O desejo de conexão pode nos isolar do nosso próximo. É hora de rever a Cultura do Encontro

Reflexões de Dom Alberto Taveira, Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará

Belém do Pará, (Zenit.org) Dom Alberto Taveira Corrêa | 310 visitas

O Papa Francisco realizou há poucos dias sua segunda viagem apostólica internacional, no cinquentenário do histórico encontro do Papa Paulo VI com o Patriarca Atenágoras I. Naquela ocasião, os dois protagonizaram, em significativos abraço e beijo da paz, a superação de séculos de distância e desconfiança. O mundo inteiro ficou edificado com a capacidade dos dois líderes religiosos de expressarem com poucas palavras e gestos corajosos a realização do mandamento novo de Jesus, "Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei" (Jo 15, 12). Naquele encontro, foram anuladas as excomunhões recíprocas do Grande Cisma do Oriente de 1054, um passo significativo na busca da comunhão entre a igreja de Roma e a de Constantinopla. Dali nasceu uma declaração assinada no mesmo ano de 1965, simultaneamente, num encontro público no Concílio Vaticano II e uma cerimônia especial em Istambul, mostrando o grande desejo de reconciliação entre ambas as igrejas. Cultura do Encontro!

Dali para frente, na Festa de São Pedro, uma delegação do Patriarcado de Constantinopla faz a visita de André a Pedro! Na festa de Santo André, é a Sede de Roma que envia seus representantes ao encontro do sucessor de André! Atenágoras I, figura exponencial do cristianismo do século XX, chegava a afirmar que pensava, falava e fazia o mesmo que Paulo VI, tal a comunhão de alma existente entre os dois. Em 1974 e Atenágoras I já havia falecido, no décimo aniversário do encontro da Terra Santa, Paulo VI, ao receber o chefe da delegação do Patriarcado, inclinou-se e beijou-lhe os pés, gesto certamente mais expressivo do que muitas rodadas de estudos e debates! Cultura do Encontro!

No dia 20 de março de 2013, o Patriarca Ortodoxo de Constantinopla, Bartolomeu I, convidou o novo Bispo de Roma e Sucessor de Pedro a uma viagem com ele à Terra Santa, em homenagem aos pioneiros do diálogo entre católicos e ortodoxos, como um novo símbolo de reconciliação. Agora, os dois peregrinaram juntos e realizaram um encontro igualmente histórico e simbólico, cujos frutos se multiplicarão por muito tempo para católicos e ortodoxos. Cultura do Encontro!

Papa Francisco, que ainda se encontrou com Muçulmanos e Judeus, tem se esmerado em gestos que apontam para esta cultura do encontro e mostrar ao mundo, tantas vezes levado a fazer propaganda do mal e da violência que se espalham por toda parte, que existe na humanidade uma reserva de bondade e imenso potencial para pensar e agir de forma diferente, pois Deus nos fez para a vida e a felicidade, para a salvação. Na Solenidade da Ascensão de Jesus, celebrada com muita dignidade por ortodoxos e católicos, o Santo Padre enviou à Igreja e ao mundo uma mensagem intitulada "Comunicação ao serviço de uma autêntica cultura do encontro". É que o tempo que vai da Ascensão e do Pentecostes até a vinda do Senhor, enquanto todos os cristãos clamam "Vem, Senhor Jesus", é o tempo da Comunicação da Boa Nova. A visibilidade do mistério de Cristo está agora entregue em nossas mãos, para que o Evangelho chegue até os confins da terra, semeando a Cultura do Encontro.

O Santo Padre constatou que, num mundo cada vez menor, pelos progressos feitos nos transportes e tecnologias de comunicação, as pessoas podem estar interligadas, mas persistem distâncias escandalosas entre as pessoas e classes sociais, com exclusão, marginalização, pobreza e conflitos de toda ordem, inclusive religiosos. Neste mundo, os meios de comunicação, particularmente a internet, podem ajudar a superar os muros existentes, com a condição de que estejamos prontos a ouvir e a aprender uns dos outros, harmonizando as diferenças por meio de formas de diálogo, que permitam crescer na compreensão e no respeito. Ensina o Papa que a cultura do encontro requer que estejamos dispostos não só a dar, mas também a receber de outros (Cf. Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2014). Isto é uma coisa boa, é um dom de Deus. É Cultura do Encontro!

No entanto, há o risco de que a velocidade da informação supere a nossa capacidade de reflexão e discernimento, impedindo uma expressão equilibrada e correta de si mesmo. A variedade das opiniões pode ser uma riqueza, mas é possível ficar em informações que correspondem apenas às nossas expectativas e às nossas ideias, ou interesses políticos e econômicos. O desejo de conexão pode nos isolar do nosso próximo, de quem está mais perto de nós, ou levar-nos a ignorar as pessoas que não tem acesso aos meios de comunicação social. É hora de rever corajosamente, para cultivar a autêntica cultura do Encontro!

Na mesma Mensagem, Francisco sugere alguns passos para valorizar mais e desfrutar com dignidade os Meios de Comunicação: recuperar o  sentido da calma, capacidade de fazer silêncio para escutar, paciência para compreender quem é diferente de nós, apreciar os grandes valores inspirados pelo Cristianismo, como a visão do ser humano como pessoa, o matrimônio e a família, a distinção entre esfera religiosa e esfera política, os princípios de solidariedade e subsidiariedade, entre outros. E aponta um caminho para que a comunicação esteja a serviço de uma autêntica cultura do encontro, lembrando a Parábola do Bom Samaritano. Quem comunica faz-se próximo. E o bom samaritano cuida do homem que encontra quase morto ao lado da estrada (Lc 10, 29). Comunicar-se é escolher a proximidade. Comunicar significa tomar consciência de que somos humanos, filhos de Deus. Cultura do Encontro!

Nestes dias, o Papa Francisco e o Patriarca Bartolomeu, acompanhados pela oração de todos os cristãos, percorreram estradas do mundo, onde as pessoas vivem, congestionadas de humanidade, muitas vezes ferida. Experimentaram a cultura do encontro, para levar calor e inflamar o coração, a fim de que todos se deixem envolver, no caminho de busca da verdade e do sentido da existência humana (Cf. Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, 2013). Ajudaram os cristãos a serem uma Igreja companheira de estrada, que sabe pôr-se a caminho com todos, para transmitir aos outros a beleza de Deus, construindo juntos a Cultura do Encontro.