O agir de Deus não se limita às palavras

Catequese de Bento XVI sobre a Encarnação realizada durante a Audiência Geral de quarta-feira

Cidade do Vaticano, (Zenit.org) | 2412 visitas

Queridos irmãos e irmãs,

Neste tempo natalício nos concentramos mais uma vez no grande mistério de Deus que desceu do seu Céu para entrar na nossa carne. Em Jesus, Deus encarnou-se, e tornou-se homem como nós, e assim nos abriu a estrada para o seu Céu, para a comunhão plena com Ele.

Nestes dias, em nossas Igrejasouviu-se muitas vezes o termo “Encarnação” de Deus, para exprimir a realidade que celebramos no Santo Natal: o Filho de Dus se fez homem, assim como recitamos no Credo. Mas o que significa esta palavra central para falar da fé cristã? Encarnação deriva do latim “incarnatio”. Santo Inácio de Antioquia – desde o primeiro século – e, sobretudo, santo Irineu usaram este termo refletindo sobre o Prólogo do Evangelho de são João, em particular sobre a expressão: “O Verbo se fez carne” (Jo 1, 14). Aqui a palavra “carne”, segundo o uso hebraico, indica o homem na sua integridade, todo o homem, mas propriamente sobre o aspecto da sua transitoriedade e temporalidade, da sua pobreza e contingência. Isto para dizer que a salvação trazida por Deus fazendo-se carne em Jesus de Nazaré toca ao homem na sua realidade concreta e em qualquer situação em que se encontra. Deus assumiu a condição humana para curá-la de tudo o que a separa Dele, para permirtir-nos chamá-lo,em seu Filho Unigênito, como o nome de “Abbá, Pai” e sermos verdadeiramente filhos de Deus. Santo Irineu afirma: “Este é o motivo pelo qual o Verbo se fez homem, e o Filho de Deus, Filho do homem: para que o homem, entrando em comunhão com o Verbo e recebendo assim a filiação divina, se transformasse filho de Deus” (Adversus haereses, 3,19,1: PG 7,939; cfr Catecismo da Igreja Católica, 460).

“O Verbo se fez carne” é uma daquelas verdades com a qual estamos tão acostumados que quase não nos afeta mais a grandeza do evento que essa exprime. E efetivamente neste período natalício, no qual tal expressão retorna sempre na liturgia, muitas vezes, se fica mais atento aos aspectos exteriores, às “cores” da festa, que ao coração da grande novidade cristã que celebramos: algo absolutamente impensável, que apenas Deus poderia operar e no qual podemos entrar somente com a fé. O Logos, que está em Deus, o Logos que é Deus, o Criador do mundo, (cf Jo 1,1), pelo qual todas as coisas foram criadas (cf 1,3), que acompanhou e acompanha os homens na história com a sua luz (cf 1, 4-5; 1-9), se faz um entre nós, faz morada em meio a nós, se faz um de nós (cf 1,14). O Concilio Ecumênico Vaticano II afirma: “O Filho de Deus ... trabalhou com mãos de homem, pensou com mente de homem, agiu com vontade de homem, amou com coração de homem. Nascendo da Virgem Maria, Ele se fez verdadeiramente um de nós, em tudo similar a nós exceto no pecado (Cost. Gaudium Et spes, 22). É importante portanto recuperar o estupor diante deste mistério, deixar-nos envolver pela grandeza deste evento: Deus, o verdadeiro Deus, Criador de tudo, percorreu como homem nossas estradas, entrando  no tempo do homem, para comunicar-nos a sua própria vida (cf 1 Jo 1, 1-4). E o fez não com o esplendor de um soberano, que submete o mundo com o seu poder, mas com humildade de uma criança.

Gostaria de destacar um segundo elemento. No Santo Natal normalmente se troca presente com as pessoas mais próximas. Às vezes pode ser um gesto feito por convenção, mas geralmente exprime afeto, é sinal de amor e de estima. Na oração sobre as ofertas da Missa da aurora da Solenidade de Natal a Igreja reza “Acolhei, ó Pai, a nossa oferta nesta noite de luz, e por essa misteriosa troca de dons transforma-nos no Cristo teu Filho, que elevou o homem ao seu lado na glória”. O pensamento da doação está ao centro da liturgia e traz à nossa consciência o original presente de Natal: naquela noite santa, Deus fazendo-se carne, quis fazer-se presente para os homens, doou a si mesmo por nós; Deus fez de seu Filho único um presente para nós, assumiu a nossa humanidade para doar-nos a sua divindade. Este é o grande presente. Também quando presenteamos o importante não é que seja algo mais ou menos caro; mas quem não doa um pouco de si mesmo, doa sempre muito pouco; aliás, muitas vezes busca-se substituir o coração e o compromisso de doação de si pelo dinheiro, com coisas materiais. O mistério da Encarnação está a indicar que Deus não fez assim: não doou alguma coisa, mas doou a si mesmo no seu Filho Unigênito. Encontramos aqui o modelo do nosso doar, para que as nossas relações, especialmente aquelas mais importantes, sejam guiadas pela gratuidade do amor.

