O homem e a mulher a quem a Igreja é chamada a evangelizar na África

Entrevista com Dom Lúcio Andrice Muandula, presidente da Conferência Episcopal de Moçambique

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ROMA, quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012 (ZENIT.org) – Dom Lúcio Andrice Muandula é Bispo de Xai-Xai e Presidente da Conferência Episcopal de Moçambique (CEM). Ele esteve em Roma para o encontro internacional “Em direção à cura e à renovação” e para o II Simpósio dos Bispos da África e Europa sobre “A evangelização hoje:Comunhão e colaboração pastoral entre a África e a Europa”. 

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O senhor poderia falar sobre “o homem e a mulher a quem a Igreja é chamada a evangelizar na África”, tema de sua apresentação no Simpósio?

Dom Lúcio: Tratei deste tema porque me foi pedido, mas não faz propriamente parte do meu âmbito de formação. Na verdade, todos nós temos que ser um pouco antropólogos porque somos missionários. À luz deste tema, percebi que não se poderia conhecer o destinatário do evangelho sem perceber a alma do povo africano e acho que as religiões tradicionais africanas têm algo que nos indica e nos chama a atenção para como o homem africano está em contato com o mundo, com os outros e também com Deus, de alguma maneira.

Como o homem africano está em contato com o mundo?

Dom Lúcio: Nos anos em que andei a fazer meus estudos de filosofia, percebi que a afirmação de Descartes - cogito, ergo sum - era uma afirmação importante para definir um pouco aquilo que o homem ocidental é. É um ser que pensa e nós, os africanos, não nos definimos muito como o ser que pensa; também pensamos, na consciência, na inteligência; tudo isso conta, mas nos definimos em relação aos outros, eu sou porque convivo com os outros, estou com os outros. E é ai onde a centralidade do corpo humano encontra espaço, não posso ser se não tenho corpo.

Isso tem muitas consequências, o cuidado que se tem do próprio corpo, do corpo dos outros e é daí também que muitas coisas que em outros mundos não são tabu, para nós são tabu. Certo que com a globalização, está também a entrar, penso, por exemplo, no modo como se está na praia aqui na Europa, o modo como nos vestimos; não digo que não existe em Moçambique, existe também por causa da tal globalização. Mas se vamos para o interior, ninguém sai vestido assim estando numa praia. Tem a ver com o modo como eu olho para o meu próprio corpo, como mostro meu corpo, porque é esta parte de mim mesmo que está em relação comum com todos. Não há um fechamento, mas há um cuidar mais do corpo do quanto se cuida noutras culturas.

Certo, todos nós cuidamos do corpo como aspecto da nossa saúde física, mas falo aqui também de um cuidado que tem neste elemento a parte espiritual. Porque através do corpo, mesmo aquele que é coxo ou aquele que é estropiado, enquanto tiver um corpo não se lamenta tanto do que se lamentaria por estas partes, porque tem a possibilidade do contato com o outro e com o mundo que o rodeia. Também poder dirigir-se a Deus através dos antepassados que é o mais comum entre as religiões tradicionais africanas.

Qual seria a novidade do Cristianismo para o sofrimento?

Dom Lúcio:Penso que a grande novidade é o mistério da cruz, onde temos um corpo despojado, digamos, de tudo aquilo que dignifica a veste humana, no caso de Jesus Crucificado. E não obstante isso, continua a entrar em diálogo com os seus ou com a humanidade e com Deus. Esta frase pequena de Jesus pronunciada do alto da cruz  - Pai perdoa-lhes porque não sabem o que fazem -  é um momento de também dialogar com esta questão. Questão que causa esta dor ao próprio corpo e por outro lado é um voltar-se para Deus.

Jesus fala ao Pai com toda essa dimensão humana do ser que se pronuncia através do próprio corpo e que olhando para o seu corpo ferido pede, também por aqueles que causam essa dor, o perdão. Mas também é um corpo que não deixa de comunicar-se com os outros, os dois que estão crucificados, um de um lado e outro do outro, junto à cruz de Jesus. O bom malfeitor, no fim, reconhece o mal que está a cometer e recebe o perdão para si. Pede para participar, digamos, desta vida nova que Jesus vem trazer.

Eu olho para este mal feitor, ferido também ele, um pouco como o povo africano; ferido nas suas tantas dores, pode encontrar a salvação. É a grande novidade que o Cristianismo pode levar. Justamente por isso, a evangelização não atingiu a alma de tantos dos africanos. De manhã, vão à igreja nos domingos e a tarde vão a uma seita ou correm para uma igreja de tipo pentecostal; porque lá se reza pelos doentes, impõem-se as mãos, procuram descobrir a razão pela qual a pessoa está doente ou inventam razões pelas quais a pessoa está doente.

