O melhor em Chesterton é o sentido de alegria diante da vida

Entrevista a Diego Guilherme da Silva, editor do site Chesterton Brasil

Brasília, (Zenit.org) Thácio Siqueira | 1323 visitas

Dale Ahlquist , presidente do American Chesterton Society, anunciou nesse mês de agosto (1) que o bispo britânico Peter Jonh Haworth Doyle nomeu um clérigo para investigar a causa de beatificação  do escrito  Gilbert Keith Chesterton. A notícia pode ser lida nesse link.

Quem é Chesterton?, quais os seus principais escritos?, como se aproximar das suas obras?, estas e outras foram as questões que levantamos em conversa com Diego Guilherme da Silva, editor do site Chesterton Brasil.

Já “Foi realizado um evento em 2009 pela Sociedade Inglesa, dedicado a refletir sobre a possível santidade de Chesterton”, revelou Diego a ZENIT e disse que também o Papa Francisco, enquanto Cardeal Bergoglio, foi membro da Sociedad Chestertonina Argentina.

Diante da notícia da possível beatificação de Chesterton, ZENIT conversou com Diego Guilherme para trazer aos nossos leitores um pouco mais desse “autor extraordinário que tinha respostas certíssimas para os erros e dificuldades dos nossos tempos".

Acompanhe a entrevista na íntegra.

Sociedade Chesterton Brasil: http://sociedadechestertonbrasil.org/

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ZENIT: Fale-me um pouco sobre você, a sua vida e o seu interesse por Chesterton.

Diego: Conheci Chesterton na universidade, por incrível que pareça. Estava cursando a  Graduação em  Biblioteconomia pela UFMG. Na época, eu participava do Núcleo Universitário de Estudos Católicos (NUEC) e tínhamos semanalmente encontros de estudos, leituras, filmes e lanches. Cada semana um amigo apresentava a vida e obra de um escritor católico/cristão ou que tivesse obra com valores. Certo dia, um amigo apresentou a vida e obra de Gilbert Keith Chesterton. Ele entregou alguns textos. Fiquei impressionado. Estava diante de um autor extraordinário que tinha respostas certíssimas para os erros e dificuldades dos nossos tempos. Depois que li o livro Ortodoxia tive uma convicção inquebrantável de que tinha que fazer algo para divulgar o pensamento de Chesterton aqui no Brasil.

ZENIT: O que é a Sociedade Chesterton Brasil? 

Diego: A Sociedade Chesterton Brasil é uma iniciativa que surgiu no final de 2010 com um blog chamado Chesterton Brasil. O objetivo era reunir tudo o que tinha sobre Chesterton em língua portuguesa. Fiz o levantamento de pessoas que tinham interesse na obra dele. Conheci pela internet o Agnon Fabiano, de Fortaleza, e começamos um trabalho muito bom para divulgar Chesterton. Criamos um perfil no Facebook, Twitter e Youtube. Diante do interesse de milhares de pessoas, resolvemos, no final de 2012, lançar o nosso novo site e a Sociedade Chesterton Brasil. Como não temos dedicação exclusiva ao projeto, dedicamos nossos tempos livres. Nestes poucos anos a Sociedade já conquistou muitas coisas. Já ultrapassamos mais de 5.000 mil amigos no Facebook. Realizamos dois eventos para divulgação da obra de Chesterton, um em Fortaleza e outro de lançamento do livro Tremendas Trivialidades (Ecclesiae, 2012), em Florianópolis, e colaboramos com o DSI talks, realizado no Mosteiro de São Bento, em julho deste ano. Criamos uma versão aqui no Brasil da camiseta CHEsterton, que faz uma paródia com as camisetas do CHE Guevarra. O que nos deixa mais feliz é o excelente contato que temos mantido com pessoas e instituições interessadas em divulgar a obra de Chesterton. Temos um excelente contato com a editora Ecclesiae que tem publicado obras inéditas de Chesterton, com a Editora Oratório, com o a agência Aci Digital e com sociedades chestertonianas do mundo todo. Inclusive, estamos colaborando com a edição da próxima revista Chesterton Review, edição em português, da G. K. Chesterton Institute for Faith & Culture. E agora, com o Zenit que nos oferece este espaço.

ZENIT: Como as ideias de Chesterton podem ajudar os homens de hoje, especialmente o brasileiro?