Gostaria de oferecer uma terceira reflexão: o fato da Encarnação, de Deus que se fez homem como nós, nos mostra o realismo sem precedentes do amor divino. O agir de Deus, de fato, não se limita às palavras, podemos dizer que Ele não se contenta em falar, mas se imerge na nossa história e assume para si o cansaço e o peso da vida humana. O Filho de Deus se fez verdadeiramente homem, nasceu da Virgem Maria, em um tempo e em um lugar determinado, em Belém durante o reinado do imperador Augusto, sob o governador Quirino (cf Lc 2, 1-2); cresceu em uma família, teve amigos, formou um grupo de discípulos, instruiu os Apóstolos para continuarem a sua missão, terminou o percurso de sua vida terrena na cruz. Este modo de agir de Deus é um forte estimulo para nos interrogarmos sobre o realismo da nossa fé, que não deve ser limitado à esfera do sentimento, das emoções, mas deve entrar no concreto da nossa existência, deve tocar a nossa vida de cada dia e orientá-la também no modo prático. Deus não parou nas palavras, mas nos indicou como viver, partilhando da nossa mesma experiência, exceto no pecado. O Catecismo de são Pio X, que alguns de nós estudamos quando jovens, com a sua essencialidade, pergunta: “Para viver segundo Deus, o que devemos fazer?”,oferece a seguinte resposta: “ Para viver segundo Deus devemos acreditar nas verdades reveladas por Ele e observar os seus mandamentos com a ajuda da sua graça, que é obtida mediante os sacramentos e a oração”. A fé tem um aspecto fundamental que interessa não apenas à mente e ao coração, mas à toda a nossa vida.

Proponho um último elemento para vossa reflexão. São João afirma que o Verbo, o Logos era desde o princípio em Deus, e que tudo foi feito por meio do Verbo e nada do que existe foi feito sem Ele (cf Jo 1, 1-3). O Evangelista alude claramente à narração da criação no primeiro capitulo do Livro de Gênesis, e o lê novamente à luz de Cristo. Este é um critério fundamental na leitura cristã da Bíblia: o Antigo e o Novo Testamento devem ser lidos sempre em conjunto e a partir do Novo é revelado o sentido mais profundo também do Antigo. Aquele mesmo Verbo, que existe desde sempre com Deus, que é Deus Ele mesmo e por meio do qual e em vista do qual tudo foi criado (cf Col 1, 16-17), fez-se homem: o Deus eterno e infinito se imergiu na finitude humana, na sua criatura, para reconduzir o homem e a inteira criação a Ele. O Catecismo da Igreja Católica afirma: “A primeira criação encontra o seu sentido e o seu ponto culminante na nova criação em Cristo, cujo esplendor ultrapassa o da primeira” (n.349). Os Padres da Igreja aproximam Jesus a Adão, de modo a defini-lo “segundo Adão” ou Adão definitivo, a imagem perfeita de Deus. Com a Encarnação do Filho de Deus surge uma nova criação, que dá a resposta completa à pergunta “ Quem é o homem?”. Somente em Jesus se manifesta plenamente o projeto de Deus sobre o ser humano: Ele é o homem definitivo segundo Deus. O Concílio Vaticano II  o reitera com força: “Na realidade, somente no mistério do Verbo encarnado encontra verdadeira luz o mistério do homem ... Cristo, novo Adão, manifesta plenamente o homem ao homem e revela a eles a sua vocação” (cost. Gaudium et spes, 22; cf Catecismo da Igreja Católica, 359). Naquele menino, o Filho de Deus contemplado no Natal, podemos reconhecer a verdadeira face, não somente de Deus, mas a verdadeira face do ser humano; e somente abrindo-nos à ação da sua graça e procurando cada dia segui-Lo nós realizaremos o projeto de Deus para nós, para cada um de nós.

Queridos amigos, neste período meditemos a grande e maravilhosa riqueza do Mistério da Encarnação, para deixar que o Senhor nos ilumine e nos transforme sempre mais à imagem de seu Filho feito homem por nós.

Ao final Bento XVI dirigiu a seguinte saudação em português:

Uma cordial saudação a todos os peregrinos de língua portuguesa, a quem agradeço a presença e desejo a riqueza imensa e inesgotável que é Cristo, o Deus feito homem. Revesti-vos de Cristo! E, com Ele, o vosso Ano Novo não poderá deixar de ser feliz. Sobre vós e vossas famílias, desça a minha Bênção.

(Trad.MEM)