"O ecumenismo não é política, nasce da fé

A partir de hoje até domingo, o cardeal Scola em visita a Istambul para encontrar o Patriarca Bartolomeu

Roma, (Zenit.org) Redacao | 361 visitas

"Estamos aqui com o desejo de dar mais um passo no necessário caminho em direção à unificação plena de todos os cristãos. Esta unidade, somos bem conscientes, só pode ser o fruto superabundante da graça do Ressuscitado. É Ele que sempre toma a iniciativa”. Com estas palavras o Arcebispo de Milão, o cardeal Angelo Scola cumprimentou hoje em Istambul o Fanar, sede do Patriarcado Ortodoxo, o patriarca Ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu I. A reunião retribui a visita de Bartolomeu a Milão, acontecida em 14 e 15 de maio de 2013, durante as comemorações dos 1700 anos desde da assinatura do Édito de Milão, pelo qual o imperador Constantino , fundador da cidade no Bósforo, reconheceu a liberdade religiosa.

"Queremos expressar a nossa solidariedade e nosso apoio para que se restaure plenamente a liberdade da Igreja nas vossas terras”, continuou o cardeal Scola referindo-se à difícil situação dos cristãos na Turquia. "Não existe, de fato, liberdade religiosa onde ela não é reconhecida a todos e a cada um. Embora as situações no Oriente e no Ocidente sejam diferentes – e diferentes, portanto, também os problemas a serem enfrentados - a ação em favor da plena liberdade religiosa nos encontra unidos firmemente. Uma mistura importante de etnias, culturas e religiões caracteriza a vida diária de nossas cidades. Os povos e as nações são, portanto, chamados a aprender e a aprofundar a boa prática de estarem juntos. A esta tarefa, comum a toda a família humana, nossas igrejas podem dar uma contribuição valiosa. A esse compromisso em favor da liberdade religiosa e da busca do bem comum em nossas sociedades pertencem plenamente as atividades de colaboração entre o Patriarcado Ecumênico, as Igrejas Ortodoxas e a Igreja Católica".

Daí o compromisso real anunciado em Istambul pelo Cardeal Scola: "Neste contexto queremos humildemente introduzir a contribuição da Igreja milanesa, que tem em Santo Ambrósio o seu padroeiro. Penso na boa cooperação, na atenção pastoral aos fieis ortodoxos presentes na nossa diocese. Refiro-me também ao apoio para formação e divulgação do pensamento teológico. Não deixaremos, Santidade, de incrementar tal colaboração e abrir a nossa porta para novas iniciativas”.

Após esta primeira reunião, o cardeal Scola e Bartolomeu falaram na apresentação do livro "Papa XVI Benedikt, Aziz Pavlus" (edição Fondazione Internazionale Oasis) tradução turca de 20 catequeses que Bento XVI dedicou a São Paulo durante o ano paulino 2008-2009).

A iniciativa foi organizada pela Fundação Internacional Oasis e pela Conferência Episcopal turca e contou com a presença também de Monsenhor Louis Pelâtre (vigário apostólico de Istambul), Niyazi Öktem (professor de Filosofia do direito na Universidade Dogus e Fatih de Istambul) e Erendiz Özbayoglu (professor emérito de Línguas e Literatura Latina na Universidade de Istambul).

"A primeira preocupação do ecumenismo não é política, sintonizar as vozes para fazer-se escutar melhor, mas teológica: a busca da unidade dos cristãos vem da mesma fé", disse Scola em seu discurso. O caminho pleno de unificação entre todos os cristãos “é uma troca de dons, não a busca de uma aliança estratégica”, ou um modo “de reivindicar melhor e com mais força alguns direitos”, explicou o Cardeal reiterando que “destacar isso tira também toda sombra de dúvidas que os não cristãos – no nosso caso os nossos amigos muçulmanos - poderiam alimentar sobre a finalidade da nossa atividade”.

Referindo-se à figura de São Paulo, o cardeal destacou que "os cristãos de todas as denominações (mais de um bilhão de fieis) concordam em reconhecer em Paulo uma figura central para a sua fé", de tal forma que, “qualquer um que queira conhecer o Cristianismo terá que lidar com os seus escritos". Mas São Paulo não é essencial só para os cristãos. Não se pode ignorar São Paulo “até mesmo se quero compreender a filosofia ocidental, a história ocidental, a arte ocidental ou até mesmo a política”, explicou o Cardeal.

No entanto, "se a figura de São Paulo é uma fonte permanente de inspiração à qual todos os cristãos, católicos, ortodoxos e evangélicos, podem continuamente chegar, devemos reconhecer também com realismo – disse o Cardeal que “ela é, pelo contrário, um motivo de divergência na relação com os muçulmanos. Muitos deles olham com suspeita para a obra de Saulo, não raro acusado de uma radical distorção do primitivo anúncio cristão”.

Porém, “um confronto sério” com Paulo “poderia ser muito útil para o debate em curso no Islã”. “Paulo foi o primeiro grande teórico da distinção entre letra e espírito de um texto” e justamente “uma cópia análoga de conceitos foi desenvolvida também pela exegese islâmica do Alcorão e de acordo com muitos pensadores muçulmanos contemporâneos , ela é essencial para ser capaz de combinar profundamente o Islã com a modernidade".

O encontro desta tarde é o primeiro compromisso da visita do cardeal Scola na Turquia, que secunda as iniciativas da diocese de Milão para a Semana de Oração pela Unidade dos cristãos do 18 ao 25 de janeiro. Os próximos compromissos serão amanhã, sábado, 1 fevereiro, com a visita à Faculdade teológica na ilha de Calchi, e domingo, 2 de Fevereiro com a participação do purpurado na Divina Liturgia da Apresentação no Templo.

Tradução Thácio Siqueira