O livro negro da cristofobia

Entrevista com o escritor Renè Guitton

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Por Antonio Gaspari 

ROMA, domingo, 14 de março de 2010 (ZENIT.org).– Já se passaram 1977 anos desde a crucificação, em Jerusalém, de um homem que se dizia filho de Deus.

No curso da história, seus seguidores, os cristãos, foram muitas vezes perseguidos e massacrados.

Pensava-se que o avanço da civilização eliminaria os fenômenos de perseguição religiosa, mas, ao contrário, neste início do terceiro milênio, há ainda muitos lugares no mundo nos quais a cristofobia ainda ofende, discrimina e mata.

No Oriente Médio, as crescentes perseguições têm obrigado os cristãos a fugirem da região onde nasceu o próprio cristianismo.

Em Maghreb, na África subsaariana e até mesmo no extremo oriente, os cristãos ainda são assassinados aos milhares.

O saque de casas e igrejas, a profanação de cemitérios tornam-se ordem do dia, assim como crucificações, queima de pessoas vivas, mutilações e decapitações.

Tudo isto ocorre enquanto a comunidade internacional silencia, aparentemente esquecendo-se do fato de que “a liberdade de pensamento, de consciência e de religião” é garantida pela Declaração Universal dos Direitos do Homem.

René Guitton, infatigável viajante entre o Oriente e o Ocidente, dedicando-se à luta pelo diálogo entre as culturas e civilizações, contra o racismo e o anti-semitismo, sempre baseando-se em fontes de credibilidade incontestável, em meticulosas pesquisas in loco e no testemunho direto dos protagonistas – líderes políticos e religiosos, missionários, ou simplesmente pessoas comuns – escreveu o livro “Cristofobia. A nova perseguição”, publicado na Itália pela editora Lindau.

No livro, Guitton escreve: “também os judeus e os muçulmanos são perseguidos, mas o reconhecimento de seu sofrimento não pode se dar ao preço da negação do sofrimento por parte dos cristãos. Haveria por acaso vítimas boas e vítimas más, vítimas das quais devemos falar e outras sobre as quais deveríamos nos calar?”.

“Nosso silêncio remete a outros silêncios de amarga memória”.

O escritor francês é autor de diversos outros livros, entre os quais estão “O príncipe de Deus”, “Abraham, le messager d’Haran e Si nous nous taisons” e “Le martyre des moines de Tibhirine”. Ganhador de vários prêmios, é membro do comitê de especialistas da Aliança das Civilizações das Nações Unidas.

ZENIT teve o prazer de entrevistá-lo.

- Ainda que este terceiro milênio se apresente como o início da era dos direitos humanos, é evidente que os cristãos são ainda fortemente perseguidos em várias partes do mundo. Poderia nos dizer em quais países isso acontece e por quê?

- Guitton: É necessário distinguir entre os países em que ocorrem perseguições sem violência física, dos países em que os cristãos são alvo de violências.

Na Turquia, por exemplo, a menção à religião é obrigatória na cédula de identidade, como também na Indonésia e no Egito. Professar a fé cristã nestes países de maioria muçulmana cria muitos problemas de discriminação, inclusive em termos de trabalho, o que faz com que, na prática, os cristãos sejam considerados cidadãos de segunda classe.

A situação dos cristãos é também péssima nos territórios palestinos, onde os cristãos nativos, nascidos na terra onde nasceu também Jesus, correm o risco de desaparecer por completo.

Nesta parte do mundo, os cristãos são objeto de todo tipo de pressões, intimidações e ameaças, a ponto de alguns fundamentalistas sustentarem a tese de que o Oriente deva ser exclusivamente muçulmano e de que os cristãos deveriam migrar para o Ocidente. Os cristãos da Terra Santa estão sendo pressionados a abandonar a terra de Cristo e refugiarem-se no Ocidente.

No Egito, a perseguição é ainda mais violenta. O país hospeda a organização fundamentalista conhecida como a Fraternidade Muçulmana, que precede à Al-Qaeda. A Fraternidade Muçulmana representa o extremismo islâmico no Egito. Suas posições e atos de violência foram amplamente denunciados por Gamal Abdel Nasser nos anos cinquenta.

A Fraternidade está por detrás do assassinato do presidente Anwar El Sadat, e, nos últimos anos, conseguiu obter um peso significativo na política através das eleições. Por este motivo, o governo egípcio tem dificuldade em combater os grupos extremistas. Esta postura de complacência acaba por estimular atos de violência contra os cristãos egípcios.

O fato é que os atos de violência contra os cristãos egípcios são frequentes. A polícia, que é composta basicamente por muçulmanos, não interfere de modo adequado, e o governo não toma medidas concretas para interromper as perseguições.

Ocorre que, quando cristãos são assassinados, as mulheres cristãs devem fazer uso do véu islâmico para não serem incomodadas, e por vezes as viúvas são forçadas a casarem-se com muçulmanos.

No Iraque, os cristãos, que outrora gozavam de proteção, estão sendo hoje massacrados todos os dias, e as autoridades não interferem.

É verdade que este país vive uma situação de plena emergência, mas a proteção aos cristãos que vivem no norte não está entre as prioridades. Os cristãos têm sido alvo de assassinatos e seqüestros. O projeto é claro: pretendem escurraçá-los do Oriente, uma vez que, aos olhos dos extremistas, constituiriam aliados da América cristã que conduz sua “cruzada” no Iraque. O cenário dos extremistas é sempre o mesmo: um Oriente muçulmano e um Ocidente cristão.

