O cartaz da Campanha da Fraternidade 2008

Idealizadores da arte conversam com Zenit sobre como foi o processo de criação

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BRASÍLIA, quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008 (ZENIT.org).- Desde que foi criada a Campanha da Fraternidade em 1964 pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), esta foi a primeira vez que o concurso do cartaz de divulgação da campanha foi ganho por Brasília.

A Campanha da Fraternidade 2008 tem com o tema «Fraternidade e Defesa da Vida» e lema «Escolhe, pois, a vida». A arte do cartaz é uma foto de um senhor negro já mais velho, segurando no colo uma garota branca recém-nascida, que dorme tranqüila.

Zenit conversou com os três jovens que fizeram o cartaz, Horual dos Santos, André Said e Marília Matias, para saber como surgiu a idéia da foto e como foi a reação deles ao saber que seu trabalho tinha sido escolhido para representar a Campanha em 2008, que inicia oficialmente hoje.

Como vocês montaram o grupo que faria o cartaz?

–André Said: Eu e a Marília tínhamos ido para algumas audiências públicas sobre o aborto e sentíamos vontade de fazer algo mais concreto. Conhecia o Horual da [Revista] Cavaleiro da Imaculada [dos frades Franciscanos Conventuais] e a gente tecnicamente se completava bem, porque ele mexia na parte gráfica da revista e eu também.

A gente recebeu o e-mail, desses que o pessoal vai encaminhando, sobre o concurso. Quando recebi eu pensei neles e mandei. Perguntei se eles queriam participar.

E por que você pensou nos dois para ajudar no cartaz?

–André Said: Eu não sei, no caso do Horual acho que pelas nossas conversas na Cavaleiro da Imaculada, pelos nossos trabalhos. Eu tinha encontrado alguém parecido comigo na parte profissional. No caso da Marília, acho que porque a gente tava conversando bastante, tinha ido junto à audiência, a gente ficava remoendo muito o assunto.

Da idéia de participar do concurso à do cartaz, como foi o processo?

–Marília Matias: O André mandou o e-mail pra gente e aceitamos participar. No meu caso particular eu estava cheia de coisa para fazer, mas quando vi o e-mail do André falei “é um pedido de Deus mesmo”, porque era um tema que nos sensibilizava muito.

Aí nos reunimos, começamos a rezar, a meditar a palavra do Deuteronômio “Escolhe, pois, a vida”, que é o lema da Campanha. Fizemos uma tempestade de idéias para descobrir o que poderíamos fazer para o cartaz. E o mais importante é que a gente via a oportunidade do concurso como um chamado de Deus para começar um trabalho a favor da vida, para que as pessoas começassem a valorizar a vida e para que o aborto não fosse aprovado, nem outras formas de destruição da vida.

A gente achava que isso era só um começo e continua achando. Nem pensávamos em ganhar o concurso. Fizemos isso como o começo de vários trabalhos para ajudar a Igreja na defesa da vida.

Do tempo que vocês receberam o e-mail até fazer o cartaz, vocês tiveram alguma inspiração em um momento de oração, em alguma reunião, por exemplo?

–Horual dos Santos: Foram vários momentos, não foi algo fixo toda semana, foi algo meio aleatório. Teve vez que nos reunimos em datas próximas e teve alguns intervalos, quando nos encontramos na visita do Papa em maio de 2007, por exemplo.

Acho que o que marcou para mim como inspiração foi que, durante as orações, a gente chegou à conclusão de que não queria representar a morte, mas sim a vida. Então, a principal inspiração de início era representar a vida, não focar em pontos que falassem de morte, dizer que é contra isso ou aquilo.

E a outra foi durante o processo de oração, chegamos à conclusão de que não era só uma campanha contra o aborto ou a eutanásia. Era uma campanha a favor da vida em geral. Então, a gente queria focar só num assunto. Com base nisso fomos rezando e dando forma ao cartaz. Já eram dois pontos: representar a vida e não generalizar em um tema só.

–André Said: Mas sempre colocando a vida humana. A hipótese da campanha falava em vida no geral, mas, desde o início, a gente tava querendo representar a vida humana.

E como vocês chegaram às duas personagens que compõem o cartaz?

–Horual dos Santos: Hoje analisando tudo vemos que foi a providência divina. Queríamos fotografar pessoas diferentes, a gente tinha esse conceito. Queria fotografar pessoas de idade diferente e os três fomos procurar algumas pessoas.