O que as religiões tradicionais africanas oferecem?

Dom Lúcio: Justamente por que o homem africano se centra no seu corpo, quando tem dores de cabeça que não passam, não aceita que seja uma simples hemicrania, não se contenta com os medicamentos. Vai atrás do motivo espiritual. O que é que a nível do meu ser não esta bem? Ou a nível da minha relação com os antepassados, com a natureza que me circunda? Há alguma coisa que não esta a correr bem, daí que ele vai à religião tradicional; consultar o adivinho, o curandeiro, para saber o que não está bem e poder reparar. Recriar este equilíbrio de que eu falava na minha reflexão na conferência.

Então, o corpo é muito importante, mas o Cristianismo está acima disto, até porque há autores da antropologia africana que afirmam que Jesus pode ser visto também como um antepassado que guia o seu povo. Neste sentido, dos grandes antepassados da cultura africana, que são uma luz no modo como enfrentam os sofrimentos, no modo como enfrentam os desafios da vida, são uma luz para outros irmãos africanos e Jesus pode ser visto assim. Seria um limitar, digamos, aquilo que Jesus é na sua essência vê-lo somente como simples antepassado mais velho que nos guia, mas se pode a partir daí entrar para estes aspectos de sua divindade que provou o sofrimento da nossa humanidade; e que nos abre a porta para participarmos da vida divina, superando todas as contrariedades e vicissitudes que experimentamos neste mundo.

Um caminho para a Nova Evangelização seria reavivar os dons do Espírito Santo?

Dom Lúcio: A Igreja nasce do Pentecostes, e o Espírito como diz o livro do Ato dos Apóstolos, está presente em toda a ação da Igreja e se estende pelo mundo inteiro. O espírito está no centro, e o Senhor mesmo diz no Evangelho segundo São João, vou mandar-vos o Paráclito, aquele que vos há de confortar, de guiar, e vos há de ensinar o que deveis dizer e quando deveis dizer. Portanto, não é uma novidade que o Espírito tem que estar no centro. Quando João Paulo II começou a falar muito de Nova Evangelização, acentuou dois aspectos - nova evangelização nos seus métodos e no seu vigor - e penso que estas duas características são fundamentais.

Qual é a novidade na Evangelização?

Dom Lúcio: A evangelização é a mesma, não vamos mudar os conteúdos da evangelização, nem os destinatários, que é a humanidade inteira, mas é possível melhorar a metodologia e por isso, neste Simpósio, a questão era - a que homem nos dirigimos na África-.

A Nova Evangelização não pode ter o mesmo estilo na África, na Europa, na Ásia ou na América Latina; tem que ter uma coloração diferente que se adapta às questões concretas de cada lugar, ao homem concreto que está no lugar. Na tentativa sempre de levar Cristo à sociedade, à humanidade, porque é aquilo que queremos comunicar. É levar o homem contemporâneo a entrar em contato com Cristo, a acolher a graça de Deus que Ele nos comunica e entrar em comunhão com Deus. São João expressa isso melhor na sua primeira carta, diz: Aquilo que nós vimos, ouvimos e tocamos do verbo encarnado - é isso que nós comunicamos - para que estejaisem comunhão. Ea nossa comunhão é com Deus através de Cristo a quem nós acolhemos.

Penso que a missão evangelizadora é esta, e a nova evangelização se não levar a isso, levar a outras práticas, que imitam outras religiões, neste caso as religiões pentecostais, não condiz. Agora, que se fala pouco do Espírito Santo na Igreja Católica em alguns ambientes, sim, é preciso recuperar este dado fundamental.

A evangelização não é uma obra humana, é uma obra divina, e Deus se faz presente através de seu espírito e Jesus falou tanto desta realidade. Aliás, no Evangelho segundo São João diz que: Antes de mandá-los, soprou para eles, como a dar esta força do Espírito Santo, assim como o Pai me mandou eu também vos envio. Então, o Espírito Santo está no centro da nossa missão e, muitas vezes, estamos esquecidos disso e inventando as nossas metodologias. Pensando que tudo é uma questão das nossas organizações, mas não é.  A verdadeira evangelização parte de uma missão recebida de Deus, e Deus nos dá também os meios necessários para realizarmos esta missão para a qual nos manda.

Por Maria Emília Marega

[A segunda parte da entrevista será publicada na sexta-feira, 24 de fevereiro]