O caminho do conhecimento passa pelo do não-conhecimento

Na última pregação de Quaresma, o padre Cantalamessa extrai o pensamento de São Gregório Nazianzeno e São Gregório de Nissa

| 953 visitas

Por Salvatore Cernuzio

ROMA, sexta-feira, 30 de março de 2012 (ZENIT.org) - O "caminho para o conhecimento de Deus" é o tema abordado pelo Padre Raniero Cantalamessa, durante a sua quarta e última pregação de Quaresma.

Referindo-se a Santo Agostinho, o pregador da Casa Pontifícia fala de "duas dimensões da fé", ou seja, das coisas que devem ser cridas e o ato de crê-las, a fé objetiva e a fé subjetiva: dois pólos entre os quais "acontece toda a reflexão cristã sobre a fé".

Neste sentido os Padres, de acordo com o Pregador, "são um elo vital para reencontrar a fé como entendida na Escritura", ou seja, uma fé que é objetiva e subjetiva ao mesmo tempo, “preocupada, pelo conteúdo da fé, mas ao mesmo tempo vivida com todo o ardor do coração”. Os Padres, portanto, podem dar "brilho e força de impacto no nosso esforço para restaurar a fé da Igreja".

O assunto desta última pregação quaresmal é, então, a renovação da nossa fé a partir dos seus fundamentos, ou seja "o que é comumente entendido pela palavra ‘crer’ e segundo a qual distinguimos as pessoas entre crentes e não crentes: a fé na existência de Deus".

A fé no Deus trino "é o estágio final da fé", diz Cantalamessa. "Para chegar a essa plenitude é necessário primeiro ter acreditado em Deus, no sentido de que antes da fé no Deus trino, há a fé no Deus uno”, acrescenta.

Neste sentido, é necessário lembrar o ensinamento de São Gregório Nazianzeno de que existe uma verdadeira "pedagogia" com a qual Deus decide revelar-se a nós. Jesus mesmo “disse de abster-se do dizer aos apóstolos aquelas coisas que eles ainda não podiam ‘suportar o peso’, e também nós, portanto, devemos “ter a mesma pedagogia com aqueles aos quais queremos anunciar a fé.”

O principal objetivo "não é apologético, mas espiritual, orientado a fortalecer a nossa fé e a comunicá-la”. Nesta direção, padre Cantalamessa repete o exemplo dos Padres, como fontes de inspiração: "Eles não se encontraram na situação, como nós, de ter que demonstrar a existência de Deus, mas a unicidade de Deus; não tiveram que combater o ateísmo, mas o politeísmo – explicou – O caminho traçado por eles para chegar ao conhecimento do Deus único, é o mesmo que pode levar o homem de hoje para a descoberta de Deus como tal”.

Guia ideal para este caminho é, de acordo com Cantalamessa, São Gregório de Nissa, Padre e Doutor da Igreja que, foi o primeiro na história do cristianismo que “traçou um caminho para o conhecimento de Deus que responde particulamente à situação religiosa do homem de hoje: o caminho do conhecimento que passa pelo não conhecimento”.

O Nisseno demonstrou, de fato, que “justo o reconhecimento da impossibilidade de conhecer a Deus é o caminho para o seu verdadeiro conhecimento”. Para explicar isso, retomou o tema de Moisés que encontra Deus na nuvem. Escreveu de fato: “A manifestação de Deus acontece primeiro por Moisés na luz; em seguida ele fala com Ele na nuvem; por fim tornado mais perfeito, O contempla nas trevas. A passagem da escuridão à luz é a primeira separação das idéias falsas e errôneas sobre Deus. A inteligência mais atenta às coisas escondidas é como uma nuvem que escurece todo o sensível e acostuma a alma à contemplação daquilo que está escondido”.

“No ver que Deus é invisível”, estágio final do conhecimento de Deus – continua padre Cantalamessa – “não existe um conceito”, mas aquele que o Nisseno define, com uma famosa expressão: “um certo sentimento de presença”, um sentir-se não com os sentidos do corpo, mas com aqueles interiores do coração. Estas idéias do Nisseno tiveram uma influência muito grande no pensamento cristão posterior, a tal ponto de ser considerado o fundador mesmo da mística cristã, mas ao mesmo tempo nos podem ajudar a aprofundar a nossa fé e indicar ao homem moderno algum caminho que o leve para Deus.

A novidade introduzida pelo Nisseno no pensamento cristão é que “a parte mais alta da pessoa, a razão, não está excluída da busca de Deus – escreve – não somos obrigados a seguir ou a fé ou a inteligência”.

"Entrando na nuvem, isto é, acreditando - acrescentou o pregador da Casa Pontifícia - a pessoa humana permite à sua própria razão colocar seu ato mais nobre: reconhecer que existem muitas coisas que estão além dela".

A doutrina de Gregório de Nissa, em conclusão, "nos assegura que, antes que humilhar-nos e privar-nos de algo, tal desconhecimento existe para encher o homem de entusiasmo e de alegria”. "Deus é infinitamente maior, mais bonito, bom, do que nós podemos imaginar - conclui Cantalamessa – para que nem sequer nos chegue perto o pensamento de que poderemos entediar-nos passando a eternidade perto Dele!"

[Tradução Thácio Siqueira]