O Arquivo Secreto de Paolo Gabriele

Oitenta e duas caixas de documentos confidenciais foram roubadas do Vaticano pelo ex-mordomo do papa

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VATICANO, quinta-feira, 4 de outubro de 2012 (ZENIT.org) – Reproduzimos a seguir a crônica da Rádio Vaticano sobre o terceiro dia do julgamento de Paolo Gabriele, ex-mordomo do papa Bento XVI, pela acusação de furto qualificado de documentos confidenciais.

"Ninguém maltratou Paolo Gabriele. Ele próprio sempre agradeceu à polícia pelo tratamento que recebeu", afirma Luca Cintia, responsável pela custódia do ex-mordomo papal, ouvido como testemunha no terceiro dia do processo no Vaticano. Quatro testemunhas foram ouvidas ontem, todos chamadas pela defesa de Gabriele.

Documentos altamente confidenciais, com assinatura do papa, alguns com expressa indicação de destruição obrigatória, documentos da Cúria Romana, da organização da Igreja, atas sigilosas da Secretaria de Estado, "documentos relativos à total privacidade e à vida familiar de Bento XVI", "cartas de cardeais ao papa com sugestões e pedidos de conselhos", "respostas do papa aos cardeais", "documentos com a assinatura do papa", "documentos criptografados", "documentos com a ordem 'destruir' escrita em alemão"... Em suma, “muitos documentos, bem mais do que os que foram divulgados no livro Sua Santidade, de Gianluigi Nuzzi”.

As testemunhas reconstituíram as buscas de 23 de maio feitas no quarto do mordomo do papa no Vaticano.

Foi encontrado um “enorme arquivo com centenas de milhares de folhas de papel”. Os policiais afirmam que começaram a busca "com o único propósito de rastrear o material divulgado pelo livro de Nuzzi" e que só mais tarde se deram conta "da gravidade da coisa".

"Cerca de mil documentos tinham sido vazados", entre originais e cópias escondidas que tratavam de assuntos como o ​​esoterismo, a maçonaria, a Loja P2, P4, o caso Bisignani, o caso Calvi. Foram encontrados também documentos sobre Berlusconi e sobre o chamado Caso Vatileaks; páginas sobre o IOR, pesquisas sobre ioga, budismo e cristianismo. E ainda documentos em formato eletrônico: foram vistoriados um PC, dois ou três computadores portáteis, um iPad, um disco rígido, um Play Station e um cartão de memória. Havia também material de pesquisa escolar, dos três filhos de Gabriele.

O material continha também textos com instruções sobre como esconder documentos e fotografias em formato eletrônico, além de como gravar vídeos e usar "o telefone celular às escondidas".

A polícia confirma ter empregado todas as precauções necessárias durante as buscas, tendo convidado a família Gabriele a sair de casa para minimizar os inconvenientes para as crianças e para a esposa.

Os interrogados nesta sessão confirmaram a originalidade de muitos documentos: o próprio presidente do tribunal, Dalla Torre, perguntou diversas vezes se eles tinham visto pessoalmente os originais durante a busca e depois dela, posteriormente à apreensão das 82 caixas de material.

Quanto à investigação sobre as supostas violações dos padrões de detenção, levantadas pelo promotor de Justiça Nicola Picardi, o encarregado da custódia de Paolo Gabriele, Luca Cintia, disse que "nunca faltou nada ao acusado, que foi tratado da melhor maneira possível, tanto que o próprio Gabriele sempre me agradeceu".

O processo ressaltou que o chefe da segurança do Vaticano, Domenico Giani, tinha dado instruções imediatas para a proteção de Gabriele e da sua família. O presidente do tribunal, alegando que a acusação de violações dos padrões de detenção é tema de outro processo, declarou que Gabriele teve uma série de garantias respeitadas, como visitas de familiares e assistência médica e espiritual.

Um notável constrangimento coube depois à advogada de Paolo Gabriele, Cristina Arru, que foi interrogada pelos jornalistas sobre as declarações de Gabriele de ter sido obrigado a ficar preso durante os primeiros dias em uma cela onde nem sequer podia abrir os braços e na qual a luz permanecia acesa continuamente. A própria Arru, em entrevista à Rádio Vaticano, já tinha reconhecido, no mês de julho, o bom tratamento e as boas condições oferecidas a Paolo Gabriele nos primeiros dias de detenção. Arru respondeu que aquelas "declarações se referiam àquele dia, àquele momento".

Neste próximo sábado, será feita a acusação do promotor de Justiça, a resposta da defesa, as réplicas e a provável manifestação de Paolo Gabriele.

(Trad.ZENIT)