Diego: Como chestertoniano posso dizer, e os chestertonianos não me deixarão mentir, que Chesterton pode ajudar em tudo os brasileiros. Um Chestertoniano de verdade, e comprovei em conversas com pessoas do Brasil e de outros países, utilizam várias situações do seu dia e aplicam as frases e pensamentos de Chesterton. O melhor em Chesterton é o sentido de alegria diante da vida. Sua perspectiva de que há um véu, que são nossa rotina, desesperança e pecados, que cobrem nossa visão diante da beleza da vida, da criação, nos faz acordar para retirar este véu e ver a beleza da criação. Outra coisa muito marcante em Chesterton que falta nos Brasileiros é a honestidade consigo mesmo. Vivemos muitas vezes num autoengano, não temos a humildade suficiente para dar voz ao coração, à consciência e nos deixar conduzir pela e para a Verdade. Chesterton viveu anos difíceis em sua juventude. Acredito que muitos, se não todos, dos leitores de Chesterton se reconhecem em muitos aspectos da vida dele. Queremos algo, queremos uma vida com sentido que nos torne felizes. Chesterton tem um conto - tem uma tradução em português no site chamada “O caminho para se ir de um lugar ao mesmo lugar...” -  muito bonito em que relata um homem que insatisfeito com sua vida, resolve buscar seu verdadeiro lar. Ele anda pelo mundo todo à procura. Depois de muito buscar, ele encontra uma casinha branca no campo. Ao chegar ele descobre que era seu velho e acolhedor lar. Como ele mesmo escreve no conto: “Todo lugar na terra é o começo ou o fim, segundo o coração do homem”.  Chesterton encontrou conforto e respostas na Igreja Católica. Isto é algo que ninguém pode contestar, pois ele passou sua vida em busca dela e em defesa dela.

ZENIT: Qual a principal ideia de Chesterton para você?

Diego: É difícil dizer, pois, apesar de estar à frente deste projeto, isso não significa que eu seja especialista em Chesterton. Comparado com o universo das obras dele temos poucas obras traduzidas para o português. Se os amigos Chestertonianos me permitirem, eu acredito que Chesterton tem em sua vida a mistura de um São Francisco na simplicidade de ver a vida e a beleza nas coisas simples e a sabedoria de Santo Tomás de Aquino em aguçar aprofundadamente nos erros e ver seus impactos e perigos e encontrar respostas irrefutáveis. Muitas das tragédias que temos visto que hoje acontecerem foram antecipadas por Chesterton que percebia em um pequeno erro de seu tempo poderia se transformar em um monstro em nossos tempos. Seu profundo amor à Família, acredito, é uma ideia que poderíamos dizer, principal nele. Seu modelo de Família era a Sagrada Família. Seu modelo de homem era o homem comum de senso comum. Sua vida foi em defesa da família, do lar, do maravilhoso universo de uma propriedade privada onde, como ele nos diz, é “um território circunscrito em que ele [o homem] é rei”.

ZENIT: Para quem queira aproximar-se do pensamento de Chesterton, qual seria uma boa ordem de leitura?

Diego: Comecei através do Livro Ortodoxia, depois o Homem Eterno e ganhei de um amigo o livro Santo Tomás de Aquino, que, diga-se de passagem, leio uma vez por ano. Não dá para fazermos uma linha cronológica de acordo com a publicação original de cada obra dele. Hereges foi escrito antes de Ortodoxia, por exemplo, e que somente saiu porque H.G. Wells desafiou ele a expor sua doutrina, já que os erros ele havia apresentado em Hereges. Tem também os excelentes contos do Padre Brown, que são contos detetivescos divertidíssimos e inteligentes. O livro O Homem Eterno é um pouco mais denso e difícil. Este livro influenciou o reencontro de C.S. Lewis com o Cristianismo. Foi lançado pela Ecclesiae O Que Há de Errado com O Mundo (2013), Autobiografia de Chesterton (2012), Tremendas Trivialidades (2012), Todos Caminhos Levam a Roma (2012), publicado pela Editora Oratório. Sugestão: comprem todos em nossa livraria virtual Chestertonlivros.com.br e comecem a ler, já!

ZENIT: Como a Sociedade Chesterton recebeu a notícia da abertura da investigação para o processo de canonização de Chesterton?

Diego: Temos acompanhado bem próximos estas notícias. Sabíamos que este desejo é antigo. O Papa Pio XI enviou um telegrama quando ele morreu colocando o título de “Defensor Fidei” para ele. Este, e outros fatos dizem muito.

Foi realizado um evento realizado em 2009 pela Sociedade Inglesa, dedicado a refletir sobre a possível santidade de Chesterton. Há um interesse muito grande no intuito de que seja realizado, pela Igreja Católica, um estudo da vida e obra dele.  

Um fator que pode colocar Chesterton um pouco mais em evidência é o fato de o Papa Francisco,  enquanto Cardeal Bergoglio, ter sido membro da Sociedad Chestertonina Argentina. Levamos um banner para divulgar Chesterton e encontrar Chestertonianos amigos na Jornada Mundial da Juventude. Colocamos o banner próximo às grades para quando o Papa Francisco passasse pelas ruas de Copacabana ele pudesse ver. Percebi que ele viu. Em nosso site temos a oração pela beatificação de Chesterton. Rezemos para que, se for da vontade de Deus, tenhamos a beatificação e canonização dele.