Se muitas vezes o discurso pró-aborto ganha algum espaço na sociedade, isso se dá, em parte, pela má formação que os leigos católicos possuem. A formação laical tem que ser uma meta concreta da Igreja na América Latina.  

4) Utilizar a estrutura da Igreja para promover o valor da vida e a dignidade da pessoa humana. É preciso ver que a Igreja tem uma das melhores estruturas do continente latino-americano. A Igreja possui hospitais, universidades, escolas, centros sociais, espaços culturais, museus, teatros e outros locais de convivência social. É preciso utilizar essa gigantesca estrutura em prol da valorização da vida, do combate ao aborto e outros males oriundos da cultura da morte. 

5) Maior presença na mídia. Se há um erro que a Igreja na América Latina tem insistido em cometer é ignorar a necessidade e a importância dos meios de comunicação. A Igreja precisa utilizar os meios de comunicação, de forma ética, para anunciar o Evangelho e, por conseguinte, desmascarar toda a corrupção que existe por trás do aborto. Sobre o valor do Evangelho, incluindo seu anuncio por meio da mídia, Salvino Leone enfatiza que o “Evangelho afirma com absoluta evidência não apenas o direito à vida, mas também a sua prioridade em relação aos outros direitos. Tudo isso foi formulado no conceito de sacralidade da vida. Tal conceito tornou-se uma verdadeira matriz de pensamento, dualisticamente oposta àquela de qualidade de vida. Os dois critérios fundamentais sobre os quais se baseia a ética da sacralidade da vida são: atribuição de igual valor a todas as vidas humanas (independentemente das suas caracterizações qualitativas) e a consideração da vida como o mais alto dos valores humanos”[3].

6) É preciso haver padres especializados na defesa da vida e da família. As dioceses e demais circuncisões eclesiásticas católicas precisam formar e ter em seus quadros padres que se dediquem inteiramente ao trabalho em prol da defesa da vida e da família. Se isso acontecer, apenas esse simples gesto já será suficiente para melhorar muito a consciência pró-vida do povo latino-americano. É preciso ter consciência que por mais que a Igreja Católica seja atualmente demonizada, ridicularizada pela grande mídia, ela continua sendo a instituição de maior credibilidade em todo o continente. Os milhões e milhões de dólares gastos pelo lobby pró-aborto para denegrir a imagem da Igreja diante da opinião pública, não foram suficientes para desmoralizá-la. Por isso, a presença, em cada diocese, de um padre que defenda a vida, trará grandes frutos de consciência pró-vida e rejeição ao aborto e a cultura da morte.

7) Investir na publicação de livros, panfletos, cartilhas e outras formas de literatura pró-vida e pró-família. Por incrível que pareça grande parte da literatura que circula na sociedade é pró-aborto. É preciso reverter esse quadro. É preciso que as editoras e demais casas de publicação católicas invistam na formação do grande público por meio de ampla literatura pró-vida e em prol da dignidade da pessoa humana.

8) Maior presença na internet e nas redes sociais virtuais. Esses são espaços de novas sociabilidades e da nova evangelização. A Igreja precisa estar atenta a esses novos espaços. Ela deve saber utilizá-los com sabedoria para propagar a verdade do Evangelho e a doutrina do valor intransferível da vida humana.

9) Formar e orientar os políticos e congressistas. Grande parte dos congressistas votam ou patrocinam propostas pró-aborto por puro desconhecimento da gravidade e dos males que existem por trás do aborto. É bom recordar que um dos eixos de atuação do lobby pró-aborto é investir muito dinheiro na sedução e controle da classe política. A Igreja deve lutar para reverter esse grave quadro. Isso só será possível se ela investir na formação e orientação dos novos e velhos membros da classe política. A política, por conseguinte, deve ser uma das preocupações da Igreja. 

É preciso que a Igreja ajude ao cidadão e a sociedade latino-americana a reconhecerem que o “direito à vida, a existir, é a primeira e mais imediata expressão da dignidade humana. E ao mesmo tempo o primeiro e mais fundamental de todos os direitos humanos, o direito básico e fundante. Sem ele, desaparecem também os outros porque é, logicamente, o pressuposto indispensável”[4]. Por causa disso a “centralidade da pessoa humana requer que a sociedade meça o progresso econômico, sobretudo pela capacidade de promover a pessoa humana. Isso requer que a ética não seja separada das tomadas de decisões econômicas, mas sim que seja reconhecida”[5]. A consequência desse reconhecimento é um processo mais aprofundado de valorização da vida, da dignidade da pessoa humana e a negação do aborto e da cultura da morte. Essa negação é a base da valorização da democracia e da soberania nacional.

Por fim, afirma-se que a luta em prol da legalização do aborto no continente latino-americano ainda vai durar décadas e talvez atravesse todo o século XXI. Por isso a Igreja precisa redobrar suas forças e seu empenho pastoral na luta pela valorização de todas as formas de manifestação da vida humana, principalmente a vida mais frágil, mais carente, ou seja, o bebê ainda no ventre da mãe. Justamente uma forma de vida que é alvo de grande discriminação e exclusão por parte de governos, líderes políticos, empresários e fundações multimilionárias. Por isso é preciso ter consciência que a defesa da vida e da dignidade da pessoa humana é urgente e necessária. Não pode ficar para amanhã. A Igreja e todos os cidadãos latino-americanos não podem deixar de promover e proteger a vida humana e a soberania das nações e, por causa disso, combaterem o aborto.            

Para ler a oitava parte clique aqui

Ivanaldo Santos é filósofo e professor do departamento de filosofia e da Pós-Graduação em Letras (PPGL) da UERN. Livros publicados: Nietzsche: discurso introdutória (Editora Ideia, 2007), Aborto: discursos filosóficos (Editora, Ideia, 2008). ivanaldosantos@yahoo.com.br.

[1] MIRANDA, Gonzalo. Em problema pastoral de la aplicación de la Humanae Vitae em América Latina. In: Ecclesia, Revista de Cultura Católica, v. VIII, n. 2, abril-junho 1994, p. 161.

[2] SANTOS, Ivanaldo. O cristianismo e a morte da democracia. In: In Guardia, Ano I, abril 2012, n. 5, p. 19.   

[3] LEONE, Salvino. Mi hai fatto come un prodígio. Bologna: EDB, 2005,p. 153-154.

[4] Sgreccia, Elio. La bioética como práxis. Buenos Aires: Editorial de la Universidad Católica Argentina, 2004, p. 34

[5] SCHERER, Cardeal Dom Odilo. Agricultura & Sociedades Sustentáveis: Segurança Alimentar, Terra e Solidariedade, op. cit., p. 2.