O cinema não precisa catequizar, mas criar beleza

Fala o presidente do dicastério vaticano para as comunicações

| 970 visitas

ROMA, quarta-feira, 14 de dezembro de 2011 (ZENIT.org)- “Não temos necessidade de filmes que sejam catequéticos, mas de filmes bons”. Com estas palavras, Dom Claudio Maria Celli, presidente do Conselho Pontifício das Comunicações Sociais, deu um indício importante sobre a relação do bom cinema com a fé.

Foi na conferência Film and Faith, em 2 de dezembro, na Universidade Pontifícia Lateranense de Roma, organizada pela fundação italiana Ente do Espetáculo. Celli repetiu a frase em entrevista a Silvia Guidi, de L'Osservatore Romano.

“É suficiente olhar para a produção cinematográfica recente e ver que o sagrado emerge em muitos filmes, às vezes quase só sussurrado, como se fosse um fio condutor. Por trás dos efeitos sensacionalistas, ou especiais, eu vejo em muitas produções que o elemento espiritual não está separado do mundo, não é uma coisa abstrata, mas algo misturado com as pequenas coisas de cada dia, quase escondido, como se fosse uma luz sutil”.

O presidente da filmoteca vaticana acrescentou que “percebemos uma certa presença de Deus em muitos filmes, como uma vibração mal perceptível que cada artista sugere, para que o espectador possa detectá-la por si mesmo”.

O subsecretário emérito das Relações do Vaticano com os Estados considerou que “a arte é, desde sempre, mestra em transmitir a identidade de cada povo e época, em particular a arte do cinema, que é a soma de tantas artes diversas, com sua linguagem sugestiva capaz de carregar imagens, ideias, valores, que fazem florescer no íntimo reflexões fundamentais, levantando dúvidas, perguntas, e, em especial, nos levando para um caminho de busca mais profunda do nosso eu. A partir dali, o passo é curto: está o outro, está Deus”.

O bispo afirmou ainda que o bom cinema “deve ajudar o homem a se encontrar consigo mesmo, predispondo-o a aceitar a diversidade e a compartilhar a espiritualidade”. E, considerando que um bom filme não termina com os créditos finais, mas começa com eles, por ser quando as emoções se elaboram, Celli apelou à sensibilidade dos artistas para iluminarem as pessoas com as suas obras.

Mas também observou que é fundamental uma educação para a linguagem da imagem, um percurso formativo que leve os espectadores, desde a infância, a analisar conscientemente os conteúdos cinematográficos, desenvolvendo o senso crítico.

Mais que demonizar um filme porque deseduca, “temos que abrir espaços de diálogo, reiterando que o homem foi criado à imagem de Deus e tem uma dignidade que não pode ser ultrajada. O homem tem uma aspiração mais alta e procura acima de tudo a verdade, aquela verdade que um filme pode ajudar a descobrir”.

Entre os filmes recentes, dom Celli citou Homens de Deus, que, sem artifícios, narra uma história de fé e de dor, uma verdadeira paixão, e A Árvore da Vida, de Malick, “verdadeira parábola visível sobre a criação, o pecado, a redenção e o amor”. A lista poderia ser muito mais longa, disse ainda, esclarecendo que os filmes citados, apesar de não serem fáceis, conseguiram conquistar ao público.

Dom Celli precisou que o seu dicastério sempre procura não teorizar demais sobre a comunicação, mas agir, e por isso está em constante sinergia com as realidades mundiais que podem ajudar a responder à necessidade da verdadeira comunicação que o mundo tem.

O prelado convidou os jovens que entram no mundo do cinema a não traírem a si mesmos, nem o seu credo e aspirações. “Sejam verdadeiros com a mesma verdade do Evangelho. Escutem o mundo e as suas necessidades, suas ânsias e esperanças. O coração deseja um mundo em que reine o amor, onde os dons sejam compartilhados, onde se edifique a unidade, onde a liberdade encontre o próprio significado na verdade e onde a identidade de cada um se realize numa comunhão respeitosa”.

“Estejam prontos para receber este desafio nos seus filmes. Sejam artistas apaixonados pela verdade e pela beleza”.

Celli encerrou lembrando que o festival Tertio Millennio nasceu de uma sinergia de propósitos no final dos anos noventa. O Ente do Espetáculo, o Pontifício Conselho da Cultura e o Pontifício Conselho das Comunicações Sociais consideraram que era hora de um diálogo construtivo entre a Igreja e o cinema, como veículo de cultura e proposta de valores.