O fator religioso nas eleições dos Estados Unidos

O que está em jogo neste ano crucial de 2012

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MADRID, terça-feira 10 de janeiro de 2012 (ZENIT.org) .- Publicamos a nossos leitores, em nossa seção de Observatório jurídico, um interessante artigo do nosso colaborador habitual Rafael Navarro-Valls, membro da Real Academia de Jurisprudência e Legislação da Espanha, em que analisa com precisão o que está em jogo nas eleições de 2012 nos EUA.

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Por Rafael Navarro-Valls

Acabou de começar nos Estados Unidos a maratona eleitoral que concluirá no dia 06 de novembro deste ano de 2012 com a nomeação de um novo presidente. Assim como o Partido Democrata já tem como candidato Obama, o Partido Republicano tem que percorrer um longo caminho até agosto, que elegerá na convenção de Tampa Bay (Flórida) o candidato que enfrentará o presidente eleito.

Este itinerário inclui uma série de estações intermediárias que são chamadas primárias: votações estado por estado que marcam esse largo percurso. A primeira delas acaba de acontecer no estado de Lowa. Os vencedores – praticamente empatados – entre os sete candidatos tem sido Mitt Romney, um mórmon de 61 anos e Rick Santorum, católico de 53 anos. A próxima votação é hoje, terça-feira dia 10, em New Hampshire.

Os vencedores de Iowa

Observemos de perto os contendores. Acabo de dizer que Rick Santorum é um católico, ex-senador pela Pensilvânia. Tem sete filhos e, como católico coerente com as suas convicções, é pró-vida, defensor do matrimônio heterossexual e preocupado com a educação. Em torno dele se reuniram os protestantes evangélicos e, em geral, os eleitores defensores dos valores cristãos. Seu adversário, Romney teve que superar algumas dificuldades por causa da sua religião Mórmon. No entanto, em uma recente pesquisa do Pew Research Center, o 91% dos evangélicos brancos - os eleitores republicanos mais propensos a rejeitar a religião do candidato – apoiariam a Romney se fosse designado como candidato republicano para competir com o presidente Obama.

E é que um fator que está jogando duro é a religião. Até um conhecido professor conhecido da Universidade de Notre Dame há alguns dias atrás chamou assim a sua análise das eleições em curso: "É a religião, estúpido, não a economia", colocando-a na cabeça das motivações dos eleitores. Não diria tanto, já que os problemas econômicos (desemprego e déficit público) estão muito presentes no atual contexto eleitoral. No entanto, a religião também conta, de acordo com a história dos Estados Unidos.

Até mesmo um presidente não especialmente fervoroso como Obama, tomou posse em uma cerimônia em que dois ministros protestantes fizeram considerações religiosas (um deles fazendo a invocação de Deus e o outro dando a bênção final), parte da multidão assistente rezou o Pai Nosso, o novo Presidente jurou sobre uma Bíblia (especificamente a utilizada por Lincoln numa cerimônia idêntica) e mencionou no texto do seu discurso a Deus até quatro vezes, incluindo duas invocações de assistência divina após a conclusão.

O sentido da separação da Igreja / Estado

O qual não é excepcional já que obedece uma antiga tradição americana que, com um ou outro detalhe, se repete desde que George Washington o fez em 1789. O fato objetivo que mostra essa simbologia é o significado da religião na vida pública americana. Note-se que o propósito da separação entre as Igrejas e Estado nos Estados Unidos não foi - colocado em palavras de William McLoughlin - "o de fazer os norte-americanos livres da religião, mas sim o de fazer-nos oficialmente livres para a prática da mesma".

Quer dizer-se com isto que o contexto histórico que emoldurava o tratamento jurídico do fator religioso nos EUA foi diferente do Europeu. Nos Estados Unidos, o poder político limitou-se a abolir a religião de Estado, colocando todas as igrejas numa situação de igualdade, em posse absoluta das suas propriedades e livres para organizar a sua vida interior. Foi uma separação amigável com neutralidade benévola com todas as igrejas. Algo bem diferente da intenção da Revolução Francesa, que marca o início do separatismo continental. Aqui o poder não perseguia uma separação benévola, mas uma subordinação da Igreja ao Estado.