–André Said: Queríamos também pessoas coerentes com o que a campanha falava. Não somente pelo aspecto físico deles, mas também que as famílias vivenciassem o que a campanha ia tratar.

–Horual dos Santos: A gente queria que fossem pessoas que vivessem a fé. Do mesmo jeito que nós três resolvemos nos reunir porque a gente via coerência um no outro no desejo do coração e na vivência da fé, queríamos que as pessoas representadas tivessem essa coerência.

Já estava acabando o prazo de entrega do cartaz e não conseguíamos ninguém, aí comentando com uma amiga dizendo que não conseguia uma criança. E ela disse “Criança, de 0 a 9 anos, pode escolher que lá em casa tem”. Ela tem muitos sobrinhos. Encontramos então a criança e no último momento uma senhora. Mas acabou que, no dia de fotografar, apareceu o senhor Sinval, que era irmão da senhora escolhida.

A gente tinha uma idéia do que a gente queria, mas foi Deus quem providenciou as pessoas e o cenário da foto. Não foi algo premeditado. Sabíamos o que queríamos representar, mas na hora do acontecimento foi providência de Deus.

Quais os reflexos que, na opinião de vocês, a Campanha da Fraternidade irá trazer?

–Marília Matias: Acho que foi muita providência de Deus o cartaz ter sido feito por jovens de Brasília. Várias pessoas chegaram para nós nos cumprimentando pelo cartaz. E elas se sensibilizam mais, porque elas conhecem quem fez, sabem que são jovens das paróquias locais que fizeram.

Aqui precisa ser a luta mais forte. Se aqui são tomadas as decisões, aqui precisam existir as pessoas com mais iniciativa. A gente acha que será uma campanha que vai durar muito, que irá ultrapassar o tempo da quaresma. Às vezes vemos que as campanhas ficam mais fortes no tempo da quaresma. Pensamos que esta não será assim. Dom João Braz [arcebispo de Brasília] está falando muito isso: que a campanha deve ocorrer durante o ano inteiro e de forma bem intensa.

Sobre os nossos trabalhos, a gente não tem algo definido sobre o que vamos fazer daqui pra frente. Mas queremos usar nossos dons. Uma coisa muito importante que o André sempre falou é que temos de fazer o melhor pra Deus. Fazer um trabalho bem feito, um cartaz bem feito, tecnicamente bem feito, que transmita a expressão da vida, que esteja bem diagramado. Procuramos fazer assim, porque às vezes não vemos isso dentro da Igreja.

–Horual dos Santos: Vejo a importância de lembrar que somos três pessoas comuns que freqüentam paróquia, lancham, saem, brincam e tal. E não temos nada de extraordinário. E, às vezes, as pessoas esperam algo de extraordinário para começar a fazer as coisas de Deus. E então, alguns amigos nossos que vêem pessoas comuns dando passos na fé, como fazer o cartaz, tomam isso como incentivo. Você não precisa esperar muita coisa para fazer a sua parte, basta agir.

–Marília Matias: Para nós também foi uma surpresa a notícia. Quando o padre nos ligou para dizer que tínhamos sido escolhidos, eu nem acreditei. Depois ficamos sabendo que não sei a quantos anos apenas Campinas ganhava o concurso. Pela primeira vez Brasília ganhou. E também vimos muito como providência de Deus a cidade vencedora ter sido aqui.

Vocês já começaram a falar, mas gostaria de saber como foi a reação quando souberam da notícia…

–Marília Matias: Eu estava no trânsito quando recebi a ligação do padre. E ele disse que nosso cartaz tinha sido escolhido dentre 80 que tinham concorrido. Na hora tive a plena certeza de que essa missão tinha vindo de Deus. Mais uma vez, porque quando o André tinha me mandado o e-mail falando vi que era Deus quem estava me pedindo para fazer o trabalho. Depois liguei para o André, ele pode falar mais sobre o que sentiu.

–André Said: Eu senti uma felicidade muito grande. Então comecei a pensar que Deus tinha escolhido a gente e fiquei muito emocionado. Depois que desliguei o telefone, fiquei pensando como o cartaz poderia influenciar a vida de outras pessoas, salvar mesmo, colaborar com a vida dos outros.

–Horual dos Santos: Depois o André me ligou. O sentimento na hora foi que, mesmo fazendo pouco, mesmo assim vi que sou útil pra Deus. Imaginei o que seria se desse mais de mim, o meu sim de verdade, como Nossa Senhora. E fiquei pensando nisso durante o dia todo.

(Por Tiago Miranda)