O cardeal Bergoglio e a sua visão da família e da vida humana

O Papa já não é jesuíta, nem argentino, nem americano; pois, como Vigário de Cristo, transcende todas as particularidades

Buenos Aires, (Zenit.org) Jorge Scala | 1406 visitas

Algo comum nestes dias é comentar que o Papa Francisco é o primeiro Sumo Pontífice nascido na América; também que é o primeiro argentino e o primeiro jesuíta eleito Bispo de Roma. Tudo isso é verdade até a sua eleição. Pela graça do ministério petrino, Jorge Mario Bergoglio é o pai comum de todos os católicos – e de certa forma de todos os outros seres humanos -. Dessa forma poder-se-ia dizer que já não é jesuíta, nem argentino, nem americano; pois, como Vigário de Cristo, transcende todas as particularidades.

No entanto, pode ser interessante para os leitores de Zenit, conhecer certas definições do seu magistério quando era arcebispo de Buenos Aires. Gostaria de fixar-me especialmente em algumas questões relacionadas à família, à vida e à dignidade humana. Existe uma coincidência especialmente significativa para mim: no dia 13 de março de 2012 a corte suprema de justiça da República Argentina pronunciou uma decisão iníqua pretendendo legalizar o aborto por petição de tal Nação. Exatamente um ano depois, no dia 13 de março de 2013, o Colégio Cardinalício eleva à Sede de Pedro o Cardeal Primaz da Argentina. Como se fosse um carinho do Espírito Santo.

No ano passado, por ocasião da assinatura de um protocolo para realizar abortos nos hospitais públicos da cidade de Buenos Aires, o Cardeal Bergoglio afirmou com clareza, que “A família é condição necessária para que uma pessoa tome consciência e valor da sua dignidade: na nossa família viemos à vida, fomos aceitos como valiosos para nós mesmos... Sem a família que reconhece a dignidade da pessoa por si mesma, a sociedade não consegue perceber este valor nas situações limítrofes. Somente uma mãe e um pai podem dizer com alegria, com orgulho e responsabilidade: vamos ser pais, concebemos o nosso filho. A ciência olha para isso de fora e faz indagações sobre a pessoa que não nascem do centro: da sua dignidade”; para concluir que “O aborto nunca é uma solução. Temos que escutar, acompanhar e compreender a partir do nosso lugar para salvar as duas vidas: respeitar o ser humano menor e indefeso, adotar medidas que possam preservar a sua vida, permitir o seu nascimento e depois ser criativos na busca de caminhos que o levem ao seu pleno desenvolvimento”.

É muito conhecido o seu cuidado pastoral com os mais pobres e indefesos, aqueles aos quais lhes foi tirada a sua dignidade humana. A sua proverbial austeridade – severa só consigo mesmo -, foi o modo de pregá-la com o exemplo. A eleição do nome de Francisco é coerente com a sua vida.

Num dos seus discursos muito conhecido, referindo-se às escravidões contemporâneas na cidade de Buenos Aires, denunciou a situação dos meninos de rua, o tráfico de pessoas, o abuso sobre o corpo humano, a exploração laboral nas maquilas – oficinas clandestinas de manufaturas -, para concluir – sem ambiguidades – que nas megacidades secularizadas – e narcotizadas – pelo pós-modernismo, “cuida-se melhor de um cachorro do que de um ser humano”...

E referindo-se àqueles que se dedicam ao tráfico de mulheres e crianças, os chamou de “escravagistas”, e os definiu como os “que entram na cidade aberta para ver o que podem roubar, que vida podem anular, que crianças podem vencer, que família podem destruir, que mulher podem explorar”...

O Cardeal Bergoglio sempre pedia aos seus interlocutores, seja em público ou em privado -, que rezasse por Ele. O Papa Francisco merece nosso carinho filiar e nossas orações, agora mais antes.