O lugar do Islã no plano de salvação? Remeter Deus ao centro

Entrevista com o famoso islamólogo Pe. Samir Khalil Samir

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Por Mirko Testa

ROMA, sexta-feira, 25 de junho de 2010 (ZENIT.org) – Diante de uma modernidade que tende com frequência a esquecer ou mesmo excluir Deus do horizonte dos homens, o papel confiado ao Islã no plano da Salvação poderia ser o de estimular a remeter a fé ao centro da vida

É o que pensa Pe. Samir Khalil Samir, sacerdote jesuíta e relator geral do Sínodo Especial para o Oriente Médio, a ser realizado em outubro deste ano no Vaticano. Nesta entrevista concedida à ZENIT por ocasião do encontro do comitê científico da Fundação Oasis, Pe. Samir aprofunda a questão do papel da cultura islâmica no mundo contemporâneo.

Doutor em teologia oriental e Islamologia, Pe. Samir leciona ciências da religião na Université Saint-Joseph de Beirute e é professor de estudos islâmicos junto ao Pontifício Instituto Oriental de Roma e em outras universidades.

É ainda fundador e diretor do CEDRAC (Centre de documentation et de recherches arabes chrétiennes), com sede em Beirute, único centro no mundo dedicado integralmente ao estudo da cultura árabe mantido por cristãos.

ZENIT: Porque o tema central do encontro da Oasis foi a educação?

Padre Samir: O problema que hoje vivemos, seja na Igreja, seja no Islã, é que nem sempre conseguimos transmitir a fé às novas gerações. A pergunta que nos fazemos é: de que maneira devemos repensar a fé para os jovens - também nas paróquias e mesquitas, nos discursos dirigidos a seus fiéis?

É isso o que pretendemos: fazer uma avaliação de qual é, no Líbano, a experiência cristã, a experiência muçulmana sunita e a experiência muçulmana xiita neste âmbito. Queremos comparar, colher as dificuldades comuns e buscar respostas em conjunto. Creio que este seja o objetivo primordial de nosso encontro, em vista de um diálogo entre as culturas de fé cristã e de fé muçulmana.

ZENIT: Que efeitos poderiam ser produzidos nos mundos cristão e muçulmano com o desaparecimento das Igrejas do Oriente Médio?

Padre Samir: O desaparecimento das Igrejas no Oriente Médio seria, em primeiro lugar, uma perda para toda a cristandade pois, como dizia João Paulo II, a Igreja tal qual vivida por cada ser humano conta com dois pulmões, o oriental e o ocidental. Ora, as Igrejas orientais tiveram sua origem aqui na Terra de Jesus, nos territórios do Oriente Médio por onde Cristo passou. E se essa experiência, estes milênios de tradição forem perdidos, a perda será de toda a Igreja.

Mas não é só: se os cristãos deixarem o Oriente Médio, faltaria aos muçulmanos justamente aquele elemento de diversidade que os cristãos oferecem. Diversidade de fé, porque os muçulmanos nos perguntam todos os dias: “o que querem dizer ao afirmar que Deus é trino? Isto nos parece contraditório”. E nós dizemos “o que querem dizer quando afirmam que Maomé é um profeta? Quais são os critérios que para vocês definem um profeta? E o que significa dizer que o Corão é de Deus? Em que sentido vocês afirmam descender de Maomé? Nós cristãos dizemos que a Bíblia é de inspiração divina porém mediada por autores humanos, mas, para os muçulmanos, não há mediação com Maomé.

Questionamentos como estes oferecem ainda um estímulo para a civilização e para a sociedade civil. Seria uma grande perda porque há o risco de assim erigir uma sociedade, um Estado, baseado na sharia como ocorreu no século VII na região da Península Arábica, ainda que para os muçulmanos a sharia é genérica e permaneça válida para todos os séculos e todas as culturas.

Este é o principal desafio do Islã: como pensar o Islã hoje? A ausência dos cristãos tornaria este problema ainda mais difícil. 

ZENIT: Poderá haver um Iluminismo para o Islã?

Padre Samir: Para o ocidente e para a Igreja, o Iluminismo representou uma renovação na concepção da fé, que se permitiu inspirar-se pela cultura e pela crítica a ele associados. O Iluminismo significou trazer plena luz sobre a realidade da fé. O risco para quem crê é o de partir apenas do fenômeno religioso, que é uma dimensão parcial da vida humana e da vida da sociedade.

Se não confrontarmos este fenômeno religioso com a ciência, com os direitos humanos, com o desenvolvimento da psicologia e das ciências humanas e com as diferentes culturas do mundo, não alcançaremos um cristianismo aberto ou, no caso concreto, um Islamismo aberto.

