O bom senso do papa pode mudar a história de Israel

O rabino Skorka e o muçulmano Abboud acompanharão o compatriota Francisco à Terra Santa

Buenos Aires, (Zenit.org) Alvear Metalli | 539 visitas

O rabino Abraham Skorka, reitor do seminário rabínico latino-americano, e o muçulmano Omar Abboud, ex-secretário geral do Centro Islâmico da República Argentina, acompanharão o papa à Terra Santa, numa viagem longamente desejada.

Ambos argentinos, ambos amigos de velha data do também argentino Bergoglio, ambos protagonistas de um espaço de diálogo inter-religioso que hoje é modelo para toda a Igreja. “É uma parte da nossa identidade nacional, um fruto cultivado pela vontade de diversos dirigentes e líderes religiosos”, nota Abboud, que reconhece “o impulso central promovido pelo então cardeal Bergoglio para criar uma cultura do encontro”. É uma referência ao Instituto de Diálogo, do qual ele faz parte. “Somos uma das poucas cidades do mundo onde a convivência religiosa se desenvolveu desta maneira que podemos ver hoje”. Por sua vez, Skorka recorda que, na primeira visita a Roma, pouco depois da eleição e quando já começava a se perfilar a ideia desta viagem, o novo papa fez referência ao que tinha sido feito em Buenos Aires: “A nossa amizade (…) é a prova de que o diálogo entre religiões e seres humanos é possível”. Da iniciativa de Bergoglio, confirma Skorka, nasceu a história de atenção e de respeito que uniu os líderes islâmicos e judeus e que agora leva a Israel dois representantes de ambas as realidades. “Fizemos muitas coisas juntos”, diz Skorka. “O papa é um amigo sincero do povo judeu”.

“Acompanhar Sua Santidade à Terra Santa é uma honra altíssima e inesperada para mim”, afirma Omar Abboud, que admira o trabalho feito nas favelas de Buenos Aires pelos sacerdotes de Bergoglio. “Emoção” e “responsabilidade” são as palavras que Skorka usou em uma entrevista à Terras de América ao comentar a decisão do papa de incluí-lo na comitiva: emoção pela honra, responsabilidade pela oportunidade de “ajudar o papa a transmitir mensagens e sinais relevantes para a paz”. Skorka acaba de escrever para o diário argentino “La Nación” um elogio dos dois papas recém-canonizados. “Sendo núncio em Istambul, o futuro João XXIII empregou denodados esforços para salvar judeus. O futuro João Paulo II manteve um compromisso significativo para com os perseguidos judeus. Foram seres que iluminaram o caminho de muitos outros. Entre eles, o do atual papa Francisco”.

Tanto o rabino quanto o imã argentinos são conscientes de que o momento é delicado e a situação não é a mesma de quando se anunciou a viagem à Terra Santa.

Nos últimos meses houve uma aproximação entre Abu Mazen e o Hamás, que será formalizada justamente nos dias da chegada do papa a Israel, além do endurecimento da posição de Israel e da sua decisão de suspender as conversações de paz com os palestinos. Um clima que carregará de conotações políticas cada um dos gestos e palavras que forem pronunciadas. “O desafio é maior ainda”, comenta Skorka. “A atitude do papa será conciliadora, prudente, orientada a suscitar sentimentos de confraternidade, indo além de toda contingência”. Está em jogo um longo percurso, observa ele. “O que a história pede é superação”. Ele confia “no afeto que o papa sabe transmitir, na sua capacidade de desarmar os ódios, de ir ao essencial”.

Junto com isso, entre o anúncio da viagem papal e a sua realização já próxima, o mundo ouviu as palavras inéditas do presidente da Autoridade Palestina, que definiu o genocídio dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial como “o crime mais atroz” da era moderna. É a condenação mais forte do holocausto já feita por um presidente palestino, ainda mais impactante porque outros líderes palestinos foram criticados, no passado, por manifestarem dúvidas quanto à extensão do massacre de judeus. O valor das palavras pronunciadas não escapa a Skorka: “São as expressões sensatas e valentes que mudam o curso da História”.