O homem e a mulher a quem a Igreja é chamada a evangelizar na África

Dom Lúcio Andrice Muandula, presidente da Conferência Episcopal de Moçambique

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ROMA, sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012(ZENIT.org) - Publicamos a seguir a segunda parte da entrevista com Dom Lúcio Andrice Muandula, Bispo de Xai-Xai e presidente da Conferência Episcopal de Moçambique (CEM). 

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Quais são os principais frutos do II Simpósio dos Bispos da Europa e da África?

Dom Lúcio: Este Simpósio, além de outros encontros que temos realizado em grupos menores, é já a realização de uma expectativa grande, aquela de não trabalharmos cada um por sua conta. 

Há muita gente da África que vem a Europa, mas muitas vezes, aliando ao projeto de evangelização outros interesses, para conseguir coisas pessoais, não só para as comunidades. Assim como muitos missionários vão para a África, com interesses já desenhados a partir daqui, com uma mentalidade de evangelização própria, sem dar espaço a um diálogo.

 O sentarmos e falarmos juntos deste tema de evangelização, para mim, é o começo da realização deste projeto de comunhão; muito mais factual muito mais palpável na medida em que eu estou a ouvir neste encontro, quais são as características ou as necessidades fundamentais da Europa, mas ao mesmo tempo eles estão a ouvir quais são as nossas.

Do que a África precisa?

Dom Lúcio: Muitas vezes se pensa que o que a África precisa é de meios materiais, de dinheiro, também precisamos disso; somos países em vias de desenvolvimento, não temos muitos meios. Estou a pensar nos quilômetros que tenho de andar em estradas de terra batida; naturalmente preciso de uma viatura para percorrer600 km dentro da minha diocese e muitas vezes esta viatura depois de 4 ou 5 anos já não pode mais fazer nada e preciso de outra.

Nisto a Europa tem nos ajudado muito, mas sinto que já estamos a passar deste plano de uma ajuda material para o plano da ajuda no âmbito de uma evangelização mais concreta. Daquilo que é o mandato do Senhor - Ide, ensinai, fazei para mim discípulos e batizai-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo - como dizia na minha reflexão, isto é emergi-los na realidade da vida divina, para que possam participar desta vida.

Vejo que estamos a dar passos muito palpáveis e é bonito perceber que começamos a dialogar, a nos ouvirmos uns aos outros.

O Papa Bento XVI, disse em seu discurso aos representantes da Fundação JPII para o Sahel que a “África é para a Igreja o continente da esperança”. Como o Senhor acolhe estas palavras?

Dom Lúcio: Eu acolho com muita alegria. O Papa, muito atento a realidade humana, tem sempre dito coisas bonitas, não só sobre a África, mas eu como africano devo falar daquelas coisas que ele diz a respeito da África.

O Papa não está muito preocupado, e dizia no encerramento do último Sínodo dos Bispos para a África, que não é propriamente de dinheiro e de bens materiais que a África precisa, mas é de encontrar Cristo.

Cristo que diz: Levanta-te e anda e devolve à África a dignidade que a África precisa para caminhar. De fato, a África é uma fonte de riqueza neste momento, falemos da madeira, estamos sofrendo como no Brasil o desflorestamento. Temos vários recursos no subsolo e não obstante tudo isso, continuamos na pobreza. A pergunta é: Onde toda essa riqueza vai terminar? Justamente porque estamos paralisados.

E o Papa fala de devolver a dignidade aos africanos, para que possam levantar-se e caminhar, e saber usar os recursos que tem para uma vida melhor.

E quais são os desafios em devolver a dignidade ao povo africano?

Dom Lúcio: Há muita corrupção na África, mas penso que o Evangelho ajuda muito, por isso na minha reflexão eu dizia que a evangelização e o desenvolvimento caminham juntos.

O que serve dar uma enxada hoje para cultivar a terra se amanhã não serve mais e não tenho nada para cultivar? A coisa melhor é ajudar o povo a fazer suas próprias enxadas, a ir para frente.

Para isso, falta uma ajuda que vai além dos bens manterias; na formação, no encorajamento, no estar juntos, justamente o que falei sobre o Brasil na minha intervenção. Estamos a falar sobre as ajudas concretas que um continente pode dar ao outro. Temos uma experiência que estou tentando por de pé com a Conferência regional dois dos Bispos do Amazonas.

Eles pediram alguns padres para enviar e eu dizia que são poucos os que tenho. Mas uma coisa é possível - um Bispo brasileiro tem dois sacerdotes e eu também tenho dois - me mande os dois e eu também mando dois.

Os meus virão enriquecidos do Brasil, de uma mentalidade nova, de um modo de estar com as comunidades novo e também os brasileiros vão voltar enriquecidos. Então, mais do que trocar bens materiais, penso que seja possível, e eu propus isto na Assembléia Plenária, não só no que se refere aos sacerdotes, mas também aos leigos.

Porque é que o Brasil, sobretudo o Amazonas, usa muito a mandioca, e faz muitas coisas, de cozinhar e nós morremos de fome porque não temos comida, só temos mandioca.

Uma família brasileira pode passar seis meses a ensinar outras famílias a usar melhor o que tem, usar melhor a fruta. Eu vi que no Brasil usam muitas frutas para fazer suco e nós temos frutas a apodrecer.