Fica entendido dessa forma que, de acordo com estatísticas recentes, mais de 90% dos americanos entrevistados disseram que votariam num afro-americano, num judeu ou numa mulher, e um 59% estão dispostos a votar num homossexual. Apenas 49%, no entanto, estão dispostos a votar num candidato presidencial ateu.

Liberdade religiosa

No entanto, esta abordagem, que permite hoje um católico como Santorum ou um mórmon como Romney liderar a candidatura republicana precisou de um longo caminho até o triunfo definitivo da liberdade religiosa. Um exemplo: quando J.F. Kennedy começou no dia 02 de janeiro de 1960 a sua corrida em direção à Casa Branca, o fato de que um católico se apresentasse para a presidência produziu resistências. Tanto é assim que as referências à sua condição de católico foram tão constantes – principalmente nas primárias – que foi preciso enfrentar isso com certa repetição. Até que um dia estourou: "Ninguém me perguntou se eu era católica quando entrei para a Marinha dos E.U.A. Ninguém perguntou se meu irmão era um católico ou protestante, antes de que entrasse num bombardeiro dos EUA para voar sua última missão". No dia 20 de janeiro de 1961, como primeiro presidente católico da história, se sentava no Salão Oval.

Hoje é absolutamente normal que os católicos tenham acesso a cargos públicos, sem problemas particulares. Por exemplo, de um total de 435 congressistas dos EUA existem atualmente 135 católicos (31,03%). E o esforço das organizações católicas sobre questões sociais é especialmente valorizado. Não se esqueça que todos os anos, as organizações católicas investem cerca de 30 bilhões de dólares em serviços sociais e educativos.

Das eleições de 2004 às de 2012

Entendemos assim como nas eleições de 2004 se enfrentaram um católico (Kerry) com um protestante (Bush), mas sem reproduzir as tensões entre católicos e protestantes que existriam no confronto Nixon/Kennedy. Se falou de aborto, pena de morte, células-tronco, matrimônio homossexual, pedofilia entre o clero, etc, mas não de "relações de obediência dos católicos romanos com a sua Igreja".

A divisão ocorreu entre os eleitores “devotos” (protestantes ou católicos) e os chamados cristãos "self-service" (católicos ou protestantes), que praticam mais ou menos, mas que geralmente não seguem as indicações das suas Igrejas sobre temas controversos. Algo semelhante aconteceu nas eleições de 2008: seis précandidatos católicos começaram a corrida eleitoral e foi nomeado vice-presidente outro católico: J. Biden, embora não totalmente ortodoxo em suas opiniões sobre questões morais.

Historicamente os católicos, tradicionalmente, tenderam ao voto demócrata. Os republicanos representavam o eleitor branco e protestante. A tendência mudou com Reagan, como explicado por Michael Novak. Reagan compreendeu que uma das chaves do voto dos católicos era e é a família. A ênfase na família fez que ele ganhasse um apoio importante do voto dos católicos, que logo voltou aos democratas, com Clinton, e agora está – refiro-me aos católicos ativos – com aqueles candidatos que apoiam os valores cristãos. O Religion News Service sublinha que, durante o último período do século, os católicos ativos e os evangélicos brancos cada vez votaram mais nos republicanos, convertendo a oposição ao aborto e ao matrimônio entre pessoas do mesmo sexo em temas políticos importantes.

Talvez por isso, um dos fatores que está desempenhando um papel importante nas eleições atuais são as últimas políticas sociais de Obama sobre o aborto, os matrimônios entre pessoas do mesmo sexo e a política exterior de apoio ao controle populacional através da esterilização e da contracepção. Por exemplo, a administração Obama acaba de retirar os subsídios públicos ao Office of Migrations and Refugee Services, o organismo governamental de atenção a emigrantes e refugiados mais importante dos Estados Unidos. Levado pelos bispos dos EUA desde 2006, atende o 26% do total de imigrantes que chegam à União Americana, cobrindo um campo que o Estado não chega, em aspectos como o combate da prostituição de mulheres imigrantes e o comércio de órgãos. A verdadeira razão foi que este organismo se negava a financiar abortos. Os bispos protestaram energicamente declarando que “parece que existe uma nova regra não escrita do Departamento de Saúde. É a regra do ‘abc”: Anybody But Catholics (Todos, menos os católicos)”. Isso também irá ter consequências eleitorais.

[Tradução do espanhol aos cuidados de Thácio Siqueira]