O Batismo das crianças e o sentido da vida

Meditação para a festa do Batismo do Senhor

Roma, (Zenit.org) Pe. Anderson Alves | 1957 visitas

Terminamos o período de Natal celebrando o Batismo de Jesus no rio Jordão por João Batista. O motivo é que nesse dia o Céu se abriu sobre o Senhor, o Espírito Santo desceu sobre Ele de modo visível e se escutou a voz do Pai que disse: «Este é o meu Filho, o amado, em quem me comprazo». O que aconteceu com o Senhor naquele dia, ocorre com o cristão no dia do seu Batismo. O Céu que tinha sido fechado após o pecado dos nossos primeiros pais é reaberto para cada homem no dia do seu Batismo. Então o Espírito Santo vêm ao seu encontro, fazendo-o membro da Igreja, o corpo de Cristo e lhe é dirigida a Palavra do Pai: «Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo».

Cristo foi batizado adulto, no início de sua vida pública. Então, poderíamos nos perguntar por que somos batizados quando somos recém-nascidos. E hoje em dia, por influxo de certa cultura pagã, é cada vez mais comum perguntar: «É justo batizar uma criança inconsciente e que não tenha feito o percurso catecumenal?» Ou então: «podemos impor a uma criança uma religião? Não deveríamos deixá-la crescer para escolher por si mesma?»

No ano 2012, numa lectio divina à diocese de Roma, o Papa Bento XVI afrontou a estas questões, dizendo coisas surpreendentes. Em primeiro lugar, essas questões nos mostram «já não vemos na fé cristã a vida nova, a vida verdadeira, mas vemos uma escolha entre outras, e também um peso que não se deveria impor sem obter o assentimento da parte do sujeito»[1]. E isso é uma triste verdade. Aqueles que se fazem essas perguntas esqueceram-se de que o Cristianismo é o dom gratuito de um Deus que é Pai, que por amor nos criou e redimiu com o sangue de seu Filho. De modo que o Cristianismo pode parecer um fardo aos que ignoram os dons recebidos e que não percebem que a moral cristã é um caminho de busca do perfeito crescimento das mais altas capacidades humanas. A Ética cristã não é o seguimento de um código moral abstrato e frio, mas a busca apaixonada pelas verdadeiras virtudes, presentes em Jesus Cristo.

O Papa disse naquela ocasião que a realidade é diferente de como a julgam os opositores do Batismo das crianças. De fato, o Cristianismo é o encontro definitivo de Deus com o homem. É a doação total de Deus, que criou todas as coisas por amor e que fez o homem à sua imagem e semelhança a fim de que esse possa participar na sua felicidade. O Cristianismo é a fonte da verdadeira alegria e a sua moral não é um fardo, mas uma estrada que leva à verdadeira felicidade, que indica o verdadeiro sentido da liberdade, ligada sempre à responsabilidade e ao amor de benevolência.

Atualmente há cristãos que se deixam influenciar pelo pessimismo de um ambiente pagão e chegam a se perguntar por que Deus criou todas as coisas, por que ele fez o homem livre, permitindo assim a existência do mal? A resposta da fé cristã diz que Deus ama e por esta razão criou todas as coisas livremente, comunicando assim o seu amor paternal. E a quem insiste perguntando por que ele nos amou e criou, a resposta é simplesmente que o verdadeiro amor não há um porquê. Por que os nossos pais nos amam? O verdadeiro amor não tem um motivo, mas é sempre algo livre, total e generoso. E somente esse amor nos torna livres e responsáveis.

Por que então batizar as crianças? Deveríamos perguntar-lhes se querem ou não? O Papa lembrava que também a vida nos é dada sem que possamos escolher previamente se a queremos ou não; a vida nos é dada necessariamente sem o nosso consentimento. «É justo doar a vida neste mundo, sem ter recebido o consentimento (“queres viver ou não?”)? Pode-se realmente antecipar a vida, doar a vida sem que o sujeito tenha tido a possibilidade de decidir?». E respondia o Papa dizendo que é possível e justo para os pais gerar a vida, somente se eles têm a garantia de que, apesar de tudo, é bom viver. Ou seja, somente quando se há esperanças, tem-se a garantia de que a vida é boa, protegida por Deus e é um verdadeiro dom. Quando há esperanças, existe a resposta pelo sentido da vida, e a justificativa para que essa seja doada com generosidade. De modo que os pais realmente cristãos sabem que o Batismo é essa “garantia” de que a vida é boa, protegida por Deus, que é o verdadeiro Amor. O Batismo é, pois, a antecipação do sentido da vida, o “sim” de Deus que protege a vida e justifica a sua doação.

Sendo assim, o Batismo das crianças não é contrário a liberdade pessoal e é necessário que os pais pensem nesse dom como uma garantia de vida eterna para poder justificar o dom da vida aos seus filhos. Caso contrário, a vida se torna um bem questionável. «Só uma vida que está nas mãos de Deus, nas mãos de Cristo, imersos em nome do Deus trino, é certamente uma coisa boa que você pode dar sem escrúpulos”, dizia então o Papa.

O mundo atual se esqueceu de que o Batismo nos faz verdadeiros filhos de Deus e por isso desvaloriza a vida. Nós, cristãos, devemos agradecer a Deus porque Ele, ao fazer-nos compreender o valor do nosso Batismo, nos faz reconhecer a importância de cada vida humana, em todas as suas fases e condições. Quem acredita realmente na vida eterna, que começa com o Batismo, sabe valorizar a vida presente, defendendo-a do perigo da manipulação e de outros interesses perversos. Agradeçamos a Deus pelo nosso Batismo, que nos faz filhos de Deus, membros do Corpo de Cristo e templos do Espírito Santo. Este grande dom deu o verdadeiro sentido das nossas vidas e não pode ser negado às novas gerações: somos filhos de Deus e estamos em caminho, não em direção à morte, mas à vida eterna com Deus que é Pai e Senhor de todas as coisas.

Pe. Anderson Alves, sacerdote da diocese de Petrópolis – Brasil. Doutorando em Filosofia na Pontificia Università della Santa Croce em Roma.

[1] PAPA BENTO XVI, "Lectio Divina" no Congresso Eclesial da Diocese De Roma, Basílica de São João de Latrão, 11/06/2012. Disponível em: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/speeches/2012/june/documents/hf_ben-xvi_spe_20120611_convegno-ecclesiale_po.html