O desaparecimento de Deus: família e religião estão ligadas entre si

Existe uma relação entre a diminuição de casamentos e nascimentos e o declínio da fé

Roma, (Zenit.org) John Flynn, LC | 1192 visitas

Como e por que o cristianismo está em declínio em muitos países do Ocidente? Esta é a pergunta central do último livro de Mary Eberstadt, How the West Really Lost God, publicado pela Templeton Press.

Diversos estudos têm demonstrado que a fé e a prática religiosa cristã diminuíram em quase todos os países europeus e que a percentagem de pessoas que não creem tem aumentado também nos Estados Unidos.

A respeito da causa desse declínio da religiosidade existem várias teorias, como a urbanização, a industrialização, a tecnologia e assim por diante. Eberstadt vê uma ligação entre essas mudanças e a secularização, mas destaca um fator de vital importância que normalmente não é levado em conta: a família.

Tem sido frequentemente sugerido que o declínio da família é consequência do enfraquecimento da religião, mas a tese proposta no livro é que o enfraquecimento da vida familiar é que contribui para o declínio da religião.

Conforme Eberstadt, nós somos, talvez, as pessoas mais livres da história da humanidade, mas também os mais pobres de laços familiares e de fé, vínculos que eram firmes nas gerações anteriores.

Depois de alguns capítulos iniciais que examinam o processo de secularização e algumas das hipóteses mais comuns que tentam oferecer uma explicação a respeito, os capítulos seguintes fornecem os embasamentos da teoria da estudiosa norte-americana sobre a interação entre a família e a religião.

Eberstadt começa analisando as evidências empíricas da ligação entre fé e família. Citando vários estudos, ela observa que, quanto menos filhos há numa família, menor a tendência da família a ir à igreja. Por exemplo, um homem casado e com filhos tem uma inclinação mais do que duas vezes maior a ir à igreja do que um homem não casado e sem filhos. A convivência pré-marital também tem forte impacto negativo na prática religiosa.

"Em outras palavras, o que você decide fazer no tocante à sua família, se ter uma, se casar, se ter filhos e quantos ter, tudo isso são fortes indicadores de quanto tempo você vai dedicar ou não a ir à igreja", acredita a autora.

Mas por que existe essa interdependência? Eberstadt propõe que a religiosidade está associada a casamentos e a taxas maiores de fertilidade. Em vez de assumir, no entanto, que a fé venha primeiro e depois venha a família, ela argumenta que o que torna as pessoas mais religiosas são as famílias mais numerosas e mais sólidas.

A tese de que as pessoas constituam famílias só por serem religiosas não explica por que muitos cristãos cujas igrejas permitem a contracepção e o aborto ainda têm famílias maiores do que os não-crentes.

Eberstadt admite que a correlação não significa necessariamente causalidade, mas a opinião comum de que a secularização tenha levado a mudanças na vida familiar também se baseia em uma relação implícita de causa e efeito.

Ao longo do tempo, as taxas de fertilidade caíram em muitos países ocidentais, mais e mais pessoas começaram a viver juntas em vez de se casar e muitas outras deixaram de ir à igreja. Essas tendências se reforçam mutuamente, declara Eberstadt.

A urbanização e a industrialização são frequentemente citadas como fatores de enfraquecimento da religião, mas a estudiosa ressalta que eles também estão associados a um enfraquecimento da vida familiar e à queda na taxa de natalidade. Esta mudança na família pode ter sido um passo intermediário para a perda de religião, diz ela.

Mais crianças e mais casamentos significam mais Deus, conclui Eberstadt, depois de descrever uma série de mudanças demográficas na história recente.

Em comparação com outras teorias, admitir um papel da família na determinação da religiosidade explica melhor algumas mudanças, sustenta Eberstadt em um dos capítulos do livro. Por exemplo, o fato de que as mulheres são religiosamente mais praticantes do que os homens.

“Explicar essa diferença com base na inferioridade feminina não funciona”, afirma Eberstadt. Talvez o que explique a diferença é que a experiência da família e dos filhos é mais imediata na mulher do que no homem.

Mas quais são os fatores que vinculam família e religião? Eberstadt cita vários. Um fator é que ter filhos leva os pais a participar da igreja pela necessidade de encontrar um lugar adequado para a educação e para a comunidade. O amor familiar, afirma ela, dá às pessoas um incentivo extra para contemplar a eternidade.

Além disso, o cristianismo é uma história contada através da perspectiva de uma família de 2000 anos atrás. Em uma sociedade individualizada, com muitas famílias desestruturadas, é mais difícil dar sentido a uma tradição religiosa baseada em dinâmicas familiares.

Eberstadt considera ainda que as pessoas não gostam de ouvir que estão erradas ou que os seus entes queridos cometeram erros. O cristianismo não poderia deixar de transmitir essa mensagem sem deixar de lado alguns preceitos fundamentais, numa época de famílias "não-tradicionais".

Entre as notas negativas, Eberstadt observa que as tendências familiares que subvertem o cristianismo não dão mostras de enfraquecimento no Ocidente. No entanto, ela também abre espaço para uma visão otimista, argumentando que uma virada na vida de família é muito plausível: o cristianismo tem uma história de renascimentos em situações difíceis e sabe adaptar-se a novas circunstâncias.

Em conclusão, a autora afirma que o cristianismo e as famílias saudáveis representam uma grande vantagem para a sociedade. Resta o problema de enxergar como e quando as tendências negativas das últimas décadas serão revertidas.