O ano da fé

Catequese de Dom Osvino, Arcebispo do Ordinariado Militar do Brasil.

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BRASILIA, segunda-feira, 20 de agosto de 2012 (ZENIT.org) - Vamos iniciar a nossa conversa ouvindo o saudoso Papa, hoje Beato, João Paulo II: “Tem-se instalado em muitos um sentimento religioso vago e pouco comprometido com a vida... levam uma vida como se Deus não existisse” (23.11.95 no Congresso Nacional da Igreja Italiana).

Vamos ouvir também nosso Papa atual Bento XVI que, em maio de 2010, em Lisboa, comentou: “Sucede não poucas vezes que os cristãos sintam maior preocupação com as conseqüências sociais, culturais e políticas da fé do que com a própria fé, considerando-se como um pressuposto óbvio da vida diária. Ora, tal pressuposto não só deixou de existir, mas, frequentemente, acaba até negado. Enquanto, no passado, era possível reconhecer um tecido cultural unitário, amplamente compartilhado no seu apelo aos conteúdos da fé e aos valores por ela inspirados, hoje parece que já não é assim em grandes setores da sociedade devido a uma profunda crise de fé que atingiu muitas pessoas”.

No início deste ano, o Papa disse que “em grandes regiões do mundo a fé corre o risco de se apagar como uma chama que já não encontra alimento. Estamos enfrentando uma profunda crise de fé, uma perda do sentido religioso, que é o maior desafio para a Igreja hoje”.

Constata-se uma lassidão, um afrouxamento na fé, um cansaço da fé...

À luz disto Bento XVI anuncia o Ano da fé (de 11/10/2012 a 30/11/2013) com o objetivo de tirar o cansaço da fé e tornar Deus presente neste mundo.

A fé é o elemento central no cristianismo. O que é ter fé num mundo que não pergunta mais sobre a verdade das coisas, mas pergunta sobre a utilidade das coisas. Este mundo sem Deus quer viver dos fatos concretos, visíveis, da competência e da eficiência pessoal... eu resolvo, eu decido....

A pessoa de fé, no entanto, confia naquilo que não é feito por ela, que não é visível, confia naquilo que é dado por um Outro. A fé dá um sentido profundo à existência e este sentido não pode ser construído ou comprado pelo homem, mas é recebido (dom). Na fé eu recebo o que não pensei e, por isso, tenho a necessidade de ouvir, ouvir o que Deus revela, ouvir a Palavra de Deus. “Escuta, Israel, o Senhor é o teu Deus, Ele é o único Deus” (canto litúrgico).

A fé é iniciativa de Deus. É Ele quem, por primeiro, nos ama e nos busca. Nós O encontramos definitivamente na sua Palavra. A fé é, portanto, um dom de Deus que nos é dado como proposta na sua Palavra. A fé acontece quando (e apenas quando) respondo à proposta de Deus. A fé tem dois aspectos interligados: a confiança pessoal em Deus e a aceitação (obediência) ao que Ele revela. “A fé é a atitude de quem está plantado no chão sólido da Palavra de Deus” (Bento XVI, 2005).

A Palavra de Deus tomou forma humana, fez-se carne em Jesus. Nele Deus se manifestou humanamente. Muitas vezes e de muitos modos, Deus falou aos nossos pais. Nestes últimos dias, diz a carta aos Hebreus (1, 1-3a), falou-nos por meio do seu Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas (e pelo qual também criou o universo. Ele é o resplendor da glória do Pai, a expressão do seu ser). Por isto nós cremos num Outro, num Tu, numa pessoa. O centro da nossa fé é Jesus, autor e consumador da fé (Hb 12,2). A fé cristã distingue-se da opinião, da crença, da ideologia e também da religião. Ela tem a ver com a Verdade e o Amor. O essencial na fé consiste na resposta confiante e no abandono a Deus que veio até nós em Jesus Cristo. Creio em Deus que se manifesta em Jesus Cristo.

A fé consiste em seguir o que Jesus revela e no entregar-se livre e totalmente a Deus oferecendo-se a Ele que se revela, com a submissão plena da inteligência e da vontade dando voluntariamente assentimento à revelação que Deus nos fez (Dei Verbum, 5).

A fé cristã é uma atitude pessoal e livre, uma entrega amorosa e confiante a Deus, a partir da revelação que é transmitida viva e humanamente por Jesus Cristo, Deus presente. “Este é o meu Filho amado. Escutai-O” (Mc, 9,7).

O Papa nos convoca para propormos a nossa fé à crise, ao cansaço da fé em nosso meio. Por isto, Bento XVI propõe o Ano da fé (de 11/10/12 a 30/11/13):

1º Para retomar a exata consciência da fé,

2º Para reavivar, purificar, confirmar e professar a fé (Paulo VI – 1967).

3º Para confirmar os conteúdos essenciais da fé para que sejam compreendidos e aprofundados de maneira sempre nova para se dar testemunho coerente deles em condições novas e diversas do passado (Porta Fidei, 5).

Por isso, o Ano da Fé será um momento de graça e de compromisso para uma conversão a Deus, para fortalecer a nossa fé Nele e para anunciá-Lo com alegria ao homem do nosso tempo, àqueles que estão perto de nós, nossos familiares, nossos colegas....

Diante da profunda crise de fé, diante de uma perda do sentido religioso que constitui o maior desafio para a Igreja de hoje, a renovação da fé deve ser a prioridade no compromisso de toda a Igreja nos nossos dias. ”Desejo que o Ano da fé possa contribuir, com a colaboração cordial de todos os componentes do Povo de Deus, para tornar Deus novamente presente neste mundo e para abrir os homens ao acesso da fé, ao confiar-se àquele Deus que nos amou até o fim (Jo 13,1), em Jesus Cristo crucificado e ressuscitado”. (Bento XVI, no lançamento do Ano da Fé – Porta Fidei). E o Papa continua conclamando:

Mostremos a todos a força e a beleza da féSeja um tempo de reflexão e de redescoberta da fé na família e na ComunidadeSó acreditando é que a fé cresce e se revigora. Ela torna-nos fecundos porque alarga o coração com a esperança e nos leva à prática da caridade.Celebrar a fé confessando-a solenemente em variadas formas e lugares (na família, na escola, no grupo, na Comunidade)Descobrir novamente os conteúdos da fé.... refletir sobre o próprio ato com que se crê e professá-los pessoal e comunitariamente. Até solenizá-los. Rezar o Creio em família todos os diasou pelo menos aos domingos durante o Ano da fé (de 11 de outubro 2012 a 30 de novembro de 2013).

Onde encontrar a doutrina da fé?

Na 1ª parte do Catecismo da Igreja Católica (livrarias católicas)No compêndio do Catecismo da Igreja Católica (livrarias católicas)No Youcat – Catecismo da Igreja Católica para a juventude (editora Paulus).

Com São Paulo podemos dizer a todos: Neste Ano da Fé cada um “busque a fé” (2 Tim 2,22). Ela obriga a tornar-se testemunha da presença do Ressuscitado.

O Ano da Fé será um tempo de graça!

† Dom Osvino José Both

Arcebispo do Ordinariado Militar do Brasil