Da mesma forma, no Paquistão, a recente aprovação da “lei contra a blasfêmia”, na prática autoriza a violação de direitos humanos.

Na Argélia, as motivações dos grupos fundamentalistas são semelhantes aos do Egito. A atitude do governo com relação aos extremistas está circunscrita à política de reconciliação nacional, implementada após o fim da guerra civil que castigou o país entre 1993 e 2000.

Para não confrontar os partidos islâmicos, o governo hesita em reagir às perseguições anti-cristãs.

Na África subsaariana, a Nigéria esta constantemente nas primeiras páginas dos jornais pelos massacres perpetrados contra cristãos. Há casos de igrejas incendiadas durante a missa com os fiéis dentro.

Registram-se ataques contra cristãos também no Sudão.

O objetivo do meu livro não é, de forma alguma, promover qualquer forma de islamofobia, mas sim de defender os direitos humanos contra o terrorismo, seja qual for sua origem.

Na Índia os cristãos são perseguidos por fundamentalistas hindus. Centenas de cristãos foram mortos na província de Orissa, e a ação das autoridades foi débil e inadequada. No Sri Lanka, os cristãos estão sendo massacrados por radicais budistas.

É um fato que, a partir do 11 de setembro, observou-se um aumento no número de atos anti-cristãos por todo o mundo. O extremismo, de todas as proveniências, foram encorajados por estes eventos.

- Seja nos países de maioria muçulmana, sejam os antigos regimes comunistas, seja o fundamentalismo de outras religiões... todos perseguem os cristãos. Por quê?

- Guitton: Naturalmente, os assassinatos e massacres são eventos inaceitáveis. As motivações dos anti-cristãos são um terreno fértil, no qual se propagam doutrinas falsas e perigosas, principalmente a da imagem de um Oriente muçulmano e um Ocidente cristão. Esquece-se que, na verdade, o cristianismo nasceu no Oriente, e que os cristãos do Oriente são nativos de países nos quais o cristianismo precedeu aos Islã em sete séculos.

A cristianofobia tem origem em preconceitos embasados na ignorância e leva a todo o tipo de violência. Para responder a estas tendências, é necessário fomentar a educação e o diálogo, e fazer uso da pressão econômica para por fim às discriminações.

- Pode parecer paradoxal, mas há uma forma de cristofobia também nos países onde se desenvolveu a civilização cristã. Poderia citar alguns exemplos e explicar por que isto ocorre?

- Guitton: Aquilo que poderíamos chamar de “Cristofobia” ocidental está ligado ao conceito de laicismo.

O princípio da laicidade não deve ser entendido como a negação da religião; ao contrário, é a legitimação da prática de todas as religiões, sem qualquer interferência por parte do Estado.

A deturpação deste conceito produziu o “laicismo fundamentalista”, que gera fenômenos de cristofobia e outras formas de desrespeito às práticas religiosas.

- O que podemos fazer para promover o direito à liberdade religiosa e como a comunidade internacional deve se mobilizar para proteger as vítimas e evitar a propagação do fundamentalismo e da intolerância?

- Guitton: A solução justa é difícil de alcançar. Pressões políticas e econômicas poderiam ser exercidas por instituições como a União Europeia. Por exemplo, a Turquia manifestou seu desejo de ingressar à UE; esta poderia requerer, visando harmonizar as legislações, que a Turquia revogasse a lei que exige a menção à religião nos documentos de identidade.

Por meio da UNESCO, pode-se intervir em áreas como a educação e a assitência, especialmente em regiões pobres, como a Palestina.

Serão necessários também auxílios econômicos, como ocorre hoje com o novo governo Iraquiano e com os líderes do Hamas em Gaza, que necessitam urgentemente de fundos para a reconstrução.

As organizações não-governamentais (ONGs) podem atuar de maneira discreta, assim como, naturalmente, a Santa Sé. Uma das medidas prioritárias é conceder vistos para os cristãos iraquianos que se refugiam na Europa. Diversos países da União Europeia têm agido neste sentido, mas alguns lideres cristãos do Iraque sustentam que esta política vai de encontro aos interesses daqueles que gostariam de ver o Oriente Médio livre de cristãos.

“Ajudem-nos a permanecer, não a partir”, gritam desesperados os cristãos iraquianos. É importante entender a urgência deste apelo. É preciso agir - e agir rapidamente.

- Quais são os motivos que o levaram a escrever este livro, e quais são suas expectativas?

- Guitton: Escrevi este livro porque fiquei chocado com os testemunhos que coletei. Em meu trabalho, viajo frequentemente para a África, Oriente Médio e Extremo Oriente, e percebo que, ao longo dos últimos anos, a situação é de crescente preocupação.

 A situação de discriminação e perseguição torna-se ainda mais odiosa dado o silêncio do Ocidente.

Por demasiadas vezes, os meios de comunicação se calam diante destas injustiças. Preferimos lembrar apenas dos ataques contra minorias ocorridos em nosso próprio país.

Não há dúvida que qualquer ato de discriminação contra muçulmanos ou judeus é inaceitável, mas é também inaceitável discriminar as vítimas. Não pode haver vítimas das quais falamos e outras sobre as quais nos calamos.

Assim, qualquer ação de discriminação me causa revolta, e em particular, os atos anticristãos.

O silêncio pode ser culpável, como aliás já foi observado em outras ocasiões na Europa, especialmente após a conferência de Mônaco de 1938.