O amor de um Deus que age concretamente na existência humana

Prosseguem as meditações do cardeal Gianfranco Ravasi nos exercícios espirituais do papa

Roma, (Zenit.org) Salvatore Cernuzio | 1258 visitas

O cardeal Gianfranco Ravasi vem conduzindo uma "peregrinação" em busca da face de Deus em suas meditações durante os exercícios espirituais de quaresma, com a presença do papa e da cúria romana.

Nesta segunda-feira, as reflexões abordaram a revelação divina através da Palavra, da criação e da liturgia, que permite o encontro entre Deus e o homem na encruzilhada entre a dimensão vertical e a horizontal. "Se olharmos bem para a nossa liturgia, vemos um olhar constantemente fixo no alto, na transcendência de Deus e de Cristo, na sua Palavra, mas também nos irmãos".

É na liturgia que o Pai Eterno se torna presente para o homem, como uma “tenda do encontro” e como “santuário sagrado”. Mas Deus também se revela na história, disse o cardeal na quinta meditação. Não é só no espaço que o Criador encontra a criatura: também o tempo é "lugar" privilegiado da teofania.

É o que proclamam os Salmos, nas passagens que tratam de um Deus que age concretamente na história de um povo, o povo de Israel, libertado da escravidão no Egito pela mão divina. Uma história que o cardeal chama de “credo histórico de Israel” e que contém uma verdade evidente: a fé está ligada aos fatos.

"A história é e deve ser sempre o nosso lugar dileto de encontro com nosso Senhor, nosso Deus. Mesmo que seja um lugar de escândalos, uma terra em que muitas vezes deparamos com o silêncio de Deus e com a apostasia dos homens", disse Ravasi.

A ação de Deus se revela na sequência dos eventos, sejam os marcados pela alegria, sejam os perpassados de sofrimento, conforme nos demonstra o “evento por excelência”: a encarnação. É preciso recordar também que a história humana não é só uma trama sem sentido, mas um desígnio feito pelo próprio Deus, de acordo com um plano ditado pela esperança, a "irmã caçula" da fé e da caridade.

"A esperança nos dá a certeza de não estarmos à mercê de um destino imponderável. Nosso Deus se define, em Êxodo, 3, com o pronome da primeira pessoa, Eu, e com o verbo fundamental: Eu sou. Ele é Pessoa que age, que vive no interior dos eventos. A nossa relação com Deus, portanto, é uma relação de confiança, de diálogo e de contato".

Deus é um pastor, um guia e companheiro de viagem amoroso, que protege o seu povo-rebanho de todo pesadelo natural e histórico. "Celebramos a fidelidade de Deus apesar da infidelidade humana", disse o cardeal. A proximidade amorosa de Deus no sofrimento do deserto, assim como o êxodo, a libertação da escravidão e a criação em si, são todos gestos que mostram o cuidado que Deus tem pela humanidade.

Eles culminam no sinal mais profundo do amor divino: Jesus Cristo, o Messias, que é "justo, sacerdote e filho de Deus". Estas três características foram o foco da sexta meditação. À luz dos Salmos 72, 110 e 2, elas revelam alguns aspectos da figura messiânica.

Se os profetas "apontavam o dedo contra os abusos de poder e contra a resignação às injustiças", disse Ravasi, “o Messias vem ensinar um tipo diferente de justiça: ser o último dos últimos, o defensor dos indefesos, o pobre entre os pobres”.

"Paulo deu a melhor definição dessa justiça, situada no nível das vítimas da injustiça. No famoso hino de Filipenses, 2, ele diz: Mesmo na condição de Deus, ele não considerou um privilégio ser como Deus, mas esvaziou-se de si mesmo, tomando a forma de servo e se tornando semelhante aos homens".

O Messias faz brilhar a justiça para os últimos. Ele é o pai dos pobres e o defensor das viúvas (Salmo 68). É Ele que, “sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para vos tornardes ricos com a sua pobreza” (2Cor 8,9). O sacerdócio de Cristo é um sacerdócio "de graça", que atinge o seu cume na ressurreição, ato de amor com que o Filho de Deus revela plenamente a sua divindade. É preciso "contemplar a figura de Cristo, o Messias que tem em si todo o sopro do Antigo Testamento e o leva à plenitude".

Finalmente, na última reflexão de ontem, o cardeal voltou ao tema da teofania, que, depois da palavra, do espaço, da liturgia e do tempo, se manifesta na criatura. Recordando a passagem do Gênesis que diz que “Deus criou o homem à sua imagem”, Ravasi perguntou: "O que é a imagem de Deus?". "Homem e mulher os criou", observou ainda. Isto leva a outra pergunta: "A imagem de Deus que está em nós seria talvez a bipolaridade sexual? Deus é sexuado?".

O significado é bastante simples, considera o cardeal: "Quando um homem e uma mulher se amam e geram, eles continuam a criação. Eles são a imagem do Criador". E, como o Criador, geram a criatura, o embrião no ventre materno, um pequeno ponto de partida de uma vida sobre a qual já se projeta a grandeza do olhar divino.

"Deus vê, naquela mínima criatura, toda a sua história, toda a sequência dos seus dias que virão; ele já vê os esplendores e misérias daquela criatura". Desde "esse início absoluto", a criatura humana está "sempre sob o olhar de Deus, que se estende ao longo de todo o itinerário da sua existência".

Ela é "um lugar onde interceptamos a presença de Deus". Para nós, cristãos, ela tende a se tornar "objeto de atenção contínua, de paixão, de amor", até porque o homem “tem um mandado divino a preservar, um trabalho a fazer nesta terra: representar o seu Supremo Soberano”.