Ajudar não significa mandar muita comida para Moçambique, mas ir lá, viver com os africanos, ajudá-los a superar. E também que os africanos possam ir ao Brasil e levar alguma coisa de próprio; ensinar aos outros como é que nós vivemos, o sentido de viver como comunidade; este respeito pelo corpo, que estamos a falar, como nos relacionamos uns com os outros.

Tudo isso enriquece uma cultura e outra, então, penso que o diálogo não deve ser mudo, onde trocamos simplesmente bens, mas deve ser um diálogo aberto e sincero. Onde também trocamos valores. Prefiro este tipo de diálogo onde há trocas de bens onde não se tira também a nossa dignidade. Apesar de não termos muitos bens materiais, temos um coração. Temos algo interior que podemos também partilhar e colocar a disposição dos outros.

E penso que este é o caminho que o Papa está a nos propor, quando fala da relação entre um continente e o outro. Há sempre algo de riqueza que podemos dar aos outros.

Ouvimos falar muito sobre a vida comunitária e fraterna na África, enquanto na Europa ouvimos falar sobre o individualismo. Essa é a riqueza que o Africano trás para o Europeu?

Dom Lúcio: Penso que sim, essencialmente sim, este viver juntos. O africano não é capaz de definir-se como um ser isolado dos outros, defini-se sempre em relação com os outros. Não é capaz de dizer eu sou rico e contentar-se de ser rico, enquanto os outros estão na pobreza.

Não estou a dizer que somos todos iguais na África. Há quem tem um pouquinho mais, e se calhar, entrou com a tal globalização e com a corrupção, a mania de acumular bens.

Antigamente não era assim, nas aldeias não é assim. Há muito mais solidariedade. Por exemplo, está a chover muito na minha diocese, quando sai havia casas completamente alagadas, gente com medo das cheias como tivemos no ano 2000. Graças a Deus, parece-me que não vamos chegar àqueles níveis em que a cidade de Xai Xai ficou submersa, e casas ficaram destruídas.

É bonito perceber que, ao mesmo tempo em que estendemos a mão a gritar socorro, pedindo a ajuda de quem tem, particularmente da Europa, os vizinhos, aqueles mais próximos, as comunidades por mais pobre que sejam, são os primeiros que acolhem.

Na nossa Caritas Diocesana, incentivamos muito isto. A entre ajuda, um pouco querendo interpretar o Ato dos Apóstolos; os primeiros apóstolos, no dia de Pentecostes, já que falamos do Espírito Santo, eram assíduos a escuta da palavra. Alimentamo-nos da palavra para compreender como é que Deus pensou a relação entre nós, a tal fraternidade.

E diz que eram assíduos à comunhão fraterna, o que é esta comunhão fraterna? Nós insistimos em dizer às comunidades de não ser indiferentes à dor do outro. Há crianças que ficaram órfãs porque pai e mãe morreram com o HIV, o que fazemos? Tem famílias que acolham na própria família, já tendo 5 ou 6 filhos, acolhem mais 2 ou 3 para ajudá-los a crescer. Esta não é só solidariedade humana, mas é, de fato, fraternidade. A fraternidade supõe que temos um pai comum, e somos irmãos, e vêm em Deus este pai comum, que nos obriga a estarmos atentos uns aos outros, a nos ajudar.

Depois, a assiduidade a eucaristia e assiduidade a oração, mas, sobretudo queria vingar esta assiduidade a comunhão fraterna. Nós nos ajudamos mais do que se ajuda aqui no ocidente.

Se morrer alguém em um destes prédios, não só nos damos conta que passou um mês e já não vemos aquela pessoa, mas os vizinhos estão ali e não foram avisados e mesmo que avisados, não vão ao funeral. É diferente na África, a aldeia toda pára porque morreu alguém e vamos ao funeral, mesmo se não nos falávamos, é importante que eu participe do funeral e não devo faltar.Se tiver alguém doente, todos nós paramos, nos preocupamos. O tal desequilíbrio da sociedade - se um não está bem, todos nós não estaremos bem - é preciso ajudá-lo a superar aquela situação.

Penso que há muito mais comunicação e isso a África pode, encontrando espaço na Europa, também dar aos outros. E não dá, muitas vezes, e passa pouco desta mensagem, justamente, porque aquilo que eu dizia antes, há quem olha para o outro, numa atitude em relação ao outro de quem vem de um país subdesenvolvido, não tem nada a oferecer; tem é a receber de nós. Então, também não espero que me diga nada.

Este encontro está a provar o contrário, que a preocupação dos Bispos da Europa neste momento é de dizer - bom , sim, nós vemos que nas nossas paróquias onde estão alguns africanos estão a ajudar-nos a reencontrar Deus. Como é que podemos melhorar esta relação? Como é que podemos crescer nesta direção?

E nós também notamos que pela África também tem um maior interesse, não só mandar dinheiro, mandar coisas, mas o ir até lá, até a África. Através do voluntariado e de tantas outras formas, e os missionários são uma testemunha disso. Desde os tempos passados, que eles vão para a África e evangelizam, alguns são prisioneiros em África, no sentido de não conseguirem deixar o continente. Justamente porque descobriram que se trata de troca de dons espirituais, humanos e de valores. Se sentem bem lá, sentem-se em casa e menos integrados aqui na Europa quando voltam de férias ou para ficar definitivamente.

Maria Emília Marega