A sua pergunta é: seria o Islã capaz de um movimento de cunho iluminista? Em tese, sim. Temos exemplos históricos nos séculos IX e X. Este foi um Iluminismo suscitado por cristãos siríacos provenientes da Síria, da Palestina e do Iraque, que haviam assimilado a cultura helenística e transmitiram-na, produzindo assim gerações de pensadores muçulmanos que a aplicaram ao Corão, aos dogmas e às tradições sacras.

Este fenômeno prosseguiu até o século XI, para então perder força e morrer lentamente, devido à reação Islamista, uma reação estritamente religiosa com a exclusão da filosofia, por exemplo, da crítica religiosa histórica. Uma condição, portanto, é a de que haja cada vez mais muçulmanos estudando todas as ciências e dispostos a estudar o texto do Corão com um texto da literatura árabe, aplicando a ele os mesmos critérios.

O objetivo principal é partir de uma visão histórica desmistificada. E acredito que veremos uma tal releitura crítica e também religiosa do Corão: fé e cultura, fé e ciência, fé e razão. Este era o aspecto essencial do discurso de Ratisbona de 12 de setembro de 2006 e assim permanece, ainda que tenha representado um choque para muitos muçulmanos em particular e também para alguns cristãos orientais culturalmente islamizados.

ZENIT: De que maneira podemos inserir o nascimento e a difusão do Islã no contexto do plano salvífico?

Padre Samir: Esta é uma pergunta delicada, porém legítima. Podemos exprimi-la assim: “”No que foi dado a nós homens conhecer, teria o Islã um lugar nos planos de Deus?”

No curso da história, os cristãos com frequência se fizeram esta pergunta. A resposta dos teólogos árabes cristãos era que “Deus havia permitido o nascimento do Islã para castigar a infidelidade dos cristãos”. A meu ver, a verdade sobre o Islã pode ser associada à divisão entre os cristãos orientais, divisão esta frequentemente devida a motivações nacionalistas e culturais ocultas atrás das fórmulas teológicas. Esta situação os impediu de anunciar a Boa Nova aos povos – algo que o Islã fez, parcialmente!

O Islã restabeleceu a fé em um só Deus, o chamado a dedicar-se completamente a Ele, a mudar a própria vida a fim de adorá-lo. Trata-se de uma reação sadia, na continuação da tradição bíblica judaico-cristã. Mas, para alcançar tal êxito, eliminou todos os elementos que pudessem criar dificuldades: a natureza humana e ao mesmo tempo divina de Cristo; o Deus uno e trino, que é diálogo e amor; e o fato de Cristo ter se mantido obediente até sua morte na cruz, que tenha sido esvaziado de si mesmo por amor a nós!

É, portanto, uma religião racionalizada, não no sentido do Espírito e da racionalidade divina, mas no sentido de ser simplificada naqueles aspectos que a razão não pode aceitar. O Islã se apresenta como a terceira e última religião revelada... e, para nós cristãos, obviamente não é. Após o Cristo – que o Corão reconhece como Palavra de Deus, Verbo de Deus, é incompreensível a nós que Deus possa ter enviado um outro Verbo que é o Corão.

ZENIT: Mas então qual é o papel do Islã no plano de Deus?

Padre Samir: Creio que para nós cristãos seja um estímulo para nos reportarmos ao fundamento de todas as coisas: Deus é o único, a Realidade Última! Que é também a afirmação hebraica e cristã fundamental, retomada no Corão na belíssima sura 112: “Dize: Ele é Deus, o Único! Deus! O Absoluto!”. Uma afirmação que as ocupações da vida moderna nos fazem esquecer. O Islã nos lembra que se Cristo é o centro da fé cristã, o é sempre em relação ao Pai; para permanecer na unidade, ainda que o Corão não tenha compreendido o que seria o Espírito Santo.

Nós somos diariamente questionados pelos muçulmanos a respeito de nossa fé, e isto nos obriga repensá-la continuamente. Agradeço aos muçulmanos por suas críticas, pois as fazem tendo em vista a reflexão e não a polêmica. Diria o mesmo dos questionamentos colocados pelos cristãos.

Nossa vocação, como cristãos do Oriente, é a de viver junto aos muçulmanos, gostemos ou não. É uma missão! Pode por vezes ser difícil, mas devemos viver juntos. Por essa razão, diria que cabe aos muçulmanos defender a presença cristã e aos cristãos a presença muçulmana. De fato, não cabe a cada um de nós defender a si mesmo, pois assim se estabelece o desencontro.

Espero assim que o Sínodo sobre o Oriente Médio, que será celebrado entre os dias 10 a 24 de outubro deste ano, auxilie a nós cristãos tanto do oriente como do ocidente, mas que possa também servir também aos muçulmanos, ao repensarem o significado do plano Divino e redescobrirem, na amizade e talvez no confronto: porque estamos juntos nesta Terra, a Terra de Jesus, de Moisés e de Maomé? Esta Terra deve verdadeiramente se tornar “Terra Santa”!